Friday, May 28, 2010

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"No centro da cidade, um grito.
Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar
e sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado.
Tem a dimensão de um túmulo e todos os teus gestos
são uma sinalização em direcção à morte.
Mas hoje, ainda longe daquele grito,
sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso.
Possuo para sempre tudo o que perdi,
e uma abelha pousa-me no azul do lírio
e no cardo que sobreviveu à geada.

Bebo, fumo, mantenho-me atento,
absorto - aqui sentado, junto à janela fechada.
oiço-te ciciar: amo-te, pela primeira vez,
e na ténua luminosidade que se recolhe ao horizonte,
acaba o corpo.
Recolho o mel, guardo a alegria,
e digo-te baixinho:
Apaga as estrelas, vem dormir comigo
no esplendor da noite do mundo que nos foge."

(Al Berto)


A Música Que Toca Sem Parar:
de Gilberto Gil, na voz e violão de Celso Fonseca, Tempo Rei.

29 comments:

Andrea de Godoy Neto said...

pode ter convite mais lindo do que este?
"Apaga as estrelas, vem dormir comigo
no esplendor da noite do mundo que nos foge."

é belíssima a poesia de al berto..."sentado na fímbria do mar..."

sabe, roberto, passar por aqui é como ir a um bom restaurante...a gente não sabe o que vão nos servir, mas sabe que será bom uma barbaridade!

beijos

ah!! tá tri bonita essa foto nova :D

Marcantonio said...

Olá, Roberto! Há aqueles que dizem que a maior parte da poesia brasileira dos últimos tempos se compraz em curtos jogos de palavras, em minimalismos herméticos, deixando de lado a possibilidade de um pensar poético. O que admiro nesses poetas que você tem mostrado é justo o contrário: eles não temem o discursivo, e o revestem com uma camada sensória belíssima, cheia de texturas e sonoridades, mas que não afasta a idéia. É como se estivessem nos falando dela como numa confidência cantada. Por falar em discurso, acho que tô fazendo um. Como você diz, que sei eu disso? Mas que belo final tem esse poema!

Abração!

ryan said...

a noite foge do leste
à oeste guardo seu sabor
meio doce
meio amargo


belo poema
gilberto gil é muito bom

Jorge Pimenta said...

al berto revisitado. sempre e a todo o instante com o entusiasmo de uma infinita primeira vez!
caro amigo, cá te espero! para além dos lugares que mencionas, conhecerás ainda os deleites geográficos, paisagísticos e gastronómicos :) de Ponte de Lima, do Lindoso e Gerês, de Leça, de Viana do Castelo, entre um número infindo de lugares imperdíveis. crê-me!
um abraço!

Márcia Cristina Lio Magalhães said...

"amo-te, pela primeira vez,
e na ténua luminosidade que se recolhe ao horizonte,
acaba o corpo"

Lindo!!

Um beijo,

Primeira Pessoa said...

ou, como diriam kleiton e kledir... fecha a luz e apaga a porta...rs... algo assim...

andrea, fiquei umas duas décadas dentro de um coco, e la dentro não havia poesia. o jornalismo (a notícia, os noticiários e os noticiosos) tira a poesia da vida da gente.

restaurante?
dizem por aí que um dia ainda vou ter um.

beijão proce.

r.

Primeira Pessoa said...

marcantonio,
mão, contra-mão... tanto faz... parnasianismo, modernismop... rotula-se pra que se transforme a produção em produto... trem de doido... oswald, mario e cia atropelaram dos anjos... e vai haver um gatuno que dirá que, desde então, nada mais aconteceu e que a poesia de mimeógrafo evaporou-se com o cheiro de álcool daquelas manuais que empapelavam as ruas...

a poesia renova-se todos os dias.
caviar ou feijoada...
trufa ou tropeiro...
não importa o formato... se robusto... se nouvelle cuisine...

como diria o berloque gomes, poesia tem que alimentar, meu caro watson...

hoje é dia de feira.
bora lá, poeta?...

Primeira Pessoa said...

ryan,
bom mesmo é te ter por aqui.
gilberto gil que me perdoe.

abração pra você.

r.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
não to brincando: vou bater em sua casa e ficarei, no mínimo, uns seis meses...rs

seus alunos ficarão órfãos. não te deixarei trabalhar.
sua mulher pedirá o divórcio. seus filhos, apesar de ficarem com pena, ficarão do lado da mãe.
sou péssima infuência e companhia, bracarense.

quando eu sair de portugal te deixarei, como presente, uma cirrose...

beberemos em portugal e faremos xixi na espanha.
eu sempre quis fazer muito xixi na espanha...rs

por isto beberemos muito... em portugal...
rs

na outa ponta da corda, minas gerias espera por você, jorgíssimo.

bora lá???

