Wednesday, April 7, 2010











existe arte na forma como se colocam palavras no lugar de rostos. existe um gosto refinado em, a meio da noite, ao invés de dormir e descansar como todos os outros, relembrar caminhos acidentados que não foram dar a lugar algum.

dá gosto olhar directamente nos nossos próprios olhos e ver como tudo está diferente:

as paredes são outras;
a face surge agora mais coberta e mais queimada pelo sol;
a respiração está mais pesada devido a inúmeros cigarros já desperdiçados:
e na cama há outros nomes que dormem sem serem pronunciados.

no entanto, é curioso imaginar como seria se nos tivéssemos atrasado a apanhar aquele comboio; como seria se tivéssemos dito ao ardina que não queríamos aquele jornal; como seria se tivéssemos esperado mais uns minutos para ouvir um "bom dia" novamente.

Talvez agora o nosso corpo estivesse noutro lugar, a ouvir outras histórias e com mais imagens para recordar.

mas eis que ela acorda durante a noite e nos leva para uma casa sem nada nas paredes.


Sergio Xarepe


A Música Que Toca Sem Parar:

o poema de Jorge Luiz Borges é emoldurado pela melodia de Vitor Ramil (foto), transformando-se nesta Milonga de Los Morenos.
Caetano Veloso e Vitor Ramil cantam a canção.

22 comments:

Francisco de Sousa Vieira Filho said...

Belíssimo, Roberto! :) Espiando cá... :D

Francisco de Sousa Vieira Filho said...

Belíssimo, Roberto! :) Espiando cá... :D

Juliana Vinagre said...

Em tempo: Vitor Ramil, com o perdão da palavra... é foda também.

Juliana Vinagre said...

Érre,

Obrigada por me apresentar mais esse jovem poeta...
Existe um "pé de poeta" que frutifica sem cessar no "Além mar" - que bom...
Sergio Xarepe não é mineiro, mas podia ser: tem aquela marvada melancolia...

"existe arte na forma como se colocam palavras no lugar de rostos"

Sim, existe.

Beijo
Diubs

nina rizzi said...

que coisa linda esses escritos, quando a minha letra diminuir, viro poeta também. deve ser o café, o tabaco, essas madrugadas, sei lá: afobamento e não afogamento. aí a poesia fica torta feita minhas costas.

ah, nessa foto o ramil não tá photoshpado.. rsrsrs...

beijos.

Primeira Pessoa said...

nina,
que bom que você visitou o blog.
ah, na foto ou na arte que faz, o vitor ramil não precisa de photoshop. acho ele o máximo.

e, sim, esse jovem poeta é muito bom. tem gente que ja nasce grande né?

abração procê, do
roberto.

Primeira Pessoa said...

diubs,
os caras inventaram essa língua, é natural que sejam mestres. já nasçam mestres.

e esse ramil, ein?
phodão. denso. profundo.

abração do seu broda from another moda...rs

R.

Primeira Pessoa said...

francisco, sempre uma alegria tê-lo por aqui.
abração,
r.

J. said...

Quero ainda experimentar esta sensação: "dá gosto olhar directamente nos nossos próprios olhos e ver como tudo está diferente:"

Beijo, Roberto.

Lou Vilela said...

As perspectivas se abrem quando olhamos nos olhos - sejam os nossos ou os de outrem.

O texto deixa um travo no final. Muito bom!

Bjs

Primeira Pessoa said...

a poesia nos ensina tanto, J.
tanto...
aprendo com a poesia todos os dias.
abraçao, J.

Jorge Pimenta said...

Quantas vezes é nas palavras que somos aqueles que nunca fomos... quantas vezes... apenas lamento que o coração não se baste com a tinta...

Um abraço, Roberto!

líria porto said...

uma coisa sei - se não tivesse ido ao bairro santa clara não seria quem sou!!! arrá!!!

te conhecer é mágico, meu caro... risos

besos - e ótimo esse texto - até parece de meneiro!

líria porto said...

ah - disse e repito - gosdocê!!

besosss

Primeira Pessoa said...

lírica,
cê continua chamando a dona de santa...rs
a magia da boa amizade é um dos mais santificados milagres que existem.

sempre uma alegria te receber aqui nesse cantinho.

beijão do
roberto.

Primeira Pessoa said...

Jorge, meu poeta em Braga...
bonito mesmo é a sua leitura das palavras, seu olho clínico e sensorial.
abração, meu poeta!

Primeira Pessoa said...

lou,
esse travo no final é exatamente o que nos faz refletir.
quando poema não deuxa esse travo (pode ser de doçura, um azedume ou um amargor), foram palavras jogadas ao vento.

abração do,
roberto.

líria porto said...

ai, ai - santa clara é o hospital onde o pai da minhas filhas trabalhou a vida toda - e eu fico livre dum hospício?? risos
besos

Fernando Campanella said...

Ótima a expressão do Xerepe, gostei muito, e assino embaixo. Um abraço.

Sergio said...

obrigado pela escolha. Cumprimentos.

Sérgio Xarepe

Primeira Pessoa said...

sérgio,
fico feliz com sua passagem pelo Primeira Pessoa.
venha sempre que lhe apetecer.
abraço grande, poeta!
r.

Primeira Pessoa said...

fernandíssmo,
onde você assinar eu assino em baixo.
abração, campanella!