Monday, April 5, 2010

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A queda.


Os amigos rodeiam-se da calma necessária
em que eu somente me deixo transparecer. Dentro
de cada um existe um pedaço de vidro e de papel, como
se me despedaçasse quando me atiram
pedras.

O suor surge quando menos se quer que
se erga a cidade. Hoje é dificil criarmo-nos,
porque todos se deixam diluir como as
músicas como as palavras ao descerem
a pele em direcção ao rosto.

Deixa-se surgir a verdade. Deixa-se transparecer
pelo corpo enquanto se foge do que
não sei. Enquanto. Durante a longa queda -
que se esvanece nos cabelos - existe um pequeno
lugar - junto aos dedos, não muito perto da mão -
onde todos os poemas nascem e morrem.

Onde todas as crianças crescem ou
desaparecem.

Como estas paredes que se desenham, com sorrisos
em lugar de quadros, com olhares despertos e interessados
no cansaço das minhas pálpebras.

Deixa-se correr a tinta pelos quadris,
ao molhar-se a pele chega o momento certo:
onde a bala do tempo se contorce.

Nem uma silva de prata a zunir pelo
quarteirão, um corte no peito, uma tentativa
de roubar de mim aquilo que nem eu tenho

como se fossem palavras ou gestos que
se esquecem quando o quarto fica escuro e só se
vêem diamantes e frases semi-apagadas.

Perco pela rua a roupa porque assim
me possuo. Porque assim consigo ver a tua face
onde ela já não existe.

Hoje está difícil andar. Está calor.
No adro da igreja ouvem-se pardais e pombos por
onde não quero passar.

O único caminho é por debaixo do peso
da explicação. Por debaixo de mim erguem-se vozes
que se assemelham a um poço de sangue

a um sorriso sem intenção.

É por isso que, quando nos reflectem
os braços do rio, nos esquecemos de dormir
enquanto implodimos dentro de alguém

como um poema.

Deixamo-los partir para que nada reste
deles - os amigos - e aí perguntam-nos
como nos sentimos e respondemos em silêncio
porque nada mais resta.



Sérgio Xarepe
Jovem poeta português de muito talento... Lançou em 2008 o livro "Outros Dias Existem Muitos"


A Música Que Toca Sem Parar:
Michael Penn, No Myth

19 comments:

Em@ said...

"Perco pela rua a roupa porque assim
me possuo" (...)



Boa noite!

J. said...

Achei triste e cinzento. Mas bonito.
(tô meio Werther hoje, desculpe).

Beijo.

Jorge Pimenta said...

Sérgio Xarepe? Obrigado por mo apresentares, Roberto; confesso que não conhecia... (surpreende-me que estejas assim tão bem documentado sobre as Letras Portuguesas; qual o segredo?)
Permite-me que faça um pequeno sublinhado do texto que publicaste (não sei porquê, mas de alguma forma tocou-me especialmente):
"Nem uma silva de prata a zunir pelo
quarteirão, um corte no peito, uma tentativa
de roubar de mim aquilo que nem eu tenho

como se fossem palavras ou gestos que
se esquecem quando o quarto fica escuro e só se
vêem diamantes e frases semi-apagadas."

Um abraço, Amigo!

Primeira Pessoa said...

Emã,
este poema é cheio de belas imagens. Como esta que voc6e sublinhou.
Abração do
Roberto.

Primeira Pessoa said...

J,
existe mais beleza na melancolia do que julga a nossa vã filosofia...rs
abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

Jorge,
passei muito tempo sem ler poesia e agora essa vontade voltou com muita força.
Ando devorando tudo o que me aparece à frente e a retomada dos autores portugueses tem sido imensamente prazeirosa.
Sérgio Xarepe é jovem e escreve bem. Em muitos momentos lembra o estilo de Al Berto escrever.

Abração, poeta de braga.
R.

Júlio Castellain said...

...
Muito bom.
Gostei.
Abraços.
...

Assis Freitas said...

Ventos de além mar contuam a soprar. "Outros Dias Existem Muitos" é sugestivo, ou como disse Borges existem muitos dias dentro de um mesmo dia do homem. Abraço

Primeira Pessoa said...

julio,
sergio xarepe faz parte de uma nova geração de poetas.
mas, bom mesmo é ter você aqui.
Abs,
R.

Primeira Pessoa said...

zé de assis,
quando é mesmo que vamos tomar aquela cervejota gelada e conversar abobrinha até passar a ambulância?

abração do
r.

Wilson Torres Nanini said...

Você parece que tem mil sentidos, mil radares e espiões soltos pelo mundo, rastreando tantos e nos apresentando tudo. Fico mais importante, toda vez que aqui colho um fruto novo.

Abraços, Roberto!!!

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

De lima,
Não sei se estou incauto ou inculto demais ultimamentes, poeta. Mas, obrigado por me apresentar mais um poetaço. Sergio Xarepe: guardarei esse nome por sua conta e por causa deste verso:

"Os amigos rodeiam-se da calma necessária
em que eu somente me deixo transparecer."

Seu amigo à distância próxima,
da rama.

Primeira Pessoa said...

ah, nanini...
essa curiosidade sempre me acompanhou. e sou meio compulsivo. ando rezando pra essa tantão de poesia que tenho absorvido, respingue um bocadinho nas coisas queescrevo.
por quenquanto, não tá dando certo.
mas sou obstinado.

chego lá!

Primeira Pessoa said...

ramúcio,
e o grande barato é ver que tem uma garotada nova escrevendo muito bem.
ão fosse esse espaço aqui (refiro-me à internet), tenha a certeza de que eles (e nós também) não teriam essa vitrine.

abração, poeta.

seu amigo
roberto.

Magnolia said...

Descobriste o Sergio... gosto muito dele... e do que faz com as palavras...
Beijo Roberto

Primeira Pessoa said...

ele é tudo de bom, magnólia.
muito mais que um poeta de futuro, ele é um poeta no presente.

bom domingo procê!

LauraAlberto said...

Uma vez mais confesso a minha ignorância, mas este nome é para reter!
Gostei da poesia dele!
Obrigada!
Beijos
Laura

Primeira Pessoa said...

ignorante é o que ignora.
você não conhecia, laura.

agora ja conhece.

tão simples assim.

beijão de domingo,
roberto.

Sergio said...

Roberto,

mais uma vez obrigado pela escolha. confesso-me surpreso pela reacção positiva ao meu texto mas, lá está: nada melhor que ser surpreendido.

abraço, Sérgio Xarepe