Thursday, April 29, 2010

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Esta semana, excepcionalmente, estarei publicando neste espaço a crônica de um outro autor.
Fernando Sabino foi para mim, muito mais que um conterrâneo fazendo e ganhando a vida nas letras.
Ele foi um ponto de referência, um escritor de extremo talento, e um personagem luminoso.
Dele li tudo o que pude ler.
Fui e sou um grande fã.
Durante os anos oitenta ele viveu por algum tempo em Nova York e mais do que uma vez pensei em procurá-lo para uma entrevista.
Não o fiz e hoje me arrependo com alguma amargura.
Tenho que me contentar em ter conhecido parte de sua obra, inventiva, inquietante e cheia de vida.
E tão somente.
De seus escritos fui buscar uma crônica que, ironicamente, se chama “A última crônica”.


A Última Crônica

(Fernando Sabino)



A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você...” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Texto extraído do livro “A Companheira de Viagem”, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.

****

PS: Antes de morrer, Fernando Sabino pediu que escrevessem em sua lápide a seguinte frase: “Nasci homem, morri menino”.


*


A Música Que Toca Sem Parar:
De Milton nascimento, Bola de Meia, Bola de Gude

32 comments:

Lara Amaral said...

Ele conseguiu, crônica pura, de remexer na gente, que bonita...

Beijo, Roberto.

Juliana Vinagre said...

Curiosamente, ajudei meu filho esses dias com um trabalho escolar sobre a biografia de Fernando Sabino.
Ele acabou de ler "O menino no espelho" e mergulhou na história da vida do autor.
Figura maravilhosa.
Coincidência bacana encontrar ele aqui.
Bjs
Diubs

Leandro said...

Quando eu li Encontro Marcado fiquei arrepiado ao passear pela rua da Bahia e andar pelo Parque Municipal. Até hoje quando passo por lá, tudo me volta a memória.

Depois do Sabino, do Otto, do Paulo e do Hélio, eu me tornei o 5º Cavaleiro do Apocalipse. E eles nem desconfiavam...

Maravilho Roberto!
Um abraço

Tânia regina Contreiras said...

Que coisa simples não? Que coisa singelamente bela...que talento: Fernando Sabino - amo! Aliás, o livro que cito no meu perfil como inesqucível é uma tradução dele: A Fera na Selva, de Henry James. Há agora uma outra tradução do livro, li que era melhor, mas...não sei, li a de Sabino e me encantei com o que ele pôde fazer com o texto.

Enfim, belíssima crônica essa aí, a "última". Fiquei eu aqui enternecida e marejada com a menininha aniversariante, porque ele (Sabino) sempre soube fazer isso muito bem: coloca-nos ali, lado a lado com ele, observando de perto a cena, quando não participando.
Obrigada pelo presente.
Abraços

J. said...

Confesso que, apesar de ter um livro em casa, nunca li nada dele. Vou ler e volto para opinar.

Beijos.

Marcantonio said...

E você não fez por menos. Rapaz,que crônica de homem-menino! Impossível conter a expansão da ternura diante deste flagrante da pureza humana que tantos procuram recalcar. Eu me sinto presenteado.

Obrigado. Grande abraço.

Genny Xavier said...

Pois é, algumas pessoas, de tão profundas que são, por tanto que nos ensinam, parecem nascer crescidos, adultos em vida...e, por tanto que nos tocam e nos transmitem, seiva e essência, salto e vôo, terminam morrendo crianças, nos braços da mãe do céu...
Parabéns pela escolha deste belo momento do Sabino.
Genny

Sil.. said...

Ahhh, mas falar o que do Fernando Sabino?
Tbm sou fãããããã. E aprendi algumas coisas, belas coisas nos escritos dele.
Seu blog só tem mestres, os melhores mestres.
Eu gosto muito de tudo que tu coloca aqui.
E se tem algo de alguem, algum escritor (a), que voce cita e eu não conheça, eu corroooo pra ver. Voce tem me dado grandes dicas.
E Milton Nascimento? Covardiaaaaaa né? hehehh, esse é FERAAAAAAAA!

