Wednesday, February 23, 2011

Nós, os novos jetsons

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A internet provocou uma revolução somente comparada à industrial.
A revolução industrial nasceu na esteira do liberalismo econômico, da acumulação de capital e uma série de invenções, como o motor a vapor e foi sendo abraçada aos poucos.
Nasceu na Inglaterra, no século XVIII e foi se alastrando pelo mundo, acarretando em profundas mudanças nos campos social e econômico.
Em anos mais recentes, algumas inovações foram fazendo parte de nosso cotidiano, transformando-nos, todos, em pessoas saídas de um capítulo dos Jetsons, aquelas histórias em quadrinhos que fizeram muito sucesso nos gibís e na Televisão a partir da década de 60. Hoje, aqueles Jetsons tornaram-se quase obsoletos.
Lembro-me de minha cara embasbacada quando me deparei com a primeira transmissão via fax.
Eu não conseguia conceber o fato de uma pessoa manuscrever uma carta num país, e a caligrafia aparecer exatamente como foi desenhada, instantaneamente, do outro lado, a milhares de milhas de distância.
O telefone celular foi outro invento que me encafifou bastante, no início.
Quando adquiri meu primeiro aparelho, senti-me o próprio Batman, ligando para o coronel Cintra do bojo de seu batmóvel. Sim, eu sei: falar ao celular enquanto se dirige, dá multa. Em Nova York dá até perda de pontos na carteira de motorista.
Eu era feliz antes do telefone celular, admito, mas hoje não sei se seria feliz sem ele.
E os telefones celulares estão chegando a um nível de sofisticação que chega a chocar.
Hoje é possível ligar o aquecimento da casa usando, a milhas de distância, o celular.
Com o celular, o usuário pode ver o jogo do time do coração, ler o jornal do dia e checar os emails, esta nova modalidade de correspondência surgida com a internet.
Entre as inovações mais absurdas acopladas ao celular está o GPS, aquele sistema que “sabe o mundo de cor”.
Graças a isto, milhões de pessoas já não se perdem entre o ponto A e o ponto B.
Fosse eu enumerar todas as funções de um telefone celular de agora, precisaria de uma crônica inteira. Pararei por aqui, atendo-me à internet, que agregou ao telefone celular muitas destas novidades tecnológicas
A origem da internet data dos anos 1960, num órgão chamado Fundação Nacional de Ciência. O governo Americano, numa iniciativa conjunta com a inciativa privada, começou a sua comercialização a nível empresarial nos anos 80. Uma década depois, ganharia o mundo e se transformaria numa grande coqueluche mundial, facilitando a vida das pessoas e criando uma nova realidade, muito aquém da virtual inicialmente apregoada.
O virtual e o real transformaram-se na mesma coisa. Já nem se confundem.
Em 2009, um terço da população mundial já fazia uso da internet e foram profundas as mudanças comportamentais e mercadológicas, surgidas desta nova possibilidade.
Algumas indústrias não resistiram ao surgimento dela, é verdade, e desapareceram quase que completamente, extinguindo-se como dinossauros.
Outras, como a do jornalismo, tentam se adaptar a este novo momento, com suas versões online.
Alguns mercados, como o da música e dos filmes, ainda procuram não cair no buraco negro do fracasso. Mas ainda não acharam o fio da meada da salvação, e as gravadoras de música e os distribuidores de filmes em DVD parecem distantes de enxergar luz no final do túnel.
Os hábitos das pessoas também mudaram.
Muita gente se conheceu nas salas de bate-papo surgidas na internet. A internet desmistificou o amor.
Muita gente também se separou, com o aparecimento destas mesmas salas de bate-papo e das chamadas redes sociais.
Nas últimas semanas, no entanto, é que a força da internet pode ser sentida em toda a sua pujança.
Numa parte do Oriente Médio, pedaço do globo onde ditadores oprimem o povo controlando a Imprensa como se fosse um braço das forças armadas, a internet surgiu como uma válvula de escape. E salvação.
Hosni Mubarak foi apeado do poder após 30 anos de opressão ao povo egípcio. Sua queda foi tramada e difundida pela internet como uma morte anunciada.
Desesperado, Mubarak ordenou que fosse interrompido o serviço de internet em todo o país, mas já era tarde demais.
Esta semana, Muammar Gaddafi, o coronel que manda e desmanda na Líbia desde 1969, vive a mesma situação que seu colega recém-deposto.
Desafiante, Gadaffi diz que não abdica do poder e que só sairá após ter gastado sua última bala.
E o mundo inteiro acompanhará este momento pelo mesmo meio, que serve agora de instrumento para a libertação do povo líbio.


