Thursday, May 13, 2010


















Amara, embaixadora do Brasil


Leio com espanto em meu próprio jornal a situação de Amara Guimarães, doente e abandonada num hospital de Nova York. Terei que visitá-la urgentemente.
Se existe uma pessoa que jamais mereceria estar em situação semelhante, essa pessoa é Amara Guimarães.
Ela não merece a frieza de uma cama de hospital.
Ela não merece a solidão.
Amara Guimarães, que é um dos melhores astrais que conheci nesta vida.
Tem uma alma florida, esta mulher.
Uma alma com o matiz das plumas das araras vermelhas e azuis de sua terra.
Alma azul-turquesa do mar de Olinda.
Alma doce do melado dos canaviais.
Alma airosa da brisa do entardecer em sua Recife.
Alma com o frescor da sombra dos coqueiros balançando ao vento.
Alma com o burburinho do Capibaribe e do Beberibe, sangue de suas veias.
Alma de tapioca, de frevo e de maracatu.
Amara Guimarães, tudo de bom.
Brasileira, brasileiríssima, há muito que veio para a América.
Quando?
Só ela sabe.
Eu costumava brincar, dizendo que ela fora cozinheira num dos navios da armada de Cristóvão Colombo.
E ela ria, divertida, como sempre.
Acho que, na vida, ela só conheceu o riso. Ou tenha chorado pouco.
Por isto semeou tanta alegria e bondade por aí.
Amara, maravilhosa pessoa.
Fecho os olhos e posso vê-la, momentaneamente, flanando serena numa paisagem bonita que existe em algum lugar de minha memória, talvez lá em sua terra natal.
Há muito que não a vejo em pessoa, materializada, carne e osso diante de mim.
Meses?
Talvez mais de um ano. Nós que nos víamos com frequência.
E, sempre que nos víamos, era muito bom.
Cobria-me de abraços e beijos e perguntava se eu já estava ‘aprendendo a escrever’ em português.
Grande figura!
Atarracadinha e divertida, aquela nordestina aguerrida que fez e faz história por aqui é uma braçada de alecrim.
Sempre enfiada numa camisa do Flamengo, ou da seleção brasileira - duas de suas grandes paixões -, é uma espécie de embaixadora itinerante do Brasil neste país.
Uma embaixadora sem embaixada, embora seu apartamento no Greenwich Village já tenha acolhido centenas de brasileiros sem um teto ou o que comer.
Amara é assim, meio madre Teresa, meio Carmem Miranda.
Meio Sérgio Mendes, meio Gisele Bundchen.
Meio Zé Carioca, meio Pelé.
Pelé, aliás, de quem ganhou a amizade.
E é costume do Rei parar para lhe dar atenção e mimos, sempre que eles se reencontram, herança ainda dos tempos do New York Cosmos.
Pouca gente divulgou tanto o Brasil e suas coisas como Amara.
Por onde ela andou e anda, aí caminhou e caminha, um pedaço bonito do Brasil.
E é por estas e outras que acho que o governo brasileiro deveria não apenas ampará-la e socorrê-la neste momento de grande necessidade - através do consulado -, mas também lhe prestando uma merecida homenagem em vida.
Sei que isto lhe faria muito feliz.
O amor dela pelo Brasil é tão grande, que muitas vezes vi-a trocar os pés pelas mãos, chegando mesmo a cometer gafes engraçadas.
Lembro-me de um episódio em que saímos do Sob’s (bar novaiorquino) com um grupo de amigos, e começamos a perambular pelo Village, buscando um bar para tomar a saideira.
Fomos parar em um especializado em música country, na Thompson Street.
Mesas e cadeiras rústicas, o chão coberto de serragem, chapéus e botas de couro e pedaços de uma diligência pendurados na parede, e um cantor desfiando canções de Willie Nelson, Dolly Parton e Hank Williams Jr.
Num dado momento do final da noitada, o cantor diz-se aberto a sugestões da platéia.
Amara atravessou o salão, foi até ele e cochichou algo ao seu ouvido.
O cantor abriu os braços, franziu a testa e acenou a cabeça negativamente.
Nossa heroína virou-lhe as costas com cara de braba, saiu pisando alto, fez-nos pagar a conta e obrigou que deixássemos aquele recinto “i-me-di-a-ta-men-te!”
Lá fora, explicou-se:
- Não dá pra fica num lugar em que o cantor nunca ouviu falar de Tom Jobim e da Garota de Ipanema.


