Monday, April 26, 2010

.

















O Poema do Semelhante
(Elisa Lucinda)

O Deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos,


Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.


Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.


Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
É mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.


O Deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.


O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente


Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.


Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança


A Música que Toca Sem Parar:
Elisa Lucinda se recita, O Poema do Semelhante.

22 comments:

Fatima said...

Amo,amo, amo,amo Elisa Lucinda!
Conhece o site dela?
http://www.escolalucinda.com.br/
Bjs.

Primeira Pessoa said...

fatima,
eu ja conhecia o site. mas que fique registrado para os que não conhecem, conheçam.

elisa lucinda é importante e é influência em poetas desta nova geração.

boa semana pra você.

Lara Amaral said...

Adorei a música que deixou lá no Teatro para mim, obrigada, já ouvi duas vezes, rs.

Beijo!

Primeira Pessoa said...

música pra escutar cinco minutos antes de cortar os pulsos, larinha...

mandei pra uns 30 amigos e, pelo menos até agora, ninguém se suicidou...rs

assim espero.

Jorge Pimenta said...

Por que Deus nunca envelhece?... Por que olho para Ele e não O vejo jovem?... Por que persiste em permanecer na cruz, longe das lágrimas e dos sorrisos? Porquê? Podias tão bem vir até aqui, junto de mim e dos Amigos, beber um copo de vinho tinto com a malta... Talvez assim o Teu olhar rejunescesse e o Teu BI envelhecesse...
Abraço, Amigo!

Primeira Pessoa said...

meu poeta em Braga,
a propósito disto, deixa eu contar um acontecimento engraçado, dentro daquele capítulo "criança diz cada coisa".

minha filha bebel estará fazendo sua primeira comunhão nos próximos dias. eu, católico de meia pataca, levei-a à igreja, umas poucas vezes, onde ela fazia o tal cursinho de catecismo.

numa das primeiras vezes que fui lá com ela, a pequena me perguntou quantos anos tinha Jesus Cristo, e eu respondi: 2009! (isto foi no final do ano passado.

Ela começou a rir e disse:

- Jesus é velho pra caramba!

E , na sequencia, emendou:

- Se Jesus, que é filho, tem 2009 anos, imagine quantos anos não terá o pai dele... Deus...

que coisa...rs
criança diz cada coisa...

abração, Jorge!

Tânia regina Contreiras said...

Elisa tem veia pulsante: adoro! Ler é ler, ouvir é outra viagem, né? Ah, seria bom se pudéssemos e soubéssemos colocar a nossa voz sempre em nossos poemas cotidianos, em nossos versos, quando deixamos que sejam versos os nossos atos, gestos, enfim...

Ah, agradecendo as pérolas que você me enviou: ora, como estou curtindo!

Abração!

Primeira Pessoa said...

tania,
o que mais curto é compartilhar com os amigos essas coisas que vou encontrando. é uma alegria pra mim.

faz um tempinho que to pensando em colocar audiocronicas minhas aqui no blog.

vou ver se faço isto acontecer.

beijão procê!
r.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Meu cara cronista, o Deus de Elisa é o Deus
que quero pra mim, pra ti e pra todo mundo.
Você tem razão quando coloca que ela
é influência para uma nova geração de poetisas - especialmente - brasileiras.
Ah, hoje vi "Nova York, Eu te amo".
Só agora está passando em Natalândia.
Um abraço do tamanho da América do Norte.

Jose Sousa said...

Gostei do do seu blog, vou continuar a ser seu seguidor. Consulte os meus, divulgue e deixe o seu comentário. www.congulolundo.blogspot.com
www.queriaserselvagem.blogspot.com
Um gr. abraço.

Juliana Vinagre said...

Ei Érre,

Elisa Lucinda - bom demais pra começar a semana...
Tenho aqui na minha estante, já na plataforma de lançamento, aguardando apenas as últimas linhas do livro que estou lendo, "A Poesia do Encontro" - que celebra o encontro desses dois encantadores de palavras: Elisa Lucinda e Rubem Alves.
Não deve ser fraco não...
Beijo, saudades
Diubs

Primeira Pessoa said...

mais que foto mais invocada, diubs!
mi gustô muitíssimo...rs

como material de leitura eu to com uma penca de mias coutos na agulha... ja comecei a detonar o primeiro. é questã (rs) de tempo...

elisa lucinda?
importante.
relevante.

como você.
saudades, pangaroa!

