Thursday, February 17, 2011

O Mundo Quase Perfeito de Sabé

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Lá vai São Francisco
Pelo Caminho…

No que vou me lembrando do poema-oração homenageando São Francisco de Assis, não posso deixar de evocar a presença de um novo “velho amigo” de Newark. Trata-se de Sabeh Aur, o bom e malandro Sabé, do estacionamento da Monroe Street.
Antes que me venham acusar de estar fazendo uma comparação incabível, quero deixar claro que Sabé está longe de ser um santo. Longe disto.
Ele é o protótipo do anti-santo.
Talvez fosse anjo, daqueles anjinhos barrocos que ilustram os cartões disponíveis nas papelarias: riso de canto de boca, descarado, e aquele eterno jeito de quem acabou de aprontar alguma.
É aquele sujeito que passou a vida inteira abusando da matéria que Deus lhe deu.
Espiritualidade, com ele, ganha uma outra dimensão, mais materialista e simplista.
Bebendo destilados profusamente desde muito moço e fumando feito uma chaminé, década após década, costuma dizer que tem uma saúde de leão.
Há mais de 25 anos só consome cigarros da marca Saratoga, considerada pelos tabagistas como o mais genuíno dos mata-ratos. Fortíssimo!
Saratoga para Sabé é brisa.
E é na brisa que ele vive a sua vida.
Stress, na sua opinião, é frescura de sujeito rico e metido a besta.
Aos sessenta e nove anos de idade continua gostando da vida que leva, e acha o dinheiro gasto em médico e farmácia “o dinheiro mais mal empregue do mundo”.
- Se o médico me manda parar de beber e fumar eu troco de médico na hora, ele diz.
E ele continua desfiando esse raciocínio estranho, defendendo a tese de que o dinheiro bem gasto é aquele do qual se desfruta e que proporciona prazer.
Ele curte bons restaurantes, moças de todas as idades, carteados, inferninhos, risos de amigos, cortinas de fumaça abafando a noite, anedotas de todas as classes e feitios.
Sabé é um excelente contador de piadas.
Assistir ao final de mais uma noite de boemia e testemunhar o espetáculo do sol surgindo novinho em folha é, na sua opinião, o grande show da vida.
- Esse é que é o verdadeiro Fantástico. Fala lá pro pessoal da TV Globo!
Não sei se Sabé mora com algum filho ou se tem uma namorada. Sei que é viúvo e vejo-o quase todos os dias no estacionamento em que trabalha.
Impressiona-me o esmero com que cuida dos carros, perfilados de acordo com o hábito do freguês.
Se o cliente sai mais cedo, seu automóvel estará infalivelmente perto do portão. Sob sua guarda, qualquer veículo ganha status de preciosidade.
Fora o capricho com que desempenha suas funções e a boa prosa, o que mais me chamou a atenção em sua personalidade foi o senso de compaixão e amor pelos animais.
Veio daí a evocação ao nome de São Francisco.
Não há cachorro empesteado ou gato “maltrapilho”, que não seja acolhido por Sabé em sua Fortaleza na Monroe Street. Sabe lá Deus quantos são, os animais abrigados por ele.
Pretos, pardos, estropiados, mancos, são muitos…
Num cantinho bem cuidado do estacionamento, ele colocou uma caixa de papelão em que uma cadela velha, cega e repulsiva aos olhos da maior parte das pessoas, passa seus dias comendo e dormindo na companhia de um gato de aspecto similar.
No mundo quase perfeito de Sabé, cachorro e gato são irmãos e aprenderam a conviver harmoniosamente debaixo do mesmo teto. São mais que amigos.
Comem, bebem e brincam, dando um exemplo aos homens de que é possível viver em paz.
- Gasto 150 dólares em comida para eles todos os meses, e estou até pensando em colocar a despesa em minha próxima declaração de imposto de renda, diverte-se.
Até pouco tempo, eu achava que tratava-se apenas de um velho boêmio com quem eu me encontrava pela madrugada nos primeiros anos de delírio em minha vida americana. Ledo engano.
Desde que lhe confiei o carro e começamos a conviver mais de perto, muita coisa mudou. Este seu amor pelos bichos, principalmente os deserdados e sem pouso, comoveram-me muitissimo e me fizeram olhar para ele com olhos mais reverentes. Olhos do mais profundo respeito.
Santo, sabe-se, Sabé não é. Sei muito bem.
Mas ver a felicidade com que os bichos o saúdam, toda vez que ele aparece na porta do estacionamento, faz-me crer que ele consegue fazer, à sua maneira, um mundo melhor para se viver.

