Monday, April 19, 2010

Um Poema de Eugénio de Andrade

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Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...
Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...
Boa noite. Eu vou com as aves!


***

Eugénio de Andrade, gênio artesão da palavra (Póvoa de Atalaia, Fundão, 19 Janeiro 1923 – Porto, 13 Junho 2005), cujo nome verdadeiro era José Fontinhas.


A Música Que Toca Sem Parar:
Raimundo Fagner, de Petrúcio Maia e Abel Silva, Reflexos do Baile.

20 comments:

nina rizzi said...

sabe que quando eu venho aqui, abro a página e não leio nda, nada, espero ela caregar todinha, quando a música começa eu vlto pra ler a postagem. bom reconhecer essa vozinha aqui hoje :)

e, veja, eu falando, mesmo indiretamente, falando de pai e vc de mãe :)

bom demais rever eugénio aqui, ele é um dos meus poetas preferidos. e tive a honra, a honra de beijar-lhe as senis marcas das mãos. e pude também chorar a sua morte.

amei esta edição. um beijo.

Primeira Pessoa said...

nina,
cê quer dizer que meu "brógui" tá com um probleminha "téquino"? ...rs

é isto?

ó, publiquei este poema porque acho-o forte demais. não é nenhum recado pra minha mãe.
aliás, com minha mãe tenho um lance pós-edipiano (rs), uma amizade linda...
é sério, dona rute é uma das pessoas mais especiais que conheci nesta vida.
coração de mãe, manja?
sempre foi minha maior incentivadora.
enquanto meu pai, naquele seu pragmatismo de policial me mandava procurar trabalho de verdade (um vagabundo de quase 20 anos dentro de casa que só queria saber de boemia... e não tiro a razão dele... rs)...
enquanto ele me dava conselhos e me ensinava coisas que eu não estava a fim de aprender naquele momento...
enquanto...
enquanto isto...
ela comprava, na finada mesbla, pra pagar em 12 prestações, minha primeiríssima máquina de escrever.

rs...

sobrevivo das palavras desde os 24 anos de idade. graças ao incentivo dela.

beijão, nina.

R.

ps: putz... eugénio de andrade. sou fã demais. beijo, agora, no que te leio, a memória de suas mãos senis.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Roberto,
Você já 'sacou' tudo: saqueou o tempo e me devolveu o passado, onde eu fui menino-passarinho e era poeta de mil países imaginários, e apesar dos cem milhões de versos que eu não fizera: "hoje canto muito mais"...

Abraço do mesmo valadão,
Eu e os outros eus.

Assis Freitas said...

Vamos com as aves, que ainda sou menino. O Fontinhas não é brincadeira não, toca fundo, tem precisão cirúrgica. A poesia sempre me espanta quando a leio, mesmo que seja um próprio verso meu, assim cheio de redundância. Avisto o horizonte largo e ele está me convidando o olhar. Havemos brother, abraço.

Primeira Pessoa said...

ramúcio,
lembrei-me, lendo-t4e aqui, de você menino, sentado no chão do quintal (no meio das galinhas, dos bichos que habitavam seu quintal... os óculos de grau...) bisbilhotando minha prosa com seus irmãoes, enquanto escutávamos raimundão (in valadão) ne bebíamos cerveja.

ainda bem que você cresceu. rs
e o grego que se contorça de inveja...rs

abraço imenso,
R.

líria porto said...

a delicadeza das palavras, a busca da compreensão - tudo é comovente nestes versos.

ontem eu pensava - mãe, pai, vó, vô - já não demoro muito por aqui, estou me aproximando da idade que partiram...

(um dia pode nos parecer longo mas a vida é curtíssima, beto)

besosssss

*

besos

Primeira Pessoa said...

assis,
vamos com a palavra.
nas asas dela.
no bico dela.
ave cegonheira, a palavra.
bico de pena, riscando o poema da nossa amizade.

e aquela cervejota?
rola?

Primeira Pessoa said...

lírica, cê falou tudo: um dia pode parecer longo, mas a vida é curtíssima.
e sei que to muito mais pra seis da tarde do que pro meio dia.

que bosta!
acabo de olhar pro meu relógio. pro meu próprio relógio.
que bosta!

Jorge Pimenta said...

