Tuesday, April 27, 2010

O dublê


O dublê é aquele indivíduo que faz as cenas perigosas dos filmes de cinema e televisão.
Acho que toda pessoa deveria ter o direito a um, mocinhos e mocinhas que somos, dos filmes de nossas vidas.
As mulheres, por exemplo, poderiam ter sua dublê naqueles dias do mês.
A dublê sofreria as agruras da TPM e passaria todo o ciclo menstrual no pequeno inferno astral que acomete todas as Penélopes do mundo.
Na gravidez, a dublê seria fundamental.
Enquanto a dublê estivesse engordando, ganhando estrias e tendo desejo de comer doce de jaca às duas da manhã, a mocinha estaria se bronzeando em Bali.
Quando um político tivesse que ir a uma coletiva para explicar um escândalo como o do mensalão, o dublê iria em seu lugar.
O dublê responderia às perguntas irritantes dos jornalistas.
O dublê se constrangeria.
O dublê receberia as vaias na saída.
Enquanto isto, aquele que ele estiver representando poderá estar numa igreja rezando, pedindo perdão a Deus. Ou fazendo mais uma negociata, conforme for a sua vontade.
Ao dublê do goleiro que leva um frango, estariam reservados os apupos.
Ao similar do amante que falha na hora do amor, a frustração, as mãos à cabeça e a obrigatoriedade do bordão "isto nunca me aconteceu antes"...
Ele buscaria a sogra no aeroporto às cinco da manhã. E conviveria com ela pelos próximos cinco meses.
O dublê levaria o pé-no-traseiro, da namorada.
Ele encontraria, na cama, a esposa infiel e seu amante.
Dublê de sujeito casado com mulher feia, ou vice-versa, receberia em dobro.
Vida de dublê não é fácil.
Mas o meu não teria grandes assombrações. Não teria que se atirar de penhascos, saltar de pára-quedas ou participar do capotamento de um veículo durante intensa fuga policial.
Mas seria a ele seguir as recomendações do meu médico.
Ele comeria os vegetais e as frutas diariamente.
Ele caminharia os 5 quilômetros receitados todas as manhãs.
Ele faria a dieta.
Ele ficaria abstêmio.
Enquanto isto, eu estaria em meu bar favorito, comendo picanha, lingüiça, bebendo chope gelado e fumando uns cigarrinhos.
Meu dublê amarraria meus sapatos, todas as manhãs.
Ele faria o tratamento de canal, no dentista.
Ele iria ao proctologista todos os anos, fazer ‘aquele exame’ de rotina.
Afinal, já passei dos quarenta.
Ele me representaria em almoços realizados em restaurantes vegetarianos e beberia cerveja sem álcool.
Ele assistiria todas as derrotas do meu time.
No show de Zezé di Camargo e Luciano em Jaguariúna, imposição de um compromisso profissional meu, ele injetaria breganejo nas veias.
Ele votaria em Lula.
Ele faria aula de dança de salão e saxofone, duas frustrações, dois desejos não realizados por mera preguiça.
A coisa só se complicaria um pouco mais para o lado dele, quando chegasse a minha hora de partir dessa pra uma pior.
Enquanto Ele estivesse prestando contas a Deus pelos pecados que cometi, Eu estaria em casa, largadão no sofá, lendo um livro, ou simplesmente exercitando os dedos no controle remoto da televisão.

32 comments:

Lídia Borges said...

Sabe o que lhe digo? Nunca tinha pensado nesta hipótese, mas postas assim as coisas, vou já ver se arranjo uma, rapidamente. :)

Um beijo

Marcantonio said...

(Risos). Muito bom. É, se já inventamos um roteirista e um diretor para as nossas vidas, o Sr. Destino, e se nela somos atores, por que não um dublê? Mas, e se ocorresse do sujeito ganhar ares de importância e pretendesse nos usurpar as melhores cenas? Além disso, o produtor ia ter que se virar para pagar o cachê desse profissional!

Grande abraço.

Matéria Escura said...

pô, seria bem útil hein, um dublê.
na verdade parece q nós é q somos dublê na vida de alguém.
é o contrário.
e sem cachê.
rsrs

abraço.


ryan.

Matéria Escura said...

ah, esqueci:
ótimo texto.
os momentos mais cômicos e ácidos são ótimos.
bom bom.

Zélia Guardiano said...

Genial, Roberto!
Genial!

E eu também quero um que realize em meu lugar, principalmente, estes dois papéis :
1- Acertar minha vida financeira com meu salário de professora aposentada...(Riu, né? Tudo bem, é uma piada mesmo...rsrs)
2-Enfrentar o espelho... Ai!

Tânia regina Contreiras said...

Hehehe...você vem com cada idéia...e a gente cá fica sonhando que sim, por que não???? Mas olha só: correr riscos é comigo, acho que o dublê ia ficar com a pior parte, a que não suporto: marasmo, monotonia...Eu quero mesmo é me atirar nos abismos!
Muito bom, Roberto, texto leve e idéia sedutora.
Beijso

Primeira Pessoa said...

lídia,
o projeto-lei já foi enviado ao dono de todas as coisas: Deus.

vamos ver se ele aprova a nossa clonolização...rs

abraço grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

marcantônio,
eu não deixaria o boninho (esse do bbb) ser o diretor da minha vida, com toda a certeza.
o melhor roteirista pra minha história?
sei lá, mazzaropi...rs

se começo a viajar nesse nosso papo, vira crônica.
parei! rs

Primeira Pessoa said...

ryan,
não parei pra pensar, mas pode ser que você tenha razão e nós é que sejmos dublês de algumas criaturas bem mais felizes.

to tendo dificuldade até pra amarrar os sapatos do cara que "represento".

tá fueda!