A Música Que Toca sem Parar:da trilha sonora de uma destas novelas da Globo, esta canção de Cazuza na voz de Lulo Scroback... Modernidade.

Quando foi quando éramos intactos
Projectos imaturos
Fomos modernos
Nos couberam ternos, gravatas e moldura
Cultura e inferno.

Fossemos eternos quando era primeiro
Primeiro e certeiro amor
Era indolor querer tudo
Íamos na vida cada fome a cada fama.

Nos couberam ternos, gravatas e moldura
Cultura e inferno
Quando foi quando éramos intactos
Projectos imaturos
Fomos modernos.

Fossemos eternos quando era primeiro
Primeiro e certeiro amor
Era indolor querer tudo
Íamos na vida cada fome a cada fama.

E a grama era verde
O nosso vale e os nossos 1000 metros de medo

Intactos, projectos imaturos e modernos
Cultura e inferno

Fossemos eternos
Gravatas e moldura, ternos
Que nos couberam.

Fossemos eternos quando era primeiro
Primeiro e certeiro amor
Era indolor querer tudo
Íamos na vida cada fome a cada fama.

E a grama era verde
O nosso vale e os nossos 1000 metros de medo.

E a grama era verde
Nosso vale e os nossos medos.
E a grama era verde
O nosso vale e os nossos 1000 metros de medo

21 comments:

Assis Freitas said...

eu sou um cara do tempo do telex na redação dos jornais, tudo o mais veio e se foi incorporando. A internet vai demarcar novos territórios de humanidade ou, se formos saudosistas, a reclusão cada vez mais acelerada do homem. proletários do mundo via internet fazem revoluções, tio sam também treme sob a nova onda,


abraço desse sertanejo que vai lhe mandar sinais de fumaça, da boa

Ana SS said...

Uma vez os Jetsons eram tão impossíveis.... daqui a pouco viram os Flinstons.

Juliana said...

Érre,

Tenho uma tia avó que nesse ano completará 106 anos... Isso mesmo, 106. No seu aniversário de 100 anos fizemos uma serenata pra ela e a ouvimos cantar sem titubear serestas antigas do começo ao fim.
Sua lucidez é incrível.
Na época do centenário, a rádio da cidade fez uma entrevista com ela. Uma das primeiras perguntas que fizeram foi qual das invenções humanas mais a impressionou. Ela que passou pela invenção da televisão, do gravador, da fita cassete, vídeo cassete, do CD, do DVD, viu o homem pisar na lua, tantas e tantas inovações tecnológicas... qual foi a que mais a impressionou?
Tia Maricas deu um sorriso, e sem pensar muito respondeu:
- Meu fio... nenhuma dessas aí que você acabou de falar me encantou mais do que essa tal de internet. Na semana passada, minha tataraneta nasceu nos Estados Unidos, do outro lado do mundo... e eu assisti na mesma horinha. Vi ela nascendo aqui, de Coronel Fabriciano. Não é uma coisa de doido? Eu fiquei encantada.

Eu que tenho um "broda" que mora do outro lado do mundo não sei o que seria de mim sem a internet.
Me encanto com suas crônicas, com esse canal incrível que é a internet... e com tia Maricas.

Beijão
Diubs

Linda Simões said...

Roberto,

gostei tanto da tua crônica,mas tanto
que te peço permissão para usa-la em minhas aulas de Sociologia ( alunos do Ensino Médio)!


Parabéns!


Beijinhos

Luiza Maciel Nogueira said...

é incrível a informação se espalha com tanta rapidez - mas será que existirão seres humanos que a apreenderão dando o seu devido valor aquelas coisas simples - além da tv e do computador? sei não

beijos

Primeira Pessoa said...

luiza,
sou do tempo do ião, do papagaio de papel, das bolinhas de gude...
no futuro, minhas filhas falarão do wii com nostalgia, quero crer.

beijào do

roberto.

Primeira Pessoa said...

maninha,
minha avó ana emília pediu a conta com 104, contava causos, fazia trovinhas, fritava os melhores biscoitos de polvilho do mundo... lindinha demais... como sua tia maricas.

diubs, se não tivesse internet, mandaríamos sinal de fumaça... conosco, ninguém podosco.

adoro você.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

linda,
faça dos meus escritos aquilo que bem entender.
se é meu, é seu também.

tem toda a permissão.
use e abuse.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

ana,
jetsons e flinstons deu até uma rimazinha.
cê viu?
beijão do

roberto.

Primeira Pessoa said...

assis,
a internet é um trem medõin... não tem quem não trema.

eu tremo.
estrebucho.

estou pensando em me internar...rs

assis, saudade de prosear com você.
e espero que ainda role sem internet.

beijão do

r.