Um abraço!!

Primeira Pessoa said...

larinha,
fernando sabino é craque.
cê leu O Encontro Marcado?

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

diubs,
essas coisas ficam no ar, como gripe (rs).
ja percebeu?
bonito o ale começar na leitura, novinho ainda. isto lhe dará lastro. pode crer que sim.

beijão, maninha.
érre.

Primeira Pessoa said...

leandro,
vou procurar nas minhas coisas O Encontro Marcado. lendo seu post me deu uma vontade arrebatadora de relê-lo.
lá se vão mais de trinta anos.
isto mesmo: TRINTA!

e parece que foi ontem.

abração.

R.

Primeira Pessoa said...

juliana,
leia, sim. tenho certeza de que cê ficará encantada. sabino faz parte de uma geração de escritores iluminados.
e dono de uma obra vasta.
abração do
r.

Primeira Pessoa said...

marcantônio,
o mais doido é que vim pra casa pensando no que escrever na minha lápide:
"roberto gostava de poesia"
"roberto gostava de futebol e pão com linguiça".
"nasceu e morreu"... rs

tanta bobagem...

até na lápide, fernando sabino foi lúdico, poético...

lindo, o seu post.

Primeira Pessoa said...

genny,
fernando sabino era denso, profundo...
mas sabia ser divertido, também.

tinha uma série de uma daquelas editoras daqueles tempos (rs) que se chamava Para Gostar de Ler...
colhi varios drummonds... varios rubens bragas... varios paulos mendes campos... varios fernandos sabinos naquequela coleção.
foram influencia fortissima no meu apego à literatura.

grato pela visita ao blog.

abração do
r.

Primeira Pessoa said...

sil,
optei por uma versão do 14 Bis para o Bola de Meia, Bola de gude... porque achei a interpretação de milton sisuda e sem leveza...

criança é leve... num é não?

abraço grande do
r.

Fatima said...

Gosto muuuuuuito!
bjs.

Assis Freitas said...

Braga é sensacional, gostava dos livros de português porque sempre tinha cronicas do Rubem, principalmente. E por falar em epitáfios tem um poema de Byron que acho fantástico:

"posteridade nunca há de rever
sepultura mais nobre que esta
aqui jazem os ossos de Castlereagh
pare viajante -
e mije - digo isto se for o caso"

abração

Marcantonio said...

Tive que voltar aqui. Se você não posta a crônica, de alguma forma você a compõe nas respostas aos comentários. Acho isso muito legal!
Se é inevitável um epitáfio, é melhor você deixá-lo como encargo aos amigos, com certeza sairá mais justo do que esses das suas cismas.(rs)
Creio que a editora da série Para Gostar de Ler era a Ática, não?

Abraço

Primeira Pessoa said...

tânia,
fernando sabino teve aquele vacilo do livro da "zélia"(lembra?). aquilo marcou negativamente a sua carreira. foi uma mancha que quiseram colocar em seu currículo. às vezes acho que conseguiram.
mas fernando sabino foi muito mais.

sabemos.

abração,
Roberto.

Primeira Pessoa said...

marcantonio...
acho que era a Ática, sim. e eles publicavam uns livros muito legais para a garotada. Era a coleção vagalume... rs
putz... sou oficialmente velho... rs
li/devorei muito daquilo tudo: O Caso da Borboleta Atíria, O Escaravelho do Diabo, Cabra das Rocas, A Ilha Perdida, O Mistério do Cinco Estrelas, Um Cadáver Ouve Rádio...
rapaz, tenho alguns destes livros... tenho que procurá-los.
desenterrados de mim - depois deste nosso papo -, eles já estão.

Primeira Pessoa said...

assis,
rubem braga tinha uma fixação pela tonia carreiro. e, dizem, não rolou...rs

fosse hoje, faríamos uma campanha nacional "colabora, tonia"(rs)...

o velho braga merecia.

epitáfio por epitáfio, voto netes aqui, ó"
"ataliba parou de fumar".

beijão, assis.

