Tuesday, May 11, 2010

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"A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;


a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;


a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas."


Nuno Júdice, in 'Teoria Geral do Sentimento"


A Música Que Toca Sem parar:
Ney Matogrosso interpreta Mal Necessário, bela canção de Mauro Kwitko.

Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher
Sou a mesa e as cadeiras deste cabaré
Sou o seu amor profundo, sou o seu lugar no mundo
Sou a febre que lhe queima mas você não deixa
Sou a sua voz que grita mas você não aceita
O ouvido que lhe escuta quando as vozes se ocultam
Nos bares, nas camas, nos lares, na lama.
Sou o novo, sou o antigo, sou o que não tem tempo
O que sempre esteve vivo, mas nem sempre atento
O que nunca lhe fez falta, o que lhe atormenta e mata
Sou o certo, sou o errado, sou o que divide
O que não tem duas partes, na verdade existe
Oferece a outra face, mas não esquece o que lhe fazem
Nos bares, na lama, nos lares, na cama.
Sou o novo, sou o antigo, sou o que não tem tempo
O que sempre esteve vivo
Sou o certo, sou o errado, sou o que divide
O que não tem duas partes, na verdade existe
Mas não esquece o que lhe fazem
Nos bares, na lama, nos lares, na lama
Na lama, na cama, na cama

30 comments:

J. said...

Essa vida doida, tão boa e tão difícil. Tão paradoxal, desvalorizada e apreciada de forma tão veemente.
Viver é bom. Só não é fácil.

Beijão.

Primeira Pessoa said...

como diria guimarães rosa...
viver é muito perigoso, J...

mas é muito bom.

abração do
r.

Cosmunicando said...

faz um bem vir aqui... lava a alma!
saudades deste espaço :)
abração procê.

Zélia Guardiano said...

..."mais que perfeita imprecisão"...
Então: vida é isso.
Nuno falou e disse...
Maravilha!

Grande abraço, amigo Roberto.

Jorge Pimenta said...

nuno júdice é, para mim (e para muitos), um dos mais geniais poetas portugueses vivos. comprei, há não mais de um mês, a sua antologia poética: um achado, uma preciosidade! a propósito, acaba de publicar o seu último livro, "guia de conceitos básicos".
entretanto, trouxeste-nos à memória o inesquecível, ney matogrosso. acabo de passar no youtube para recordar...
um abraço, amigo!

nina rizzi said...

ai, esses poetas portugueses um dia me matam. mas, às vezes, é tão bom dilacerar...

um beijo, meu querido. obrigada por esse momento, nessa manhã de tanta cinza...

Denise said...

parodoxal e intensa.........alem de imcompreensivel e incompleta,porem não menos bela.
VIDA !


Grata por tanto...
adoro vir por aqui......apanhar LUZ

afagos

Renata Luciana said...

Amo essa canção, interpretação bárbara do Ney. Não resisitirei em postar.

Beijos

Primeira Pessoa said...

renata,
ney matogrosso continua em grande forma. essa é uma gravação original. em 2008 ele voltou a incluí-la em um cd (mais de 20 anos após tê-la gravado pela primeira vez) com um arranjo mais "econômico" e uma interpretação mais contida.
mas ficou bom também.

Grande abraço procê.
R.

Primeira Pessoa said...

denise,
nós é que ficamos felizes com a sua presença no blog.

sinta-se em casa aqui.

abração do
R.

Primeira Pessoa said...

nina,
os portugueses inventaram essa língua, é natural que conheçam melhor suas nuances, seus atalhos...

mesmo nos dias mais plúmbeos... principalmente nestes... talvez pela melancolia que está no dna lusitano...
eu acho bão demais da conta...rs

beijão procê.
r.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
já coloquei na minha lista de objetos do desejo as duas obras...
nuno júdice é profundo e denso.

na minha ignorância, demorei mais de 40 anos para descobrí-lo.

em tempo, quero crer.

abração desde newark, new jersey, capital mundial de allen ginsberg...
r.

Primeira Pessoa said...

zélia, querida...
a vida é isso... e é aquilo...
e é tudo o mais...

trem medõin e, na outra mão, tão prazeiroso, a vida e o ofício de viver.

gosto disto.

beijão procê do
r.

Primeira Pessoa said...

ô, mercedes...
cê faz uma falta danada aqui no blog.

ja estávamos pensando em fazer um abaixo-assinado... uma greve, algo sim...

abraço grande procê,

do
r.

Andrea de Godoy Neto said...

Roberto, presenteia-nos com esses versos incríveis...obrigada!