Primeira Pessoa said...

márcia,
costumo dizer que esses portugas inventaram esta língua (complicada e linda) e é natural que a desossem com canivete ou gilete.... com uma maestria dos mestres...

eu curto.
e curto muito.
beijão procê.
r.

Jorge Pimenta said...

ahahahah!
vou ter de meter licença sem vencimento por seis meses e, entretanto, comprar acções de uma qualquer cave vitivinícola :-).
Prepara-te que, na volta, levas comigo uns dozes meses, no mínimo, hehe!
um abraço, mestre andré das palavras!

Primeira Pessoa said...

uai... fechada a parceria, jorgíssimo...
em terras altas de minas gerais, montamos um alambique de cachaça.
beberemos toda a produção.

trabalhar? eu?
nunca gostei muito, mesmo...rs

é provável que eu fique falando "pá"... em contrapartida, tenho certeza de que chegará ao velho minho versado em "uais"...

eita!

Juliana Vinagre said...

Dilema de poeta...
"cada palavra escrita é um dardo envenenado"... mas também é tábua de salvação... né não?
Esse Al Berto não é fraco não... deve ser parente seu, Ro Berto.
Beijo
Diubs

nina rizzi said...

caramba, e o que são esses derradeiros dois versos. eu fico até religiosa.

beijos.

Assis Freitas said...

"bebo, fumo, recostado na poltrona/dói-me a vida como uma posição incômoda." F. Pessoa

abração

Primeira Pessoa said...

assis,
este, o resumo da ópera:
passei o dia mexendo no quintal...
um século limpando a piscina (fechada desde o inverno)... outro aparando árvores... capinando nos cantos da cerca (bicho to com calos nas mãos... acredite: calos!)... não deu nem pra replantar eventuais buracos no gramado... ficou pra amanhã.
juro: qualquer im-posição é in-cômoda...
sou um homem-dor...
se é que pode chamar "isto" de homem... rs
to um trapo... uma boneca emília que gosta de pão de queijo e cachaça.

aliás... vou beber umazinha antes do banho... pra "afrouxar" aquilo que um dia foi musculatura....

é veio... o tempo passa e faz um estrago...rs

bom mesmo é te ver por aqui.

beijão, assis.

Primeira Pessoa said...

fotinha bonita, nina... lavinia ao fundo, correndo em direção ao mar....

você religiosa?
du-vi-de-o-dó...rs

nem em poesia.

beijão, feliz, por te rever aqui.

r.

Primeira Pessoa said...

diubs,
não seria uma talba?
ó, ce vai na gravação do dvd dos renatos logo mais?
recebi um a mensagem do renato hoje, falando que a gravação do dvd dele com o ex-boca livre zé renato será hoje...
eu queria muito ir... ter podido ir...

saudade d'ocê, pangaroa.

beijoca,
do érre.

ps: esse al berto aí de cima é fodástico.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Delima,
Roberto Mendes é fã dos dois Renatos, e de você (ainda não te viu mas já te gosta - feito dizia seu amigo e xará Roberto Drummond sobre um livro que ainda não tinha lido mas já gostara antes de o ler, e eu gosto dessa sacada), e eu também sou fã dos Renatos, e sei que o dvd estará lindo e mágico...
Al Berto: fiquei fã também...

Abração,
Darrama.

Zélia Guardiano said...

Amigo Roberto
Poema lindíssimo, da primeira à última palavra!
Fiz meu grifo em "Tem a dimensão de um túmulo"...
Isso porque ontem , ainda ontem, foi enterrado meu amigo Antonio Spada . Amigo daqueles que a gente gosta muito , mas que faz tempo que não vê...
Trabalhamos juntos alguns anos atrás. Eu era coordenadora de eventos e ele era motorista, de maneira que andávamos sempre juntos, muito juntos. Amizade que parecia de mãe e filho... Convivência diária por quatro anos.
Pois bem, fazia tempo que eu vinha dizendo pra mim: preciso conversar com o Antonio!
Não conversei...
Tenho até uma mensagem recente dele, no orkut. Mensagem que não respondi...
Ai, Roberto!
Grifo também..."uma sinalização em direção à morte."
Versos maravilhosos de Al Berto!