Primeira Pessoa said...

cê tem bom gosto, fátima.
cê tem bom gosto...

abração do
roberto.

Jorge Pimenta said...

Sabes, Roberto, conheço mal Fernando Sabino, pois apenas li dele "O Menino no Espelho" (creio ser este o título). Percebi que a sua escrita é tão singela e apontada ao coração quanto as personagens e peripécias que conta. O paralelismo que estabeleci, imediatamente quando o li, foi com o genial Soeiro Pereira Gomes e o seu imortal "Esteiros". Lindo, mesmo! Procurarei documentar-me um pouco mais, evidentemente.
Um abraço!
Jorge

Zélia Guardiano said...

Roberto

Sou louca por história de criança! Então, de vez em quando releio:
1-"A última crônica", de Fernando Sabino
2-"Gaetaninho", de Antônio Alcântara Machado
3-"Piabinha", de Luiz Vilela
4-"Meninão do caixote", de João Antônio
Uma crônica e três contos... Pronto!
A meu ver, os quatro autores conseguiram ler, perfeitamente, os segredos escritos nas almas das pessoas e nos revelar através desses textos. Souberam transcrever.
Na resposta para Tânia, você lembra o imbroglio que foi o caso da minha xará. Olha, aquilo foi horrível mesmo. Sabino não podia, não devia e não merecia ter caído na tentação, como caiu. Mas, tudo bem: ele era humano... O que importa, mesmo, é ter escrito "A última crônica". Aí, por um triz ele não se mostra Deus...

Um abraço

Dois Rios said...

Quem, sem possuir olhos de menino, poria tanto lirismo numa cena cotidiana? Quem, sem a agudeza dos sentidos, faria, de um sorriso, uma poesia?

Beijo, Roberto!
Inês

Primeira Pessoa said...

oi, Inês!
bom demais tê-la de volta ao blog.
e lê-la aqui, sempre sensível, atenta.

quem, senão fernando sabino?
e os iguais a ele?

quem?
senão estes....

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

zélia,

acho que sabino tava de saco cheio com tudo. pegou a grana e veio morar em nova york.
eu trombava sempre com ele em eventos. lembro-me claramente.
e não me parecia infeliz. não, mesmo!

ó, tava te lendo e me lembrando de um conto do wander piroli... que publiquei em meu jornal no início dos 90...
o menino ganha um cabritinho de presente e, no natal, o cabritinho vira ceia da família.

aí cê imagina a cena.
chorei feito um besta, lendo o conto.

enfim, estórias de criança ainda me encantam.
eu, cada vez mais outonal em minha vida.

doido (e doído) demais, isto.

Primeira Pessoa said...

meu poeta bracarense,
cê não sabe o que tá perdendo em fernando sabino...
recomendo o Encontro Marcado. se voce não consegui-lo em Portugal, dou um jeito de lhe enviar pelo correio.

obrigado pelo envio das fotos.
um dia eu havia conseguido uma foto de ana salomé aqui mesmo no google.
tinha preparado o post e tava só esperando o dia de hoje amanhecer para postar.
mas foi muito legal vê-los juntos. sim, ela é um talento imenso.

trovante?

putz... vou nem que seja à nado...rs

me aguarde...

Jorge Pimenta said...

ahahaha!
Cá te esperamos, Roberto!
Um abraço!

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
postei Ana Salomé, como combinado.

eu disse que vou à nado?
é agora que minha bronquite vai pro galheiro.
rs...
dizem que nadar é bom pra asma.

a ver, vamos... a ver, vamos...

abraço enorme do seu amigo
roberto.

Fernando Campanella said...

Que crônica esta do Sabino, maravilha. Obra de mestre. Eu gostaria de encontrar motivos para crônica assim como encontros mil motivos para fotos. Mas acredito que esse dom é para poucos, Roberto, e você incluído no grupo. Grande abraço, meu amigo.

Primeira Pessoa said...

fernando, cê tem razão...
que crônica, esta (e todas as outras dele) de fernando sabino.
era mestre no assunto.

mas, bom mesmo é te ter por aqui.

abração
R.