Palavras para a Minha Mãe

mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

Um abraço!

Primeira Pessoa said...

jorge,
posso fazer um post com esse poema do peixoto?
posso?

abração, poeta.
belíssimo presente.

Zélia Guardiano said...

Meu Deus! Que coisa mais linda! Fiquei emocionada. Pensei muito intensamente na minha saudosa mãe , que lavava roupas, com os pés atolados na lama e sempre cantando um tango... Não é pra gente chorar?
Um abraço

PS-Você tem aqui só jóias raras...

Em@ said...

Roberto:
que bom encontrar aqui o Eugénio (que também tive a honra e o prazer de conhecer num Inverno frio Portuense.´ele é uma das minhas paixões (mas eu tenho tantas :))),que é melhor eu parar de dizer que isto ou aquilo é uma paixão minha...sabe que ele morreu no dia do meu aniversário?claro que não sabe, mas desde esse dia, todos os anos, compro um livro do Eugénio para oferecer a alguém...tenho medo que ele seja esquecido (como já foram outros também grandes)

deixo-lhe um beijo.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Amigo Roberto, assim é lasca.
O poema do Eugénio deu um nó na garganta.
Você voltou com a goitana.
Ótima escolha.
Adorei de coração.
Fica na paz e bons dias, meu irmão.

líria porto said...

tem uns versos que fiz para minha mãe - xô vê se acho...

achei! ela fazia 80 anos, coloquei este poema entre as flores:

evidente
líria porto

falar de amor a quem amamos é tão óbvio
que nos descuidamos

esquecemo-nos de perfumar os dias óbvios
oferecer as flores óbvias dizer o óbvio eu te amo
e fica tudo assim tão óbvio que amar
parece desamor

*

besosssssssss

Fernanda Matos said...

Caro Roberto,
este poema é muito forte.
Inspirador a toda mãe, e a todo filho!
Como mãe, espero dar o espaço para o meu filho crescer e voar. E ainda como mãe, agradeço por um filho levar a doce voz da mãe dentro do croração, (contando as histórias pelas noites a fio).
Como filha, ainda bem já consegui reconhecer e dizer para minha mãe. Sigo pelo mundo, com tuas vozes cantadas na minha infância. Mas eu sigo.
Obrigada pelas reflexões.
Fernanda

Primeira Pessoa said...

zélia,
mãe é um mistério.
e de uma simplicidade ímpar.

mãe é mãe, né?

comoveu-me a imagem da sua, cantando um tango.

meu coração dança, com a sua voz.

abração,
R.

Primeira Pessoa said...

Em@,
eugénio é uma paisagem linda dentro de mim.
não o conheci. e quando soube de sua obra, ele já tinha partido.
mas já era eterno.
em nós.


abração,
R.

Primeira Pessoa said...

Paulo Poeta,
este blog fica luminoso quando você passa por aqui.

vou abrir uma cerveja e reler tudinho.
do princípio ao sim.

sim!

receba meu abraço fraterno

R.

Primeira Pessoa said...

lírica,
o óvio é o essencial.
é a baunilha. sorvete de baunilha não dá errado, ja percebeu?

o sorvete de baunilha não nos assusta.
o sorvete de baunilha é o equilíbrio.
é a retidão.

como o amor de mãe.

amor de mãe é óbvio, chavão, clichè...

amor de mãe é fueda!

edipianismos à parte, líria porto.
edipianismos à parte.

Primeira Pessoa said...

siga, fernanda,
sem medo de trilhar o caminho que sua mãe te mostrou.
não tem nada de errado nisto.

sinto que não tenho sido o pai que poderia (e posso!) ser. sou pai de 3 moças.
e me faria feliz demais se todas elea sentissem por mim, um bocadinho do respeito e do amor que sinto pelos meus pais (mãe, espírito santo, amém!).

não sou santo. nunca fui e nunca tive pretensão de ser. andei por caminhos tortusosos, visitei lugares mal situados mas, em algum lugar de mim, algo tranquilo e seguro me resguardou.
vem dele e vem dela.

fiz as contas agorinha: não fui e não sou mal filho. trafego de cabeça levantada.

quem sabe ainda não aprendo a ser um bom pai?

fernanda, siga adiante.
siga.

e não tenha receio de olhar para trás.

abração do
roberto.