Thursday, April 8, 2010

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Cansaço Jobiniano


Há cerca de dois anos, mais ou menos, recebi o telefonema de um amigo que, cansado das coisas por aqui, resolvera retornar ao Brasil.
Emocionado, balbuciou que tinha saudade do velho e bom samba dos morros cariocas, do futebol domingueiro no Maracanã, da cervejota gelada no quiosque da praia, e de mais um monte de outras coisas, que lhe faziam demasiada falta.
Estava farto do estresse da vida na região metropolitana de Nova York, e não suportava mais a hipervelocidade, a poluição, a falta de gentileza das pessoas. Além do mais, alegava a ausência de uma centena de fatores que, aparentemente banais, seriam essenciais para a sua felicidade. Ao final, fez uma citação:
Tom Jobim dizia que o Brasil é uma ruim, mas é bom. E que os Estados Unidos é bom, mas é ruim.
E lá se foi. Sumiu o moço.
Ontem, para minha surpresa, um e-mail volumoso repousava em minha caixa de mensagens.
No espaço onde estipulava o assunto da correspondência, lia-se “cansaço jobiniano”.
E a mensagem era mais ou menos esta:
Estou voltando. Cansei de beber cafezinho em copo lagoínha.
Cansei dos mosquitos voando dentro das vitrines de doces e bolos das padarias. E cansei-me de muito mais.
Cansei-me do gás vendido em botijão.
E de policiais despreparados e truculentos pelas ruas do Rio.
Cansei-me do medo da violência urbana, que transforma cada sinal de trânsito, numa extensão tapuia da Faixa de Gaza.
Aliás, morre-se mais por aqui, do que naquelas desérticas paisagens.
Cansei-me das balas perdidas.
Balas de grosso calibre, meninos cheirados de cola, sequestradores de meia-pataca, bandidos do colarinho branco, ladrões de banco ou de galinha...
Por aqui, mata-se por um par de tênis. Mata-se após receber o resgate. Ou, por qualquer ninharia.
Assassina-se na saída do Maracanã, na porta da fábrica ou da igreja.
Morre-se jovem e inocente no refeitório de uma universidade, durante o recreio.
Morre-se dormindo, varado por uma bala perdida, na não-mais fortaleza do lar.
Cansei-me do medo de toda uma cidade. Medo do meu vizinho.
Cansei-me do meu próprio medo.
Cansei-me de Galvão Bueno, o chato mais bem remunerado do mundo. É ele quem nos deveria pagar.
A poluição sonora de Nova York é nada, comparada às bobagens deste narrador.
Cansei-me de Fausto Silva, o Faustão. Este deve achar que meu ouvido é paiol.
Ou, penico.
Dizer que artistas como Leonardo, Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo são “monstros sagrados”, é muito mais que uma apelação.
Mais do que isto, é a confissão de um homem que vendeu sua alma ao diabo.
Cansei-me de suas duplas sertanejas.
Cansei-me de pagodeiros oxigenados.
Cansei-me de poposudas sem o menor talento, fazendo fama e fortuna à custa da ignorância popular.
Cansei-me daquelas bundas. E não importo se me chamarem de covarde, de bundão...
Cansei-me de Ratinho, Gugu, e destes sub-produtos que nos enfiam goela abaixo, através do aparelho de televisão.
E ainda tem o Big Brother Brasil.
Cansei-me do Movimento Sem Terra e de seus “invasores” profissionais.
O Brasil é hoje um país de Sem-Terra, Sem-Teto e Sem-Moral.
Na outra mão, é o paraíso dos Com-Teta.
Mesmo tendo roubado milhões dos pobres do Brasil, Lalau saiu da cadeia e cumpre pena em sua mansão no Morumbi. Maluf desviou bilhões, e continua em liberdade.
Sabe-se tudo de Fernandinho Beira-Mar, mas ninguém se lembra mais de quem foi Darcy Ribeiro, ou Orlando Villas-Boas.
Isto cansa!
Cansei-me de ver que as famílias de ACM e José Sarney continuam dando as cartas.
E que no país ainda se confunde imunidade, com impunidade parlamentar.
Cansei-me dos Pitboys das boates.
E de futebolistas Bad Boys.
Cansei-me de ver milhares de pessoas na fila do sub-emprego, pessoas que deveriam estar cumprindo funções qualificadas, aguardando uma vaga de gari aqui na prefeitura do Rio de Janeiro.
Companheiro, resta-me agora, desolado e com o rabo entre as pernas, inverter aquela citação do mestre Tom Jobim:
O Brasil é bom, mas é ruim. Aí é ruim, mas é bom.
A gente se vê na semana que vem!