A Música Que Toca Sem Parar:
Cazuza, dele e de Leoni, Manhatã


Cheguei aqui num pé de vento
Já tenho carro e apartamento
Sou brasileiro mandigueiro
Tô aqui pelo dinheiro
Virei chicano, índio americano
Blusão de couro, os States são meus

Agora eu vivo no dentista
Como um bom capitalista
Só tenho visto de turista
Mas sou tratado como artista
E até garçon me chama de sir
Oh! Baby, baby, só vendo pra crer

Eu andando pela neve
Em pleno Central Park
Com as estrelas do cinema
Faço cenas no metrô
Com meus tênis All Star
Deixando as louras loucas
Com meu latin style
Não sou mais paraíba
Sou South American
Aqui em Manhatã
Aqui em Manhatã

E quando a saudade aumenta
Descolo um feijão com pimenta
E um Hollywood no chinês
Lá na Rua 46
Virei chicano, índio americano
Blusão de couro, os States são meus

Eu fumando um baseado
Em frente a um policial
Aqui tudo é tão liberal
Vou xingando em português
Depois, gasto o meu inglês
Deixando as louras loucas
Com meu baticulelê
Não sou mais paraíba
Sou South American
Aqui em Manhatã
Aqui em Manhatã

20 comments:

Jorge Pimenta said...

hihihihi! de certeza que já tinham ouvido falar da garota de ipanema; talvez um desencontro de pronúncias :)
pois, caro roberto, por que não fazerem uma petição em prol da ideia da homenagem que sugeres na tua crónica? de outro modo, tudo permanecerá como está...
um abraço!

Tânia regina Contreiras said...

Fiquei entristecida lendo a crônica. Sei lá, lembrei de outras tantas figuras que dignificaram e enobreceram o nosso país e que hoje se encontram esquecidas. Sim, pode-se fazer um movimento, um apelo, qualquer coisa...mas é que são tantos os esquecidos, injustiçados...Não sei, fico sem esperança de que alguém o ouça, nos ouça...ah! estou mesmo meio derretida hoje.
Abraços,
Tânia

Primeira Pessoa said...

jorge,
ja chegamos tarde. esta crônica foi escrita algumas semanas antes da morte de amara.
ela "subiu" sem que chegássemos a nos ver por uma derradeira vez.
a crônica talvez tenha sido a única homenagem recebida em vida. e sequer cheguei a saber se ela leu o que foi escrito pra ela.

ó, o cruzeiro perdeu...rs
to achando que aquela ida ao estádio numa final de torneio continental foi momentaneamente adiada...

abração, poeta!

r.

Primeira Pessoa said...

o que mais existe nesta vida é gente injustiçada, deserdados de carinho... desamparados de afeto...
chueguei à conclusão de que desaprendemos a dizer um "muito obrigado".
também ando à flor da pele, tânia.

beijão procê.

r.

Zélia Guardiano said...

Amigo Roberto

Muito me tocou sua linda crônica. Fez-me pensar sobre a transitoriedade da vida.
Amara foi essa pessoa incrível que você descreve e um sopro mais forte apagou-lhe a chama, assim, nessas circunstâncias... Muito triste!
Lamento que não tenha havido tempo para nenhuma providência na direção que você sugeria. Que pena!

A música casa perfeitamente com o escrito: você é expert, mesmo no momento tenso. Mais uma razão para admirá-lo tanto.

Um grande abraço!

PS- Fiquei felicíssima com sua visita! Felicíssima!
Obrigada!

Fernando Campanella said...

Olá, Roberto, que bela homenagem a essa brava mulher, pra frente, pra cima, trampando nos States, mas com raízes luminosas e declaradas no Brasil. Fiquei sabendo aqui nos comentários sobre o passamento dela. Talvez tenha sofrido, tenha morrido com poucos ao seu lado, mas a estrela brilha, e está eterna em tua bela crônica.
Fiquei feliz em saber que meu blog é um lugar tranquilo em tua alma, isso me encheu de vontade de continuar, sempre.
Grande abraço, irmão.

Primeira Pessoa said...

zélia,
visitarei sempre, tenha certeza. sou meio "avoado", mas me lembro sempre de retribuir o carinho que me dão.
nem sempre consigo, vejo-me obrigado a admitir.

como não consegui visitar amara guimarães no seu leito de hospital.

no fim do dia sobrevivo soterrado por pequenos remorsos, grandes culpas...

beijao carinhoso do
roberto.

Primeira Pessoa said...

é engraçado (e irônico) isto, fernando...
amara deve ter vivido uns quarenta anos aqui nos eua e não sei se ela terá ido ao brasil rever os seus.

será que ela os terias?

essa grande dúvida acaba de se acender dentro de mim.
mais uma.

abração, fernando.
abraçao desse seu amigo

roberto.

Batom e poesias said...

"Meio Madre Teresa, meio Carmem Miranda..."
Generosidade com alegria.
Ótima mistura.