Primeira Pessoa said...

zélia,
ha mais de 20 anos que não me assemelho ao sujeito que sou do outro lado do espelho.

preciso dizer mais?

quanto a acertar minhas contas, teriam que recorrer ao fmi...

é assunto seríssimo!

Primeira Pessoa said...

tânia,
cê fala assim e fico pensando que tenho vocação pra pedra, poste e inércia.

como disse num post anterior, a atividade mais radical que pratico é amarrar os sapatos, todas as manhãs.

e dá uma trabalheira do cão. rs

Jorge Pimenta said...

A fina ironia desfiada com a sobriedade e a elegância de sempre. Filosoficamente, crónica inquietante, sem dúvida.
Impossível resistir ao que escreves, Roberto; sobretudo porque neste teu estilo leve consegues por-nos em confronto connosco mesmos.
Um abraço!

Primeira Pessoa said...

jorge,
segundo os entendidos, a crônica é a mais ordinária das formas de literatura...rs

sei-me raso.
mas divirto-me parindo minhas bobagens.

bom mesmo é receber sua visita.

abração, poeta de braga!

Lara Amaral said...

O meu faria quase tudo, enquanto eu leio poesia.
Bom demais, Robertim.

Beijo!

Primeira Pessoa said...

vida mansa, a sua, larinha...
do seu clone?
nem tanto...rs

beijão procê.

Juliana Vinagre said...

Dublê? Não dava conta de administrar mais essa agenda não... deixa assim como tá...
Ia ser um tal de mandar o dublê descansar na praia, ou numa casinha no campo enquanto fico eu trabalhando, fazendo ginástica, frequentando reunião de condomínio... já pensou?
Agora se tiver um aí desocupado, eu pedia pra ele acordar cedo no meu lugar todo dia e ir tomar a vacina da gripe que minha asma exige que eu tome. Isso ia ser bom...
Adorei a música... bacana demais.
Manda pra mim?
Beijão
Diubs

Assis Freitas said...

O substituto, um cara especialmente destinado aos afazeres que não desejamos. Lembrei-me de uma personagem do Jô Soares, o Gardelon, que recebia cada proposta e com um pagamento mais que indecente. Abração.

p.s. tu tá achando pouco os mil e um poemas e eu querendo abreviar essa invenção maluca.

Jorge Pimenta said...

permite-me, Roberto, uma achega ao Assis: nem penses, poeta. os teus 1001 poemas são uma das razões que justificam a invenção do computador e da internet.
um abraço a ambos!

Fatima said...

Sabe Roberto,
eu acho que só iria querer duble para companhia, ficar conversando, sair para fazer compras, dançar. As vezes sinto falta de uma pessoa tão legal como eu! (oia)!!!!
Bjs.

Primeira Pessoa said...

assis,
se cê não der conta, um dublê seu completará sua tarefa dos 1001 poemas. rs

é claro que lembro-me do quadro "muy amigo" no jô... gardelon era fantástico...

lembrei-me de uma porrada de episódios ao te ler.
abração, poeta!

Primeira Pessoa said...

jorge,
após ler o seu post duvideodó (rs) que o assis se atreva a não completar esta missão mais que possível.

1001 poemas?
pra ele é fichinha! rs

abração, bracarense!

Primeira Pessoa said...

fátima,
às vezes faço isto, diante do espelho.
e levo cada bronca!

não sei se seria uma boa idéia esse dublê-companhia.

abração, em dobro, do
roberto.

Primeira Pessoa said...

diubs,
te mando o vavá ribeiro de casa. aliás, fopi ele que me apresentou à música do renato braz.

contei isto ao renato no dia que nos conhecemos e ele pediu a homerinho que providenciasse mandar uma cópia de Quixote para o jovem cantor.

não sei se isto foi feito.

diubs, um dublê que te empreste um fígado já é um tantão de saúde.

beijão do seu broda from anodamoda...
érre.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Roberto, Roberto, sensacional a crônica.
Tô virando xeleléu seu. (rs).
Essa foto do James Dean também é do "carilho". (rs).
Inventividade não lhe falta.
Isso é que define o talentoso do medíocre.
Grandes crônicas, mermão.

anita sereno said...

nossa parece um debate linda forma de blog-ar fantástico amei a maneira de você explicar as coisas fascinante beijinhos
quanta musica obrigada

anita sereno said...

nossa obrigada mesmo a muito que não escutava esta musica a namorada
fica com Deus beijocas

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
e eu que ha tanto sou seu xeleléu? (rs... nao sei o que deve ser, mas vindo de voce deve ser coisa boa...rs).

a foto do james dean, pra você, cinefilo de carteirinha é mamão com açucar.
ou, como dizemos em minas, jogamos o sapo n'água.

abraço grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

seja bem vinda a este espaço, anita.
tomara que essa essa mistura de cronica-musica-poesia seja do seu agrado.

grande abraço do
roberto.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Roberto, xeleléu é puxa-saco.
Sim, eu sou xeleléu seu faz certo tempo.(rs)
Ah, hoje começa o tal encontro dos escritores lusófonos.
Abração.

Primeira Pessoa said...

uai, paulo poeta...
então é troca-troca...rs
pois sou seu xeleléu desde criancinha...
rapaz, que pena que mia couto mandou o lima em seu lugar, né?
mas o agualusa vai. o joão ubaldo vai.

perde não, paulo poeta.
perde. não!

Fernando Campanella said...

Meu dublê seria muito bem-vindo, Roberto, principalmente para passar meus domingos à noite em minha casa, parte mais entediante da semana, rs... Ótima crônica. Um grande abraço.

Primeira Pessoa said...

fernando,
dublê de "dia de domingo", receberia triplicado.
não existe nada mais entediante do que uma tarde de domingo.

beijao procê, poeta!