A Música Que Toca Sem Parar:
Tim Maia e Os Cariocas, Samba do Avião, letra e música de Antônio Carlos Brasileiro Jobim.

18 comments:

Mai said...

Não há muito o que dizer. O que é ruim, o é em qualquer lugar.
Ademais, quem é que quer sofrer?
Mas te confesso, enquanto lia, sentí um aperto em meu peito.
Mas sabe, Roberto, há fases na vida que para onde a gente for, haverá pontos cegos e outdoors, mas o cansaço estará sobre ombros.

P.S.
Diz a teu amigo que Galvão Bueno é
'um-pé-no-Saco'.

beijo

Juliana Vinagre said...

Tenho cá pra mim que o mal que esse seu amigo sofre não tem cura... Já estive aí, por dois anos vivendo as alegrias e mazelas dos "States". Agora minha vida é por aqui e quanto mais olho para os lados, mais vejo que aqui "é bom, mas é ruim, mas é bom" - como todo lugar.
A "desgrama" é que pra qualquer lugar que a gente for, carregamos um detalhe que faz toda a diferença: nós mesmos.
Disso não temos como escapar. E é aí que mora a salvação ou a perdição...

Mudando de pau pra cavaco... Li essa notícia hoje: "Adélia Prado acaba de entregar à Editora Record os originais de seu aguardado livro inédito de poemas, que se chamará "Campo de névoa". Com ele, Adélia volta à poesia depois de mais de dez anos." Ó que coisa boa... ;o)
Bjs
Diubs

Primeira Pessoa said...

Mai,
e bota péno-saco nisso...
mas parece que o povo gosta do galvão.
eu, pessoalmente, não admiro não.

bom te ver por aqui.

Primeira Pessoa said...

Diubs,
to feliz demais com a coleçao quase completa do Mia Couto. Chegou hoje. E ainda nem paguei os livros.rs
Tem um com fotos de sebastião salgado que é um trem medonho. cê não quera saber a buniteza desse livro. a técnica dele é um negócio do outro mundo, e ninguém restrata a miséria com o olhar dele... não que eu veja beleza na miséria... pelamor de jesuscristim... to me referindo ao olho de SS... inigualável.
putz, esse novo da adélia eu tenho que ter.
quando eu for ao brasil, tenho certeza de que ele vem na mala.
um dos meus projetos lá pra casa é uma biblioteca. tenho livros (todos encaixotados), mas não tenho espaço. acho que vou fazer um "puxadinho"...

beijão procê.
R.

Juliana Vinagre said...

Sabia que cê ia gostar do Mia Couto. O primeiro que li foi "Uma rio chamado tempo, uma casa chamada terra"- aí foi um atrás do outro. Fui devorando. E vi você lá naquele jeito Roseano que o Mia couto tem de falar da vida na linguagem do homem da terra.
Tenho aqui um livro de fotografia do Sebastião - aquele "Terra" sabe?
Bonito demais. Agora esse aí deve ser demais: imagens de Sebastião com as palavras do Mia Couto - virge, que casamento! Vou querer ver de perto qualquer dia.
Quando cê vier aqui vou te mostrar um outro bem bacana. Um livro de fotografias que consegui, patrocinado pelo governo de Minas com fotos e dizeres das pessoas do vale do Jequitinhonha que tiveram a eletricidade chegando em suas casas através do programa "Luz pra todos". Os depoimentos, nas palavras desse povo são lindos, verdadeiras lições. E as imagens, maravilhosas. Os fotógrafos: Márcio Rodrigues e Marco Mendes mataram a pau.
O nome do livro: "O sol no céu da nossa casa" - bonito...
Te mostro qualquer dia.
Beijos
Diubs

