Monday, May 31, 2010














Dois Poemas de Manuel Bandeira

Vou-me Embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha falsa e demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive


E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada


Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada


Porquinho-da-índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira
[namorada.

(Transcrito de Estrela da vida inteira, p. 130)


A Música Que Toca Sem Parar:
há cerca de quinze anos encontrei-me com Geraldo Azevedo em Framingham, Massachussets, à tarde, em um lugar onde ele faria um show, à noite. Já nos conhecíamos de outros carnavais.
Emendamos numa prosa de horas.
Naquele dia falei-lhe de uma canção que ele me confidenciaria, jamais ter cantado em um show.
À noite, ele cantaria esta canção no espetáculo e eu ainda ganharia uma inesquecível dedicatória. Trata-se de uma canção falando de alguém que saiu de sua terra para tentar a sorte em um novo lugar.
De Geraldo Azevedo e Marcus Vinícius, na voz do primeiro, a lindíssima Coqueiros...


Por entre as palmas desse lugar
Por coqueiros de beira mar
Beira os olhos do meu amor
Buscando os meus
Vento a soprar
Quero as águas verdes
E quero enfim
Ser maior do que esse mar
Que avança sobre mim
Sobre a areia quero amar
Mas vou te dizer amor, mulher
Na paisagem do teu corpo
Vou deixar meu sorriso

Entre cirandas e cirandar
A cidade Recife, o sal
Do mar que derramei, chorei
Quando deixei tudo por lá
Entre pedras, ruas, só meu amor
Entre a gente que falava de mim
Que parti
É hoje aqui quis me lembrar
Vendo as praias tão sem cor, enfim
Sem as palmas dos coqueiros meu amor
Eu me lembro

15 comments:

líria porto said...

mais um poema lindíssimo de manuel bandeira:


irene no céu

irene preta
irene boa
irene sempre de bom humor.

imagino irene entrando no céu:
- licença, meu branco!
E são pedro bonachão:
- entra, irene. você não precisa pedir licença.

*



besossssssssss

Tânia regina Contreiras said...

"Do mar que derramei, chorei quando deixei tudo por lá..." A Passárgada do Geraldinho Azevedo, com sotaque nordestino é, de fato muito bela, não?

"E quero enfim ser maior do que esse mar que avança sobre mim ...". Beleza pura!

Abraços,
Tânia

Marcantonio said...

A Antologia Poética do Manuel Bandeira foi o primeiro livro de poesia que comprei. Lendo-o e relendo-o ao longo da vida ele foi se tornando cada vez melhor. E a Antologia em frangalhos. Alguns poetas estão mudos na minha estante, quietinhos, alinhados, as lombadas limpas; mas ele não, ele e alguns outros foram feitos para "usar". Como disse lá no Pedro, prefiro jurar ao Bandeira do que à bandeira.

POEMA DO BECO

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

- O que eu vejo é o beco.

Por falar em porquinho-da-índia, que vaca é aquela, hein! Eu sou mais o porquinho...


Abração, Roberto!

nina rizzi said...

roberto, querido, vc colocou hoje o meu poeta brasileiro preferido junto de um dos meus cantores preferidos. ah, que proeza, ah que beleza. pasárgada, espere por mim...

beijos.

Primeira Pessoa said...

nina,
então eu dei sorte, uai... veja no youtube uma entrevista de geraldinho do jô, em que ele conta de sia prisão na época da ditadura militar. um relato arrepiante. geraldinho lá, na timidez dele, envergonhado por ter sentimentos menores, contando que carregava uma gilete no bolso... para o caso de um dia reencontrar seu algoz cortar sua jugular.
veja e depois me conte.
beijos do
roberto.

Primeira Pessoa said...

marcantonio,
manuel bandeira estava adormecido entre minhas melhores recordações quando foi despertado numa discussão com o renato braz semana passada.
renato não entende essa minha paixão pela poesia portuguesa do final do século passado e ficou me esfregando manuel bandeira na cara.

com o perdão do trocadilho, não cuspi no bandeira. rs

continuo adorando os poetas lusitanos do final do século passado, sim. mas manuel bandseira é sagrado.
e aqui fico eu, perdidamente apaixonado entre o profano e o sagrado.

beijão procê, marcantonio...

Primeira Pessoa said...

líria,
esqueçamos bandeira por um segundo... ontem eu pensava num poema de drummond, num momento bin laden de sua poesia... este:

Elegia 1938



Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as acções não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade colectiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Primeira Pessoa said...

taninha,
em sua homenagem reproduzirei também a letra de coqueiros.
toma, é sua!

carinho do
roberto.

Tania regina Contreiras said...

Bela letra, que coisa, não! Ele é tudo de bom!
Valeu, Roberto

líria porto said...

nossos poetas - bandeira, drummond, quintaninha, adélia, cora, cecília, joão cabral, affonso romano, manoel de barros e o glorioso gullar - laureado ontem com o prémio camões - só para citar os que me vieram à memória, são leitura para esta vida e muitas outras!
besos

líria porto said...

ah, tenho um poeminha, creio que publicado no meu último livro - que ainda não vi, pois o caminho entre o brasil e portugal ainda é o mar... risos

lavai:

(des)bandeirar
líria porto

vou-me embora pro horizonte
lá sou amigo do infante
aquele que adiante
depois da ponte da fonte
busca a nascente o poente

vou-me embora pro horizonte
não me pergunte o quadrante
nem me peça que o aponte
vou-me embora pro horizonte

(lã
onde o sol
alua)

*

besossssssssss

Assis Freitas said...

Bandeira é o cara, escreveu muito e se dizia poeta menor, perdoai. Estrela da nossa vida inteira. Abração

Primeira Pessoa said...

na terra que bandeira foi menor... nem sei que terra é essa, assis...
manuel bandeira é imenso.

Primeira Pessoa said...

lírica,
eu tava pra te perguntar sobre esse novo livro em portugal...
tomara que até outubro cê ja o tenha em mãos...
belo poema... como sempre... como tudo o que cê faz...

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

tania, acho que a letra é do marcus vinicius. geraldinho é mais melodista e tem um trabalho relevante neste sentido. gosto das coisas que ele fez com capinam e com fausto nilo.

sou suspeito de falar.
sou fã.

beijão procê.
r.