Monday, July 5, 2010

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O Verdadeiro Peso da Terra

Para Líria Porto

E se tudo o que disseram tiver sido mentira? E se não houver, finalmente, vida após a morte? Já imaginaram?
De um instante para o outro a chama da vida se extingue e, como uma vela apagada, deixaremos de iluminar a escuridão à nossa volta.
Assim, de repente, não mais que de repente e, como que reagindo ao movimento do dedo no interruptor, ou no botão onde Deus escreveu, em inglês, a palavra Off, chegamos ao fim.
Cessa o movimento do corpo, a memória se apaga e a estrada da vida chega ao seu final.
Acabou.
The End.
Fim.
Não há mais acerto de contas, nem purgatório, nem dono do inferno ou senhor do céu.
Não haverá São Pedro, nem Satanás para dar as boas-vindas à porta da próxima parada.
Nem céu, nem inferno, apenas o buraco negro do nada e a matéria se desintegrando, gradualmente, pasto de vermes.
Este é o ponto final. Todo mundo desce aqui.
A partir daqui, só o silêncio, a escuridão, a inércia, nada mais.
Já imaginaram?
Eu, que imaginei e fiz as contas, considero-me no lucro. Se não houver nada além, já terá valido a pena.
E valeu, porque andei de pés descalços sobre a grama orvalhada, mergulhei no doce das águas de um rio e no sal das ondas do mar. Vi o sol nascer e se pôr, conheci o amor, gerei crianças perfeitas, lindas.
Fui abraçado por mornas manhãs, fiz serenatas em noites de lua cheia, recebi o afago do vento e tomei banhos de chuva.
Li livros bons e ruins, conheci pessoas interessantes, gritei “gol”.
Chorei de alegria e de dor. Gargalhei, sorri.
Bebi a poesia de Neruda, Drummond e Lorca. Sonhei mudar o mundo e acordei, pacificado e nu, diante de um imenso deserto.
Não conheci a fome ou equivalente flagelo. Sempre existiu um cobertor para me proteger do frio e um teto como abrigo às tempestades.
Decifrei, menino ainda, o significado da palavra lar.
Fiz amigos, muitos.
E inimigos que não enchem uma mão.
Comi pão com mortadela de padaria, colhi fruta madura no pé, senti o perfume de um jasmineiro em noite de estrelas.
Nunca roubei, matei ou envergonhei quem me trouxe ao mundo. Fui abençoado por ter vindo de quem vim.
Ao longo dos anos tentei vencer a inveja e a mesquinhez. Não sei se consegui.
Mas meus pecados podem ser considerados menores, e os medos nunca me assustaram além da conta.
Saí de minha aldeia, corri trecho, visitei mundos que imaginava longínquos demais, paisagens tiradas de páginas impossíveis. Fui e voltei.
Aprendi a me arrepender dos erros e a pedir perdão, uma das tarefas mais difíceis para o ser humano.
Obra em andamento, eu sei que ainda tenho muito a melhorar. Mas não perdi a esperança.
Se tudo o que disseram durante toda a vida tiver sido mentira, não terei mais perguntas a fazer. Nem queixumes.
E me darei por satisfeito se tiver conseguido melhorar o produto final, quando tiver chegado àquela hora de ir desta para lugar nenhum.
Reduzido a simples matéria, sei que a terra me será leve, muito leve.

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A Música Que Toca Sem Parar:
Alceu Valença, dele e de seu tio Geraldo Valença, Junho.

Eu sei que é junho, o doido e gris seteiro
Com seu capuz escuro e bolorento
As setas que passaram com o vento
Zunindo pela noite, no terreiro
Eu sei que é junho!

Eu sei que é junho, esse relógio lento
Esse punhal de lesma, esse ponteiro,
Esse morcego em volta do candeeiro
E o chumbo de um velho pensamento

Eu sei que é junho, o barro dessas horas
O berro desses céus, ai, de anti-auroras
E essas cisternas, sombra, cinza, sul

E esses aquários fundos, cristalinos
Onde vão se afogar mudos meninos
Entre peixinhos de geléia azul
Eu sei que é junho!




34 comments:

Tania regina Contreiras said...

Ah, talvez hoje seja o dia de falar em transcendência, Roberto, parece...Acabei de comentar no blog do Ediney sobre o céu e o inferno que, felizmente, conhecemos em vida, e assim vamos aprendendo transitar entre dimensões diferentes nesta mesma vida que, acredito, antecede tantas outras. Pecados? Pecado é se privar do aprendizado da vida, venha ele como vier. Bem e mal? Certo e errado? Céu e inferno? Vida e além vida? Quem não se esquiva da vida conhece AQUI tudo isso. E Lá...? Costumamos falar de um Além único, como se, atravessando a fronteira da morte, só existisse uma única paisagem. Acredito em paisagens múltiplas, em territórios vários, em muitos, muitos Aléns... Em algum Além haveremos de estar um dia, sonhando e questionando outros Aléns, porque (eu penso), tendo morrido ou não, estamos fadados a sonhar com um Amanhã...eternamente.

