Sunday, February 28, 2010

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Naquele Segundo, Em Algum Lugar

Escutei no radio que o próximo ano vai ter um segundo a menos. O que não é grave.
Sou da opinião de que chegar um segundo atrasado a qualquer lugar ou ocasião não é o fim do mundo. Afinal, é "apenas" um segundo.
Mas os cientistas se juntaram e, na passagem do ano, lá foram acertar o relógio oficial do planeta. Dizem que é porque a Terra foi se atrasando bocadinho atrás de bocadinho no seu giro diário, até completar um segundo no último dia de dezembro. No final, foi preciso o homem dar um jeitinho.
Não é a primeira vez que isto acontece, o que para mim é igualmente irrelevante.
No outro dia vi o personagem de um filme alemão definhando, sofrendo horrores numa cena em que contemplava o suicídio, refletindo o óbvio, de que a vida inteira de uma pessoa corresponde a um mero segundo na história da humanidade.
Mais do que isto seria presunção, disse eu – estranho maluco - ao homem que penava dentro do aparelho de televisão.
Mas ele não me escutou.
Até aquele momento eu não havia pensado no assunto com semelhante enfoque. Afinal, cada existência é do tamanho que é, como sempre vi.
Sessenta segundos se juntam para compor um minuto e sessenta iguais redundam em uma hora. Vinte e quatro destas compõem um dia. Sete destes e teremos uma semana.
Quatro semanas perfazem um mês. E doze meses, juntos, somam um ano.
Cem destes últimos fazem um século.
Simples!
E assim caminha a humanidade, dia após dia. Ano após ano. E não se fala mais nisto.
Mas, ontem, tarde da noite, ao levantar-me da cama para buscar um copo d’água, passando pela janela ao fim do corredor, olhei pela vidraça a noite limpa e testemunhei uma estrela mudando de lugar.
Linda, a cena!
Fazia um tempão que não via uma daquelas.
E aquilo me deu uma pontinha de alegria, afinal, o exercício do viver ainda nos oferece pequenos e grandes milagres de grande beleza. Só é preciso que estejamos atentos. Um segundo é precioso demais.
Coisas grandiosas acontecem em um segundo, pensei com meus botões. E coisas banais, também, não sejamos tão poeticamente ingênuos.
E foi assim que eu fiquei ali, debruçado sobre o parapeito da janela, meio insone, meio acordado, meio dormindo, meio despertado, namorando aquela estrela e pondo-me a imaginar que, naquele exato segundo em que ela se deslocara, em algum lugar do mundo uma nova vida nascia.
E que, naquele mesmo segundo, no hemisfério oposto, uma pessoa respirava pela última vez.
Naquele exato momento, em algum lugar do mundo alguém comia um pedaço de pão. Alguém sentia fome. Um outro não tinha o que comer.
Naquele exato segundo, em algum quadrante de algum lugar, alguém fazia sexo. Alguém penava com a solidão. