Friday, May 7, 2010

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Três Poemas de Daniel Faria


Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrassem
No vazio de ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto o deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti."


§


Procuro o trânsito de um homem que repousa em ti
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança

Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos – e todas as coisas
Que nos chegam da distância

Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas

Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas


§


Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe



O poeta Português (Baltar, 1971) Daniel Faria morreu após um acidente doméstico no mosteiro de Singeverga(nas cercanas da cidade do Porto), onde era noviço, em 1999.
Tinha apenas 28 anos de idade.
É considerado por muitos o maior poeta português de todos os tempos.


A Música Que Toca Sem Parar:
Zé Miguel Wisnik canta, Tempo Sem Tempo, de sua autoria

vê se encontra um tempo
pra me encontrar sem contratempo
por algum tempo
o tempo dá voltas e curvas
o tempo tem revoltas absurdas
ele é e não é ao mesmo tempo
avenida das flores
e a ferida das dores
e só então
de sopetão
entro e me adentro no tempo e no vento
e abarco e embarco no barco de Ísis e Osíris
sou como a flecha do arco do arco-íris
que despedaça as flores mais coloridas em mil fragmentos
que passa e de graça distribui amores de cristais totais sexuais celestiais
das feridas das queridas despedidas
de quem sentiu todos os momentos

37 comments:

Tânia regina Contreiras said...

Sempre fiquei pensando nos poetas que morreram cedo, que mal tiveram tempo de experimentar todo o resto da ida, que não veio, mas que deixaram versos que a gente lê (como esses), que nos fazem...senão pensar, ao menos sentir qualquer coisa que sentiram antes de partir, e que a gente entende, porque sentiu sente ou pressente...

"Ando humildemente aos redores do verbo"... Só isso põe os meus sentidos em alerta, só isso clama por completude, debulhar, decifrar, dizer mais, mas não: o poeta morreu e os versos findaram-se.

Abraços (hoje estou pensativa)...

Zélia Guardiano said...

"Procuro saber... Como se põe descalço um homem que necessita de atravessar-se".
Pronto! Pra que mais?

Um grande abraço, Roberto!

Fatima said...

Quarto poema:

Conserto a Palavra

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a

Daniel Faria


Leio sempre Daniel Faria.
Bjs.

Mulher na Polícia said...

E de pensar que ele já houvesse escrito "Explicação da ausência".

Um beijo!

Lídia Borges said...

Daniel Faria...

Tanto que ficou por dizer, com certeza!
Tão bonito o que ficou dito.

Obrigada!

Primeira Pessoa said...

tânia,
a lista é imensa. no brasil temos castro alves, torquato, augusto dos anjos... e pelaí afora...

foram imensos.
e não morreram.

a obra imortaliza, sabia?

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

zélia,
eu ja tentei me atravessar.
não consegui atravessar as retinas.

menor em tudo, conformo em ficar me olhando de fora pra dentro.

beijo procê.

Primeira Pessoa said...

fátima,
fico absurdado com o numero crescente de pessoas que apreciam a obra de daniel faria (entre tantos outros).

perdi tempo demais com os noticiários. mea culpa.

abração,
roberto.

Primeira Pessoa said...

moça na polícia,
eu não consigo explica sequer o que ja foi explicado.

resta-me admirar os capazes.

beijo grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

lídia,
ja pensou que ele pode ter partido porque já tinha dito tudo?

esse moço é eterno.
eterno moço.

poeta imenso.

abraçao do
r.

Jorge Pimenta said...

Robertílimo, Amigo!
É sempre um desafio passar cá pelo teu blogue. Quem nos apresentas, hoje? Que memórias nos trazes ao presente? Que nomes um dia escutados nos lábios do vento, deixaste morar em tua casa?
Hoje é Daniel Faria. Um poeta que tem a repercussão inversamente proporcional ao seu talento. Quase nenhuma. É incrível como alguém que viveu menos de 30 anos tem uma obra poética tão extensa e tão profunda. Ser singular, sem dúvida. É tempo de se falar dele como se fala de outros que hoje são monstros (con)sagrados. Da mais elementar justiça, diria.
Aqui vai um poema dele de que gosto particularmente:

Conserto a Palavra

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a

Daniel Faria, in "Homens que São como Lugares Mal Situados"

Um abraço!

Tânia regina Contreiras said...

Oi, Roberto, sim a obra imortaliza, eu sei...E mais do que deixar vivos os que se foram, mantém vivos os que precisam desse alimento.
Abraços

líria porto said...

eu vou falar redondo - putaquiopariu!!!!!

olha, esse me deixou entre o céu e o inferno - o céu por serem versos belíssimos, o inferno porque com mais do dobro da sua idade, jamais escrevi tão bonito e ainda tenho medo de acidentes domésticos!!!

besos, amore!

"

Primeira Pessoa said...

ah, líria, cê é muito modesta... rs
ó, conselho de amigo?
não fique se comparando com ninguém... quem fica se comparando são esses homens inseguros, que ficam medindo o tamanho do bigorrilho...rs

além do mais, lírica, pra mim, você é incomparável...rs

adoro você.
c6e sabe...

Primeira Pessoa said...

é verdade, tania... noutro dia tava falando com um amigo, bem sacana, que disse que eu me alimentava de "vento"...

bendito o vento de jesus. rs

beijão procê.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
você é barra pesada, parceiro.
é possuidor de um riquíssimo arsenal. e tem sempre a palavra certa (aquela que des-conserta) na ponta da língua portuguesa (rs).

te ter flanando neste espaço é um luxo.

abraçao do
roberto.

ps: to a meio mastro, poeta. muito pólem no ar... em excesso... chego à conclusão de que nem tudo na primavera é bom... quebra-se aí um mito pessoal... enquanto asmáticos (como eu) se fodem bem bonitinho.

Magnolia said...

Outro poeta que não me canso de ler... o " concerto a palavra " é um dos poemas mais bonitos
E tu a descobrir coisas
Beijo

Jorge Pimenta said...

pois, se não é verdade... tu destróis o mito da pura Aurea Mediania, do Locus Amoenus... quem ousaria desdenhar de prados verdejantes, com os insectos bailando ao som da sinfonia das cores, que exala os mais doces pólens... ahhhhhh... vejo que as coisas boas são as que te fazem mal, amigo poeta, escritor e jornalista! ataquemos com anti-estamínico, pois a prima-vera não se pode perder. :)
um abraço, desejando-te as melhoras!

líria porto said...

sabias não? com relação à escrita eu sou insegura!!!

tamanho do bigorrilho?? não é isto... é que eu queria escrever muito melhor do que escrevo - mas não consiiiiiiiiiiiigo... ainda...
besos

Júlio Castellain said...

...
Muito bom.
Abraço, amigo.
...

Assis Freitas said...

Penso que a eternidade é um lugar sem tempo, uma espécie de vácuo onde se guarda uma memória. E ali dentro tudo se cristaliza, inclusive as palavras inauditas. Daniel deve morar nesse espaço. Abração.

Tânia regina Contreiras said...

E,Roberto,, é tão bom alimentar-se de vento...tão tão bom! É que muitas pessoas que não sabem.rsrsr

Abarços

Luciana P. said...

Muito interessante! Não conhecia esse poeta. Lindos versos! E olha que eu conheço muitos poetas portugueses, já que fiz Letras. Muito bonito e aconchegante o seu blog.
Engraçado, parece que eu já estive aqui...

J. said...

P.S. E aí, como tá a leitura dos "Mias"?

Mais um beijo.

J. said...

Por isto gosto de vir aqui: é pura cultura, pura novidade, pura...

Adoro você e seu espaço!

Um beijo.

Primeira Pessoa said...

J,
to me deliciando com os contos de O Fio das Missangas. TO bem no finalzinho e é como o tudo que Mia Couto produz: palavras cheias de alma, bem construídas. To cada vez mais fã.

E, cada vez mais, fã estou, também de você e de seus blogs. Muito esmerada e sensível, essa juliana caribé.

beijo grande do
r.

Primeira Pessoa said...

luciana,
é provável que ja tenha vindo, sim. e por qualquer que tenha sido o mseu otivo, não tenha podido olhar o blog com um olhar mais demorado.
e aí fica essa sensação de Déjà vu . sei bem como é isto.

seja bem vinda.
volte sempre que lhe der vontade.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

tânia,
gostasse eu de carnaval, sugeriria a criação de um novo blog: o "comedores de vento".

nos reuniríamos dentro de bibliotecas para os ensaios pré-folia. nosso samba enredo seria, todo ano, a dor, o amor, o desamor, a solidão, o medo, a fragilidade da existência humana... e por aí afora.

nossos carnavalescos: aqueles que gostamos de ler.

ah, melhor parar por aqui. senão essa "viagem" vira crônica.

beijão procê.
r.

Primeira Pessoa said...

assis,
a eternidade pode estar, também, em mil e um poemas.

beijão procê, poeta de feira.

r.

Primeira Pessoa said...

julio,
fico feliz que tenha gostado do daniel faria.

daniel, que fez.
poesia.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

líria,
carece de insegurança, não.
desde que cê seja a melhor poeta que a liria porto conseguir ser, o resto é sobra.

acredite-me: você ainda não bateu com a cabeça no teto.

e eu fico daqui, só te espiando, só te cubando...
só te admirando...

sou seu fã, líria porto.

beijo grande. só seu.

r.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
nosso eterno roberto carlos tem uma cançao bem antiguinha, que diz que "tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda"...rs

eu, malabarista de circo na vida, caminho mais ou menos nesse corda bamba.

por isso padeço durante a polizinização da primavera. e o que é pior: não nascem flores em mim.

agravante:
a gripe, a febre e a bronquite me enchem de espinhos.

às vezes deliro.

beijão, poeta bracarense.

Primeira Pessoa said...

magnólia,
sou partidário daquela máxima de que aprenderemos enquanto vivermos.

não paramos de descobrir e aprender enquanto respirarmos.

beijo grande.
r.

líria porto said...

betinho - li e releio sempre alguma miçanga do mia couto - adoro a sua escrita!
besos

Primeira Pessoa said...

lírica,
aquele conto dos dois amigos que jogavam dama é fantástico... gosto também do menino poeta, filho do mecânico que nada entendia... a avó que segue o neto até a cidade grande e resolve viver entre os mendigos...

pra falar a verdade, gostei de todos as missangas do livro.

beijão domingueiro.
ah, e um feliz dia das mães.
e todos os outros tumém.

beijão do
betim de betim (rs)

Marcantonio said...

Incrível esse Daniel Faria, a julgar por esses poemas. No fundo é bobagem imaginar sobre o que mais fariam esses entes brilhantes mortos precocemente, se vivessem mais tempo. Mozart aos sessenta, Van Gogh aos oitenta... Essa partícula "se" em arte não existe. Sabe-se lá que pulsões alimentam a obra de vitalidade, não é?
Mas esse terceiro poema vai ficar reverberando aqui na minha cachola. É como se a linguagem poética não se descolasse do cotidiano, mas se fizesse cotidiana, como se o poeta já despertasse falando assim.
Como deve ser grande a lista das boas coisas que eu ignoro.

Abração.

Primeira Pessoa said...

essa particula "Se" também não joga futebol.
"se" a bola passasse... "se" o goleiro tivesse pegado... "se" não tivesse batido na trave...

pensando bem, "se" não presta pra nada, marcantônio.

cada coisa é do tamanho que é.
mas: matuta-se:
se a fruta caiu do galho, verde, balançada pela ventania.
se a fruta ficou madura antes do tempo.
se a fruta apodreceu.

se...

tantos "ses", ja percebeu?