Primeira Pessoa said...

zélia,
tenho testemunhado aqui a dor de alguns amigos, perdendo pessoas de seus círculos íntimos.
prefiro pensar na vida que se renova, todos os dias.
na outra mão, aprendo que não devemos adiar a retribuição dos afetos.
enquanto ainda podemos.

beijo grande procê.
que seu domingo seja de paz.

r.

Primeira Pessoa said...

da rama,
gravaram ontem num teatro paulistano o "papo de passarim", cd e dvd.
deve ter sido lindo e mágico.
adoraria ter estado lá, engrossando as palmas.
não me faltarão oportunidades.

roberto mendes?
sou fã.

dele e de você.

beijão do
r.

Magnolia said...

Roberto a poesia por aqui é sempre linda...mas os teus projectos com o jorge !!!! meu amigo não sei o que diga :)
Beijo

Fernando Campanella said...

Maravilha este poema do Al Berto, o final é luminoso. Obrigado pela bela postagem. Grande abraço, meu amigo.

Juliana Vinagre said...

Érre,

Hoje não me pergunte meu nome.
Se perguntar, tenha paciência de aguardar alguns minutos... vou precisar pensar antes de responder.
Fui à gravação do DVD ontem - o nome do show não poderia ser melhor: "Conversa de Passarim".
Piaram bonito os dois viu...
Você teria se emocionado como eu.
O bom é saber que vem aí o registro em CD e DVD pra gente revisitar.
Depois veio o bom e velho boteco de domingo (feio ficar falando disso aqui, mas agora que já comecei...).
Quadro digno de Salvador Dali, a minha visão era essa: alta madrugada, cantoria enchendo nossos corações, Toni e Cacá no violão, eu e Talita no pandeiro, e ali, atrás do Toni, dançando e cantando a plenos pulmões, o Raí.
É, o Raí, jogador.
E esse cantava feliz e dizia para o colega ao lado: - Bicho, eu tenho que trazer o Sócrates aqui. Meu irmão vai pirar nesse bar...!
Só no bar do Toninho...
Como acabou minha noite? Agorinha a pouco. Tomando café numa padaria com Eduardo Gudim, Toni, Paulinho e outros perdidos na madrugada.
E tô aqui, trabalhando agora... firme igual prego no angu.
A certeza é só uma: ainda morro disso.

Saudades
Diubs

Primeira Pessoa said...

poxa...
e ce ainda me conta um trem desses...
o buteco do toninho num ta fraco, não... se ele tivesse um tiquinho de software de homem de negócios, seria genial...
aquelas mudanças de humor são broxantes...
ainda nao falei com o renato sobre a gravação do disco/dvd... eles devem ter ido pro genésio no final do show, né?
aliás, estamos nos devendo aquela polenta de colher (de bacalhau, pra mim) quando eu for a sampa.

vai ser bão demais.
e ja esteve mais longe de acontecer.

beijos proce... e usa um daqueles kit-ressacas... é ruim mas é bão....

beijos...
érre.

Primeira Pessoa said...

fernando,
quando al berto encontra um leitor como você, acontece uma festa no reino da poesia.

ja escuto o foguetório, daqui de onde estou...
abração procê, poeta do sul de minas.

Primeira Pessoa said...

magnolia,
não ria... meus projetos com o jorge ainda se concretizam...
o tempo se encarregará disto... voce vai ver...rs

beijão pra ti!

Juliana Vinagre said...

As mudanças de humor são raras... cê deu azar, te garanto.
Na maior parte do tempo, Toninho é uma figura divertidíssima, carinhosa. "Tranqueira" diria o Paulinho, e é verdade... mas um coração grande.
Não acredito que tenham ido pro Genésio depois do show...
Zé Renato fez os shows com princípio de pneumonia, na raça.
Acho que não ia ter muito gás pra esticadas noturnas.
Não sei... mas me deu uma vontade danada dessa polenta com ragu... (a sua, de bacalhau)
Temos mesmo que acertar essa dívida.
Quanto a minha ressaca - a noite foi limpa, nem uma gotinha de "arco". Melhor assim, já foi tão surreal sem beber... se bebesse era capaz de acordar botando culpa na marvada.
A ressaca de hoje só cura com cama. O sono tá me matando.
Mas eu gooostcho.
E a alma agradece.

Beijo
Diubs