J. said...

Roberto, não sabia que você gosta de Mia Couto. Eu sou apaixonada pelos livros dele - ele é tão intenso e diz tanto com tão poucas palavras. Acho que, junto com a Clarice Lispector, posso dizer que ele é meu autor favorito.

Sobre a "carta" do seu amigo. Eu concordo com ele. Eu também estou cansada das mesmas coisas, dos mesmos medos. Renato Russo, um gênio, na minha modesta opinião, escreveu tantas coisas que resumem o que eu sinto a respeito desse cansaço "jobiniano": "a primeira vez é sempre a última chance, ninguém vê onde chegamos, os assassinos estão livres, nós não estamos", "não tenho pena de ninguém"...

Ao mesmo tempo, vivemos num País abençoado, em que a alegria impera, em que as pessoas são hospitaleiras e onde ainda resta nas pessoas alguma compaixão.

O grande problema é que sempre, em qualquer lugar, haverá pontos positivos e negativos. Sempre gostaremos de umas coisas e de outras não. A vida é assim. Resta saber qual preço estamos dispostos a pagar por cada escolha que fazemos. Morar aqui ou aí ou em qualquer outro lugar não faz as coisas mudarem nem desaparecerem. Eventualmente, em algum momento, seu amigo se cansará novamente das coisas daí e lembrará das daqui com saudade e vontade de (re)vivê-las.
É assim. A gente nunca está satisfeito com o que tem.

Beijos.

Primeira Pessoa said...

diubs,
"Uma rio chamado tempo, uma casa chamada terra" não veio. mas veio um tantão de livro bão.
to como gordo em bufê de churrascaria... não sei por onde começar e o caboclim da carne não pára de passar...
quero ver o livro do jequi, sim. a propósito, um dia quero ir ao jequi (mas ir de verdade, mesmo... e não apenas de passagem). meu cunhado passou a lua-de mel lá, se embriagando de folia de rei, se entupindo de artesanato.
o paulinho tem um sítio em pedra azul e ja me chamou passar uma temporada lá com ele. eu quero. mas preciso antes aprender a domar o tempo.
tempo. tempo. tempo.

beijão, sista.
R

líria porto said...

é assim, betinho - tem defeitos, mas é o meu canto!
besos

Assis Freitas said...

A coisa e o seu contrário. Pois é, na gênese a contradição. Eis, a vida.

P.s. brother, tá caindo a chuva do mundo todo até aqui no sertão. Eu pedi prá chover mas chover de mansinho. Abraço.

Wilson Torres Nanini said...

Roberto, seu amigo devia ter vindo pra Minas, ou não? Aí, desliga-se a tv e já não existem mais Fautões e Galvões. Mas como dizia Oswald de Andrade, "o Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus”.

Forta abraço!

Primeira Pessoa said...

lírica,
tem defeitos e acertos, o nosso cantinho.
só minha mãe é perfeita...rs

beijão do
betim (rs).

Primeira Pessoa said...

assis,
lá em são raimundo, onde me criei, quando chovia desse tantão eu escutava minha mãe dizer:
Tá caindo um dilúvio...

e noé?
kd noé?

abração, meu poeta favorito na bahia.

R.

Primeira Pessoa said...

enanini,
desligar a tv é uma bela pedida.
mas, segundo celso adolfo, a internet "pega" até em são domingos do prata.

e notícia ruim pipoca vindo de tudo quanto é lugar.

falando de notícia boa, bela foto do seu casamento.
parabéns!

abração do
R.

Primeira Pessoa said...