Nota: Escrevi e publiquei esta crônica-homenagem para Sabeh Aur em setembro de 2002. Republico hoje, fevereiro de 2011.
Na semana passada ele nos deixou.
A Música Que Toca Sem Parar:
Mozambique Marrabenta Star , Nwahulwana.

22 comments:

Tanira Lebedeff said...

Que linda homenagem, Roberto.
Que linda a inspiração de faze-la quando seu amigo ainda estava entre nós.
beijo grande,
Tanira

Primeira Pessoa said...

Tanira,
estava mesmo pra te escrever. Passei no seu blog e gostei do que vi. depois comento com você.
Tente reproduzi-lo também no blogspot, posto que, acredito, é maior o numero de blogueiros lá e forma-se uma espécie de "corrente".

Te ler por aqui é uma alegria.
Saudades d'ocê.

beijão,
r.

Tania regina Contreiras said...

Roberto, não que eu duvide que Sabé era figura, porque pelo visto era mesmo, mas o olhar atento e a sensibilidade do cronista faz o mundo todo ficar especial, né não? Aliás, a boa crônica de um modo geral é sobre as coisas mais simples, o corriqueiro, é o tirar leite de pedras...
Essa também eu não conhecia (tá vendo como tudo pode ser novo sempre?) e leio com olhar de estreia, e olhar através dos seus olhos é sempre um deleite...
Beijos,

Juliana Vinagre said...

Sempre passo pra ver o que há de novo nesse espaço querido dedicado às palavras.
Há muito tempo não deixo as minhas... mas sempre, sempre saio carregando um pouco das suas. Como já te disse - sempre saio melhor do que cheguei.
Adorei a crônica - linda homenagem. Confesso que durante a leitura, temi que no final você dissesse: "Sabé nos deixou". A gente vai se apoderando das pessoas, mesmo sem conhecê-las. Seu texto tem esse poder... Trazer pra perto da gente aqueles que a vida te deu de presente.
Sorte sua ter feito parte da história de Sabé - sorte dele ter feito parte da sua.
E sorte nossa você ter compartilhado conosco.

Beijo grande Érre
Tô sempre por aqui
Diubs

Primeira Pessoa said...

sim, diubs, sabé nos deixou...
ha cerca de um mês ele me disse, vendo-me com um cigarro na boca:
- larga essa porcaria!
ri, envergonhado, e lhe prometi que pararia.
descobriria, após a sua morte, que sabé estava sofrendo de câncer na bexiga, pelejando... ainda assim me disse umas coisas engraçadas... rimos...

e é assim a vida, diubs. um dia estamos aqui, no outro já não estamos mais.

e isso dói mais do que deveria. a idéia da morte é algo que ainda não assimilei.

fico feliz demais quando cê passa aqui e embeleza o espaço com esse carinho que é só seu, essa sua maneira de fazer com que seu irmãozinho se sinta bem.

beijos, maninha.
beijos...

Primeira Pessoa said...

taninha,
a pessoa que ficou encarregada das coisas de sabé (um amigo desde os tempos em que ele morava em sào paulo) esteve no jornal e me deixou uma folha de papel.
era essa crônica, com uma dedicatória minha, datada de 2002 eguardada entre as coisas de sabé (documentos, cartas de família... essas cousas).
achei por bem republicar.
achei apropriado.
fico feliz que tenha te tocado.

beijão do

roberto.

Marcantonio said...

Sempre que leio a descrição de alguém que, assim como o Sabé, tem uma relação tão imediata, intensa e essencial com a vida, algo dentro de mim murmura, "Esse cara tá certo!". Porque, no fim das contas, parece haver só duas opções: viver intensamente e com o máximo de extravasamento de afeto possível ou, então, fingir viver. Meio-termo? Se existe deve estar ali por
onde transitam os santos...