Abraços,
Tãnia

Primeira Pessoa said...

tânia,
procuro não duelar muito com esses pensamentos. acho injusto nascermos sabendo que iremos morrer, que recebemos um carimbo de validade... isso é fueda...
tento me confortar (e me conformar) com pequenas imortalidades.

beijão,
r.

OutrosEncantos said...

Que bom Roberto, você é uma Pessoa feliz e realizada.
Mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, tenho a certeza que se tiver tempo de ver o tal de botão passar de on a off, você vai sentir muita tristeza, porque foi muito bom andar por cá.

Abração querido Amigo.

Batom e poesias said...

Verdadeiramente um belíssimo texto, Roberto.

Essa idéia me apavorou por muito tempo, até que compreendi:
Se não houver nada do outro lado, também não vou estar lá...

Então só nos resta viver.
Também estou no lucro.

bjcas
Rossana

Primeira Pessoa said...

andar por cá é muito bom, moça dos outrosencantos.
andar por lá? quero, não...rs
tento ser feliz, sim. confesso que não conheço, na acepção da palavra, o sofrimento.
umas tristezinhas aqui e acolá, fruto, talvez, da frustração de não me saber imortal.

quanto ao outro lado, tenho receios, sim.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

rossana,
no outro dia escutei alguém dizer que nascemos pelados e andamos vestidos.
nascemos choramos e, na caminhada do viver, esses momentos são bem menores.

sim, estamos no lucro.

aceite um abraço meu.
r.

OutrosEncantos said...

Também tenho Roberto, tantos. Me aflige sobretudo que me tranquem numa caixona exigua e me atirem num buracão sem ar nem Sol onde um montão de bicharada me vai roer, mastigar, se deliciar, até não sobrar mais nada... puxa vida, até parece que já tá doendo.... lolll....

Beijos :)))))

enquanto isso... sorrindo, né?!

líria porto said...

betinho
sou de sorte - se aqui liquido a fatura, já estou no lucro faz tempo - na verdade, sempre me achei privilegiada e por isso não tenho motivos para reclamar.

obrigada pela dedicatória!!
besos

nina rizzi said...

que texto lindo e verdadeiro, meu querido. à altura da nossa querida. lembro do zé da luz: carro véio lá norte é que anda mais.

beijos.

Fatima said...

Muito bom Roberto!
vou ler de novo.
Bjs.

Zélia Guardiano said...

Roberto amigo
Simplesmente maravilhosa a sua crônica! Faz pensar. Exige reflexão acerca de um tema que, vez por outra, quando não sempre, mexe com nossa cabeça...
Com sua licença, deixo aqui uns versinhos (antigos) de minha inventoria...

FIM

Não há ponte
Entre vida
E morte
De sorte
Que se salta
No infinito
[Frêmito esquisito]
Pulo do gato
Do alto do telhado
Da cumeeira
Da existência
Em que se queda
Para sempre
Num abismo

Vertigem
Vórtice voraz
Que começa aqui
E vai acabar
No nunca mais

Será assim?


Desculpe-me se invadi o seu espaço... É que senti vontade de dividir com você este pensamento que me ocorreu num dia de 1 995...
Enorme abraço!

Assis Freitas said...

sei que nada resta ou restará mas me ponho dúvida, sempre, quem sabe eu não alcance o grau de desenraízamento que toda luz precisa,

abração

contagotas said...

Roberto
Adoro seus textos! A forma clara, objectiva e humorada como descreve as inquietudes e interrogações que a vida nos coloca, me prende gostosamente na eles.
E se tudo o que disseram tiver sido mentira, se Deus falar inglês, se o botão do off for accionado, como ter medo do nada quando se viveu quase tudo?

E porque estamos vivos, um abraço

Patrícia Gonçalves said...

Roberto, lindo texto, obrigada por compartilhar conosco. Me fez um bem danado te ler, compartilho do teu sentir!

É sempre bom lembrar que, só viver já vale a pena, e ter a gratidão de reconhecer o valor da grama orvalhada, do raio de sol... Cara, a vida é tão rica, tão prazerosa quando conseguimos enxergar tudo isso.

Um beijo grande cheio de vida pra você!!!

Andrea de Godoy Neto said...

roberto, um arrepio me percorreu avisando que o texto era intenso...e lindo!

de cada palavra sentida e escrita, quado esse trecho:
"Bebi a poesia de Neruda, Drummond e Lorca. Sonhei mudar o mundo e acordei, pacificado e nu, diante de um imenso deserto."

que linda essa imagem, passificado e nu, diante de um imenso deserto...

A morte...que me importa a morte? importa-me a vida nesse instante...e depois, sei lá, né?

beijo grande

(ah, vou esperar belchior... ;)

Primeira Pessoa said...

andrea,
pacificado, tudo bem... nu? rs
pense em maradona, nu no obelisco de buenos aires... não é bonito, não...rs

ó, mandei o pequeno mapa do tempo.

espero que curta.

abraço grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

patrícia,
como diz o paulinho pedra azul, "a vida é bela... nóis é que fod'ela"...
e é.
pra que complicar, né não?

fico feliz pela sua passagem pelo Primeiro Pessoa.

abraço grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

maria ivone,
passei pelo "a conta gotas" e me deparei com um belo espaço, um aquário limpo.
fico grato pelas suas palavras elogiosas e espero ter a honra de sua visita aqui outras vezes.

abraço grande do
roberto.

