Friday, April 23, 2010

Karaokê de Poesia

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Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e
comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem
horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!


A Música Que Toca Sem Parar:
Carlos Drummond de Andrade recita, de sua lavra, Confidência do Itabirano.

18 comments:

Fouad Talal said...

Roberto!!!
Tem alguma coisa no ar... declamei esse poema no meu trabalho recentemente. Mas a dor maior não foi a fotografia na parede! Foi ser funcionário público... rs

Maravilha rememorar!
Grande abraço!

Primeira Pessoa said...

rapaz...
benditos sejam os funcionários públicos que ainda produzem e/ou recitam poesia.

aliás, tava comentando isto com um amigo, no outro dia: no tempo de drummond os funcionários públicos "matavam o tempo", essa forma de suicídio, escrevendo poemas, enquanto fingiam trabalhar naqueles momentos de "coça-saco" (rs).

hoje eles arranjam namoradas virtuais no msn, surfam na pornografia (rs), trocam emails ...

mas o que sei eu? rs

maravilha, mesmo, é o seu senso de humor. e saber que você, ainda outro dia, recitou drummond.

abração, Fouad!

R.

Tânia regina Contreiras said...

Este escorpiniano maravilhoso (nascemos no mesmo 31 de outubro, isso me fez íntima dele...rsrs) foi e é muito amado! Tenho lá no meu blog o "Amor, pois que é palavra essencial", desse Drummond erótico que espantou a alguns e que mais uma vez amei.

Que presente, viu, ouvir a voz do Poeta assim já pela manhã!

Salve o Poeta e obrigada pelo presente!

Tânia regina Contreiras said...

Ah, voltei pra ouvir de novo. Não tem uma certa magia o poema declamado pelo próprio autor? É a voz e o sonho, a fonte e o mar...tudo junto. Adorei ouvir, reouvir.. e me vou.

Abraços

Primeira Pessoa said...

tânia,
drummond era um véio bem safadinho, né? rs
lembro-me de quando foi lançado o livro com a poesia erótica dele, muita gente se chocou. tinham aquela imagem de "senhor", aquela fotografia austera na cabeça.
no entanto, pessoas que conheceram o poeta mais de perto contam que ele era um conquistador, ao modo dele, de um jeito apropriado ao tempo dele. e fazia enorme sucesso.
tinha muitas fãs.

sim, ouvi-lo pela manhã nos traz alegria.
vou postar outros poemas dele.
por sua voz.

palavra de sagitariano.

abração,
r.

Cristiano Contreiras said...

Drummond tem uma sensibilidade que me instiga, incondicionalmente.

Abraços

Primeira Pessoa said...

Salve, Cristiano!
Seja bem vindo!
algum parentesco com o flautista hélio contreiras? (ou ele seria contreras?)

Pois é, este drummond... instigante, profundo, fundo... guardador de tantos pedaços de nós.

sou fã, incondicionalmente.

abraço e admiração do
roberto.

Zélia Guardiano said...

"E o hábito de sofrer, que tanto me diverte"...
Meu Deus, que coisa mais linda!
Não bastasse a poesia escrita, ainda o autor a recitar...
Como você é altruísta, ao dividir comigo este tesouro!
Obrigada! Muito obrigada!
Um forte abraço

onzepalavras.com said...

Que voz linda, que traz consigo o orgulho e a cabeça baixa, no mesmo timbre e no mesmo sopro.

Abaixemos nós as nossas cabeças diante de tamanho derramamento.

Marcantonio said...

Meu exemplar da Antologia do Drummond já quase não suporta o excesso de digitais minhas. Que fazer, se as prendas de Itabira me comovem e me fazem pensar?
Curioso é que o Drummond não pretende interpretar o poema, ele a apenas o lê, sem impostação. Talvez por pretender que, em poesia, a primazia da expressão pertença à palavra e não ao tom com que ela é dita. O que emociona é o timbre inconfundível da voz do poeta.
Não é todo dia que se pode encontrar um Drummond nas repartições pública deste mundo, vasto mundo.

Um abraço.

Primeira Pessoa said...

zélia,
drummond era de um profundeza ímpar.
daí ele ter ficado, na plenitude e beleza de sua obra.

fico feliz com sua presença por aqui.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

marcantonio,
quando vim para os eua, ha 26 anos, recebi de um amigo uma antologia de drummond.

é até provavel que voce tenha um exemplar parecido.

é um de meus livros favoritos e ali, em elegia 1938 eu tinha sublinhado palavras, que eram o codigo do endereço onde eu viria a viver na clandestinidade até conseguir trafegar livremente pelas ruas de nova york.

longa história...rs
pois bem...
as repartições públicas dos dias de hoje abrigam uma outra fauna.
infelizmente, quero crer.

abraço e admiração do
roberto.

Jorge Pimenta said...

Nunca tive ouro, gado, fazendas.
É que sou funcionário público... :)
Um abraço, Amigo Roberto!

Juan Moravagine Carneiro said...

Drummond é sem sombra de dúvida um dos maiores artistas do século XX.

Belo espaço


Abraço

Primeira Pessoa said...

jorge,
nunca tive ouro, gado, fazendas, ou um emprego público...rs

mas tenho os melhores amigos que o afeto pode comprar.

abração, poeta!

R.

Primeira Pessoa said...

juan,
compartilhamos da mesma opinião.
e esse encantamento pelas boas palavras.

seja bem vindo ao blog!

abraço forte do
roberto.

Gisele Freire said...

Roberto
Ainda bem que compartilhas o Drummond aqui, êta bom gosto que vc tem ! :)
Confidências tão bem estruturadas não é mesmo?
Bom garimpeiro vc é my friend :)
bjs e bom fim de semana :)
Gi

Primeira Pessoa said...

gisele, compartilhar drummond, como quem compartilha aquela pedra do meio do caminho.

como quem partilha um pedaço de pão.

abraço grande do
roberto.