Agora já somos amigos.

bj
Rossana

Jorge Pimenta said...

amigo roberto, escrevi um texto-resposta enorme, mas, ao que parece, tê-lo-ei perdido. bom, procurarei sintetizar o essencial.
a matilde rosa araújo, num singelo texto ("a fita vermelha"), desenvolve uma argumentação narrativa que culmina com a tese de que os nossos gestos não se podem adiar.
pois, amara terá recebido poucas homenagens na parte final da sua vida, todavia, o texto que escreveste, as palavras-carinho que lhe tribustaste e os olhos que as leram e que correram para ela, antes da sua morte, tornam-te alguém que não adiou um gesto de amor e lhe devotou o justo reconhecimento.

p.s. li, hoje de manhã, nos jornais, que a libertadores já se foi; o cruzeiro afundou-se em duas salvas de um tal fernandão... amigo, perde-se a libertadores, mas ganha-se a dos campeões europeus, porque o benfica, para o ano, não vai facilitar. e nós vamos lá estar :)
um abraço!

Primeira Pessoa said...

rossana,
se é meio (ou meia, como diria o lula) madre teresa, meio carmen miranda, poderia ser generosidade com alegoria, né? rs

sim, amigos. claro.
seja bem vinda!

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
nem tudo está perdido. ainda temos o jogo da volta. não gosto de culpar juízes, mas tivemos um gol(o) legítimo anulado (por graça e obra do auxiliar) e uma bola que bateu nas duas traves e não entrou. mas, confesso, tá bem difícil.
mas a europa se curvará diante do benfica.
e vamos estar lá.

a "fita vermelha"... vou procurar até achar.
certos textos, assim como certos gestos, não podem ser adiados.
abração desse seu amigo de são raimundo,
o roberto.

Jorge Pimenta said...

não deves achar em "a fita vermelha", pois é um conto integrado num conjunto intitulado "o sol e o menino dos pés frios". se não encontrares, diz-me que o arranjo digitalizado.
um abraço! ah, e faço figas para o jogo da segunda mão :)!

Paulo Jorge Dumaresq said...

Bravo, Roberto.
Crônica mais que perfeita e humaníssima.
Não conhecia a Amara.
Qual era a atividade dela?
Rapaz, seu gosto musical é mui semelhante ao meu.
Adoro "Manhatã" que está no disco "amarelo" do LP Burguesia, do Caju.
O solo de trompete é qualquer coisa.
Amigo, ótimo fim de semana nessa América protestante velha de guerra.
Beijos na alma.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Robertílimo,
Que crônica linda, rapaz, triste mas linda. Amara merece cada linha do mais puro linho que teceste pra ela, e a vontade era conhecê-la também. E a conheci, aqui e agora, esotericamente, poeticamente, por tuas mãos que ensinam a andar com fé. Eu vou guardar para sempre Amara em meu coração, para sempre Amara.

Abraço bem brasileiro,
Ramúcio.

Ps; Assim dessa maneira, o Jorge Pimenta e você me põem a torcer pelo azul das Alterosas na Libertadores (além do Robinho, irmão celestino que tenho que consolar quando a vaca vai pro brejo: ainda não foi, tem a volta e futebol é jogado...). Bem fica melhor esse meu velho coração com a alegria dos amigos do meu mais verdadeiro afeto, poetas.

Primeira Pessoa said...

da rama,
robertílimo parece nome de xarope pra tosse... e olha que desse departamento eu manjo...rs

amara era uma baixinha arretada. um anjo mameluco.

o jorgíssimo é cruzeirense desde criancinha, parceiro. saiba-se sabedor disto.

e de muito mais.

abração desse seu amigo

R.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
eu não sei qual era a atividade da amara. sei que ela fora casada com um velho judeu novaiorquino, mas o cara pedira a conta bem antes dela... acho que a atividade profissional dela era "viúva" e "ajudadora" dos necessitados.

nunca atinei pra isto, sabia?

ela tinha envolvimento com artes... perambulava pelos quatro cantos levando o nome do brasil.

abração procê, PJ.

do
RL.

Primeira Pessoa said...

jorge, ja pesquisei e não achei.
caso tenha digitalizado, aceitarei de bom grado.

agora, caso não esteja, não quero tomar o seu tempo. certo?

abração desse que tá tossindo os bofes,

RL.

anita sereno said...

ola Jorge passando rapidíssimo para te desejar um bom fim de semana desculpa a ausência beijos voltarei com mais calma

Primeira Pessoa said...

anita,
jorge é o meu irmãozinho portuga (rs)...
eu sou o brazuca...

e, sim, fiquei feliz com sua passagem pelo blog.

abração e amizade do
r.