J,
moro fora do brasil ha 26 anos e, chegou um momento de minha vida, que tava perdendo-me do brasil (como uma criança que se perde mãe num shopping center... como um bezerro que se desgarra), mas aconteceu um milagre em outro preto.
reaprendi a ir ao brasil todos os anos. meus pais estão bem "entrados na vida" e quero conviver com eles o máximo que puder; tenho os melhores amigos que o afeto pode comprar; tem o lugar onde cresci; tem o cruzeiro esporte clube, um dos grandes amores da minha vida; tem as rodas de viola e os recitais... tem as noites de lua... tem tanta coisa que me faz tão bem...

mas tem muita coisa que me incomoda demais. que não funciona bem e que me agride profundamente.

é uma relação de amor e ódio, diria a você. daí, lembrei-me de um ditado popular, bem antigão:

se o boi soubesse da força que tem, não puxava carroça".

assim é o brasil.
no dia que o brasil se olhar no espelho e se vir como é, estaremos diante da próxima maior potência mundial.

beijão do

R.

ps: às vezes acho que nossa gente é mais eufórica do que alegre. sabe aquela euforia de lança-perfume, de carnaval?... todo final de mês, pra grande maioria do povão, o final de mês é uma quarta-feira de cinzas.
se é que me entende....

Paulo Jorge Dumaresq said...

Mestre Roberto, seu amigo ou você mesmo - não sei ao certo - pintou um retrato perfeito dessa grande republiqueta das bananas chamada Brasil. Vi acima referências ao Mia Couto. Ele estará em Natalândia no fim de abril para um encontro de escritores de língua portuguesa.
De resto, as chuvas chegaram e hoje tomei um toró.
Graças a Deus.
Abração, meu irmão.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
estivemos perto de trazer mia couto aos eua esta semana que se inicia amanhã... longa história... ficou o dito pelo não dito... no caso do mia, o dito pelo não escutado, porque me dei conta de que não daria conta de tocar o projeto e as coisas nem chegaram até os seus ouvidos...
como sei que ele viria? tenho certeza de que viria. haveria uma grande estrutura por detrás, e ele receberia um premio (merecidíssimo) num encontro lusófono paralelo a um evento de língua portuguesa que estamos fazendo em miami.

não tive como assumir mais responsabilidades do que os que ja tenho. e ficou pro ano que vem.

vá a esse encontro de escritores e curta. curta muito, poeta! mia couto é especial.
você, também.

começo hoje a ler os livros que me chegaram esta semana.
depois te conta se gostei.

beijão,
r.

Assis Freitas said...

Brother, a chuva deu uma trégua mas a meteorologia prevê que abril vai ser o mais cruel dos meses, como disse T. S.Elliot. Em outro hemisfério respira-se primavera, a prima dona das estações. Abraço domingueiro.

Primeira Pessoa said...

assis,
aqui é primavera (finalmente!) e costuma chover. mas hoje parece bom, aquele friozinho matutino e as coisas vão aquecendo com o passar das horas.

ontem fui, pela primeira vez este ano, pro quintal da casa.
antes, arrumei minha garagem (que aqui nos EUA é usada pra tudo, menos pra guardar carro), e depois joguei fertilizante no gramado e saí pra comprar ervas...
comprei mudas de alecrim (e lavanda, por engano) e sairei daqui a pouquinho pra comprar estragão, tomilho, sálvia, manjericão...

falou que é erva, é comigo (rs).

passarei esse final de manhã na jardinagem, e vendo minhas filhas correndo pelo quintal.

mais tarde vou sapecar uma carne na brasa, beber uma cevejota com um amigo que ta chegando e assistiremos, na tv, flamengo e vasco.

amanhã viajo a trabalho. uma semana fora.

esse é o resumo da ópera.

abril com chuva? quero não. rs

ninguém ta entendendo nada desse negócio da metereologia, né?

e isso é pra se entender? quem plantou tempestade, colheu furacão.

bom domingo procê, môrmão!

abração,
roberto.