Rapaz, acho que estou numa crise "comentativa".

Um grande abraço, Roberto!

Tania regina Contreiras said...

Ele guardou a crônica entre suas coisas de importância...que maior bênção para quem escreve sobre a alma uma coisa dessas, Roberto???? Fico mais uma vez tocada. Ah, e tô ficando veia...os olhos marejaram...:-)
Beijos,

Assis Freitas said...

Sabé sabia e se doava em sapiencia.

abraço

Primeira Pessoa said...

assis,
sabé era uma figurinha. descobri que ele foi jogador de futebol profissional no são paulo na década de 50. era ponta esquerada e ficou conhecido como "turquinho".

doido, né?

abs,
r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
essa é a minha leitura. quando o amigo dele me entregou o papel, foi exatamente assim que senti.

beijao,
r.

Primeira Pessoa said...

marquinho,
passando por uma crise comentativa (e muitos outros ivas e e ivos possíveis) estou eu. pó pará!
não sei se a gente mede água, fogo, acuçucar e pó de café no vever... juro que não sei... eu consigo ter momentos de "desafiar" a máquina... mas, no geral, comportom-me.
é a tal da mortalidade, quero crer.

abs,
r.

Jorge Pimenta said...

mundo mais-que-perfeito, querido amigo. tudo o mais é beatitude...
abraço!

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
esses sào os sábios da pós-modernidade.

crês?

abração,
r.

Mirze Souza said...

São esses "sabés" que fazem a vida ter sentido.

Viver bem, amar os animais e dedicar-se a uma coisa que só faz o bem a quem não sabe falar, como os bichinhos, é coisa de São Francisco mesmo. Prá disfarçar ele fuma, bebe e vive do seu jeito. INTENSO!

Linda crônica, Roberto!

Beijos

Mirze

Índigo said...

La música y tus palabras me llevan. Preciosa crónica, Roberto. Suave, lírica, llena de palabras bellas sobre tu Sabé, sobre su personalidad, sus coches, sus gatos, sus perros. Trazas con imágenes y palabras la vida de un hombre que aún sabe disfrutar de lo más pequeño de la vida, en esas dimensiones que olvidamos, tantas veces... Y la crónica es tan dulce, tan bella, contándonos tu encuentro y tu aprendizaje de la grandeza de esta persona que, al final, cuando he leido "él nos ha dejado" me ha dolido que él ya no esté para que nos sigan contando más crónicas, más historias de este santo, tan real, y de sus bichos, y de tus primeros días en Newark. Pero su mirada de ojos brillantes y la música que toca sin parar arrullan las tristezas. Un abrazo azul índigo enorme.

Primeira Pessoa said...

indigo,
sabé partiu mas deixou uma trajetória bonita, lições de vida, amigos que não lhe cabiam nas mãos.

deixou saudades, o anjo barroco, sabeh aur.

que a terra lhe seja leve.

abração,

roberto.

Primeira Pessoa said...

ele disfarçava, mirze...
e disfarçava muito bem...

sabé era um camaleão. e cameleão também é bicho.

beijo grande procê, mirze.

bom domingo!

Andrea de Godoy Neto said...

Roberto, eu certamente teria sido amiga deste teu amigo. Gosto de quem sabe dar importância às coisas que têm primazia, e acolher a vida é,certamente, prioridade.

te deixo um mimo:
O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS
Manoel de Barros

"Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras fatigadas de informar.
Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios: Amo os restos como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios."

beijo pra ti

Primeira Pessoa said...

só hoje vi o seu comentário, andrea. fico feliz que esteja voltando, e que tenha passado por aqui.
e esse manoel de barros foi um presentaço.

obrigado por presente e presença.

beijão do

roberto.

Linda Simões said...

Pois,

achei bonito.


Muito bonito o gesto.


...


Abraço

Primeira Pessoa said...

linda,
lindo também é o seu gento de passar por esse minifúndio de afetos.

beijão do

roberto.