Andrea de Godoy Neto said...

eu falava de nudez da alma, querido...da alma...ou do corpo metaforicamente falando....rsrsrs

obrigada pela música, adorei sim.

beijão

Primeira Pessoa said...

assis,
quem tem cu tem medo.
fico sempre naquela duvidas se sou se não sou, se é se não é... se será, se serei...

ou seja: papo profundo pra caráleo.

beijão, poeta de ondina.

r.

Primeira Pessoa said...

zélia,
nunca mais é um lugar longe demais... rs

li seu belo invento e me veio à memória uns versinhos de mário de sá carneiro... homônimo... compartilho com voc6e:

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

***

cada morto com seu desejo, né?
beijo grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

fátima,
bom mesmo é te ler por aqui.
e, se mereci uma segunda leitura, ganhei meu dia.

beijo procê.
r.

Primeira Pessoa said...

nina,
nossa líria (uma braçada deles, que se ressalte) merece muito mais que uma dúzia de palavrinhas ajuntadas por um desajeitado cronista.

ela sabe o quanto gosto dela. já gostava dela antes mesmo de (re)conhecê-la.
é amor antigo.

beijo procê,
r.

Primeira Pessoa said...

lírica,
se esse poema um dia ganhar uma página num livro, ratificarei a dedicatória.

qualquer afago é uma prova de amor, né?

beijo grande do
r.

Primeira Pessoa said...

moça dos outros encantos,
bem fez jorge amado que mandou incinerar a matéria, para que a caixona se transformasse em caixinha.

e ao pó ele voltou.
suas cinzas viraram adubo de uma mangueira que floresce todo ano, no quintal da sua casa no bairro do rio vermelho, em salvador.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

ah, andrea...
toda alma nasce e morre, nua. rs

mesmo a alma dos desalmados. rs

beijão
r.

Lua Nova said...

Li até o fim, quase sem respirar, tão profundamente suas palavras calaram em minha alma. Sou imensamente grata pela vida que tive, acho que sou privilegiada, mas o medo atávico permeia minha racionalidade. O medo da inconsciência, da individualidade desintegrada. Vivo entre a fé e a descrença, entre a luz e as trevas, entre a paz e o desassossego.
De qualquer modo, fiquei absolutamente encantada com sua crônica.
Parabéns.
Beijos.

Primeira Pessoa said...

lua nova (te leio e penso no boteco favorito em pinheiros, sampa...rs)...

fico feliz que tenha gostado deste meu arremedo de crônica.

viver nesta dualidade é da naturza humana. nascemos sob este signo, dentro do hiato entre a vida e a morte... esse espaço de respirares que chamam vida.


beijo procê,
r.

Luciana Marinho said...

muito bacana, moço. você.

'Reduzido a simples matéria, sei que a terra me será leve, muito leve.'


beijoca!

Jorge Pimenta said...

robertílimo, vejo que um comentário que aqui deixei sobre este teu texto belíssimo se evaporou... não procuro duplicá-lo (impossível), mas não deixo de te dizer que, como todas as tuas crónicas, me prendeu com as mãos e o coração.
um abraço, amigo!

Primeira Pessoa said...

ah, jorgíssimo... quero esse não...
só vale se for o outro...rs

rapaz, mesmo que fosse uma palavrinha...
vindo de você, guardo sempre o meu relicário.

abração, poeta.

r.

ps: terminou a "missão" lá da escola?

Primeira Pessoa said...

leveza vem das palavras de amigos queridos e sensíveis como você.

por vocês, vale a pena ficar nesses invencionismos...

beijo grande, luciana.

Jorge Pimenta said...

pois, a missão na escola não se esgota... vai-se cumprindo. a educação, em portugal, tem sofrido transformações incríveis, tendo por propósito um só: economizar. nessa medida, a lógica é "pôr a fazer" (mesmo que nada) para justificar o (pouco) que se aufere. daí que os alunos terminem os seus afazeres no final de junho/início de julho, mas os professores tenham de se ocupar de todo o tipo de tarefas justificadas (como balanços, aferições e programação dos próximos anos lectivos) e injustificadas (relatórios sobre a importância da batata no crescimento do jovens ou a relação entre o mobiliário e as cáries dentárias). meu querido amigo, parar, como cinco letras, só o saberei escrever em agosto. ah, quem me dera ter um ministro que entendesse o que é isto de educação e definisse um rumo que, na verdade, convergisse - com trabalho, sim, porque essa é a chave de tudo o que resulta - para a efectiva melhoria da educação!... em alternativa, copiamos modelos mais ou menos bem sucedidos, mas substraimos-lhes a essência... porque é dispensiosa. portuguesices, meu caro...
um abraço e... desculpa o desabafo!

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo:
quando um amiga desabafa, o outro apenas escuta.

escuto-te,

abração (e o ombro) do

roberto.