Primeira Pessoa said...

josé sousa,
passarei nos sesu blogs. sim, quero muitíssimo ver a sua produção.
e fico feliz que tenha me visitado.

faça desta a sua casa.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
to precisando entrar (novamente) numa fase cinéfila.

ando em falta com o cinema. ando em falta comigo mesmo.

e mia couto? cê tá indo ver?

abração, poeta do potengi!

Paulo Jorge Dumaresq said...

Poxa, Roberto, o Mia Couto cancelou a vinda para o Encontro.
Deve ter sido por obra e graça do "sobrenatural de Almeida".
Agora os principais conferencistas são: João Ubaldo Ribeiro, Carlos Reis (Açores, Portugal) e José Eduardo Agualusa (Angola), além de representantes de países outros d'além-mar.
Ah, amigo, não consigo abrir o link com a música.
Que faço?
Grande abraço.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
cê tem que liberar o pingolim (um pingolim que aparece na parte superior da pagina, quando abre a pagina e te pergunta se pode "liberar o pingolim"...rs)...

puz, mia couto não vai?
magoei!

mas o agualusa é fera, viu?
se puder, veja.

é de nível.

abs
roberto.

ps: esse sobrenatural de almeida é um mala...rs

Matéria Escura said...

putz...
q poema foda
caraca...
muito bom

quando se sabe usar as palavras é foda

muito bom

Tânia regina Contreiras said...

Ah, compartilhar é muito bom. Cê nasceu mesmo pra escrever, porque faz isso com uma leveza, envolve desde a primeira linha. Poder ouvir, além de ler, as crônicas vai ser muito bom também!

Abração

Primeira Pessoa said...

ryan,
elisa lucinda é talentosa e respresenta muito para uma geraçào de novos poetas.

e outros já nem tão jovens assim.
fico feliz que tenha gostado.

Primeira Pessoa said...

tânia,
to tentando aprender este ofício. e suas palavras me deixam feliz.
audiocrônicas? rs

ja imagino os leitores do blog estranhando a voz de taquara rachada saindo daqui.

sei não...
acho que não vai dar muito certo, não...

Gil. said...

Roberto,

não tava conseguindo deixar comentários aqui... sempre que tentava, pedia p/ executar um programa, ou seja, baixá-lo em meu pc... Não entendi... Mas agora, vim tentar e deu certo! Que bom!

Bem, eu sou fã da escrita da Lucinda. Td mt coerente e envolvente. Há um poema dela, sobre a Rotina, penso que ja deve conhecer, mas deixo-o aqui p/ que teus olhos possam lembrar de que existem coisas boas e que estas, merecem ser vistas, e re-vistas, e de novo e de novo, e sempre...

Parem de falar mal da rotina
parem com essa sina anunciada
de que tudo vai mal porque se repete.
Mentira. Bi-mentira:
não vai mal porque repete.
Parece, mas não repete
não pode repetir
É impossível!
O ser é outro
o dia é outro
a hora é outra
e ninguém é tão exato.
Nem filme.
Pensando firme
nunca ouvi ninguém falar mal de determinadas rotinas:
chuva dia azul crepúsculo primavera lua cheia céu estrelado barulho do mar
O que que há?
Parem de falar mal da rotina
beijo na boca
mão nos peitinhos
água na sede
flor no jardim
colo de mãe
namoro
vaidades de banho e batom
vaidades de terno e gravata
vaidades de jeans e camiseta
pecados paixões punhetas
livros cinemas gavetas
são nossos óbvios de estimação
e ninguém pra eles fala não
abraço pau buceta inverno
carinho sal caneta e quero
são nossas repetições sublimes
e não oprime o que é belo
e não oprime o que aquela hora chama de bom
na nossa peça
na trama
na nossa ordem dramática
nosso tempo então é quando
nossa circunstância é nossa conjugação
Então vamos à lição:
gente-sujeito
vida-predicado
eis a minha oração.
Subordinadas aditivas ou adversativas
aproximem-se!
é verão
é tesão!

O enredo
a gente sempre todo dia tece
o destino aí acontece:
o bem e o mal
tudo depende de mim
sujeito determinado da oração principal.

Aquele abraço!!

Gil ;)

Primeira Pessoa said...

belo poema, Gil.
elisa lucina tem um trabalho relevante, super antenado com as coisas e a linguagem do nosso tempo.

demorei a postá-la aqui.
e agora, com sua colaboração, em dose dupla.

abraço grande do
roberto.