Jorge Pimenta said...

querido amigo,
não dispenso o telefone móvel, a internet, o blogue e outras revloluções/revelações tecnológicas que hoje nos tornam, na essência e nas práticas, distintos do que fomos dantes. ainda assim, adoro o cheiro charmoso do papel, uma boa conversa olhos-nos-olhos ou um concerto musical inloco. que dizer, pois?
julgo que a resposta a tens tu na tua crónica:

"Eu era feliz antes [...], admito, mas hoje não sei se seria feliz sem ele."

um forte abraço sem tecnologias; é que a amizade faz-se com o calor do corpo e da alma que, até prova em contrário, não têm clonagem electrónica possível!

Paulo Jorge Dumaresq said...

Bob, cê sabe das coisas.
Tenho dito e repetido.
Crônica lúcida e certeira.
Direto ao ponto.
Atingiu o cerne da revolução internáutica.
Por essa e outras é que me orgulho de ser seu amigo.
Abração do tamanho do mar de Ponta Negra.

Mirze Souza said...

Roberto!

Sempre pensei que a vida dos Flinstons se tornaria realidade, e que eu iria entrar de helicóptero pela janela da sala. Sem trânsito, tudo beleza.

Nada disso aconteceu. Odeio celular, Não sei nem quero saber de Ipod Iphone etc...

Bom mesmo era prosear com os amigos, cara a cara, mas a internet veio na hora certa. Não se pode mais sair sem correr risco de vida. Os amigos sumiram. A vida mudou de tal forma, que vou me juntar ao Assis, e mandar sinais de fumaça.

Nasci para ter vivido nos anos 30.

Beijos, maninho!

Mirze

Primeira Pessoa said...

mirze, às vezes acho que sou dos cinquenta... no pós-guerra...
mas o que sei eu?
aqui, agora, pode ser bão bambém.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
a recíproca é verdadeira.
e o abraço do tamanho descrito, e com cheiro de mar.

admiração perene do

roberto.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
acho que o segredo é não sofrer com as mudanças, equilibrar, calibrar, faz com que essas modernagens trabalhem pra nós, e não o contrário.

ser feliz, de qualquer jeito.

um dia destes nosso abraço sai do "papel"...rs

seu amigo do lado de cá do atlântico, o

roberto.

Cosmunicando said...

roberto,
a crônica é ótima e cheia de referências dos prós e contras da tecnologia que nos rodeia.
a internet é esse monstrinho cuja relação de amor e ódio ainda não se definiu pra nós... e como tudo, uma faca de "dois legumes" ou mais :)
acho que as duas coisas mais temíveis em relação a ela são o isolamento - uma tendência que a nossa geração precisa ficar atenta - e também uma facilidade de controle por parte do poder instituído (eu sei, é um paradoxo diante do que aconteceu no Egito e outras partes do mundo, onde seu uso foi libertador), mas o "lado negro da força" só pode ser ignorado se a gente for muito ingênuo.
antes que esse papo pareça pura paranóia e teoria da conspiração, lembro que o tal controle se dá de forma sutil e inteligente, via mídia manipulada e manipuladora, via pão e circo, via consumo induzido, via reforço ou aniquilamento de tendências comportamentais ou culturais...
bom, é papo pra mais de metro, e ainda bem que a gente tem este 'odiento' veículo pra ficar elocubrando e tomando café, né não? rs
beijos.

Primeira Pessoa said...

mê,
acho qe cê tem razão, sim. mas, se formos pensar, estamos numa situação complicadíssima.
é a aplicação daquela máxima "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come"

às vezes eu corro. às vezes eu fico.
e o bicho já comeu mais da metade de mim.

trem de doido.

beijão,

roberto.

Cosmunicando said...

rsrsrsrsrs... o bicho já tá é gordo de nóis :)
beijão!

Primeira Pessoa said...

tamo que é só a carcaça, mê.

só os ossinhos, como diria o meu quiroprata.

to morrendo aos cadicos... aliás, como todos nós.

sou do tempo em que o "isqueiro "de pedra" é que era a grande invenção.

beijo maior, só seu.

do

r.

cerâmica é... said...

Isso não te deixa cabreiro não? Eu fico! Lembro-me de duas coisas que me remetiam ao futuro; Jetsons e 1984 (Eric Arthur Blair/George Orwell). Sei que vivo neste mundo globalizado, aliás, só estou falando com você agora por causa dessa existência, mas não me deixa feliz o fato de vizinhos quererem meter o bedelho onde não são chamados não.
Peinha