Também demorei um pouco para decobrir Nuno, mas creia, foi em tempo.

profundo e denso são meus objetivos preferidos, condição primeira para que algo me conquiste a alma...e descreve bem o grande poeta.

Quanto ao Ney, bom...é o Ney, né...

beijos pra ti

Tânia regina Contreiras said...

Poemas e músicas se complementam aqui, às vezes objetiva, às vezes subjetivamente, mas sempre. Sim, mas podemos senti-los em dois tempos. Eu cá comigo, sempre que cá estou, prefiro fazer a mistura dentro de mim, e dá um negócio bom, muitas vezes uma terceira coisa. O poeta e o Ney deram um negócio bom, meu irmão! Aí eu leio, ouço a música, me dessassosego na cadeira, procuro alguém pra falar qualquer coisa que nem sei bem o quê...nem sempre acho, aí volto, paro e penso: esse Roberto é danadinho, heim??? rsrs

Demorei (que estou lenta e ensombreada), mas eis-me aqui olhando pelo seu olhar.

Abraços,
Tânia

Juan Moravagine Carneiro said...

Confesso que não conhecia Nuno Júdice, logo só tenho que agradecer por me permitir conhecer este grande poeta...

abraço

Assis Freitas said...

Teoria geral do sentimento feita de minúcias, delicadezas, pequenos fragmentos que nos guarda a memória. E essa vastidão de luzes que acendem o peito e nos transbordam em poesia. O meu abraço.

Anonymous said...

o colonizador nos deixou ao menos esta herança, né: a palavra-idioma.

ah, eu também gosto da melancolia. ouça blue, da cat power.

beijos.

nina rizzi

Primeira Pessoa said...

andrea,
reunir ney matogrosso e nuno júdice é mais fácil do que mastigar água.

é uma combinação perfeita... algo do tipo queijo com goiabada-cascão...

mineiramente, o abraço do
roberto.

Primeira Pessoa said...

ainda bem que cê veio, tânia...
o ney ja tava perdendo a voz de tanto repetir essa belíssima "mal necessário"...

mas chegou a tempo.

beijão procê.
r.

Primeira Pessoa said...

juan,
tenho descoberto poetas maravilhosas graças à internet... e graças à generosidade de alguns amigos que partilham essas maravilhas...

depois fica fácil... é só passar pra frente...

abração procê do

roberto.

Marcantonio said...

Ah! A minha ignorância vai se sabendo maior com esses poetas que descubro aqui. Poesia com pensamento. Essa aparente oposição entre perfeição e imprecisão diz tudo.
Por falar nisso, como você interpreta o "viver não é preciso" do Fernando Pessoa? Trata-se de precisão (exatidão) ou de necessidade?

Grande abraço.

Primeira Pessoa said...

esses portugueses são fodásticos, marcantônio. conhecem os mais recônditos lugares das palavras desta língua que esculpiram.

viver?
uma causa natural.

não consigo sentir a vida de outra forma. não como uma obrigação. não como um desafio. não como um compromisso.

na outra mão, tava pensando sobre nossas ignorâncias, e o mau uso desta palavra.
quem desconhece não pode se considerar ou ser rotulado de ignorante.
não, mesmo.
aquele que sabe e ignora, sim.

to numa puta ressaca moral. meu time acaba de perder em casa para o são paulo.

tô sentindo (e pensando) em sépia.

Primeira Pessoa said...

nina,
cat power é de se ouvir cinco minutos antes de tomar uma dose cavalar de raticida.

é daqueles "trem" bonito, mas que machucam.
como o sol na cara.

cat power tem uma luz escura.

beijão
r.

Primeira Pessoa said...

a grandeza das pequenezas, diria eu, em bom elomarês.

assis, tem hora que pensar dói um tanto, né?

Fouad Talal said...

well well.... faz parte.... tem volta celestino.... tem volta....

Primeira Pessoa said...

não tem, fouad. mas teve.
teve volta, sim...

o são paulo deu uma "voltinha" em bh...
banzo do cacete...rs

Tânia regina Contreiras said...

Eu estava com saudades (e nem sabia!) do Ney cantando o Mal Necessário. Fiquei ouvindo e reouvindo... Cada frase da música daria um post. Por que será que esqueço de estar revendo sempre as coisas de que gosto?

Músicas nos remetem a um tempo, um lugar, um cheiro... Viajeeeeeeeeeeiiii..

abraços,
T.

Primeira Pessoa said...

existem músicas que fazem isto com a gente. que adormecem dentro da gente.
e quando acordam, tem vocação pra vendaval.

e fazem um estrago.

outras acordam mansas.
e deixam a gente assim, com cara de tonho da lua.

beijão procê, tania.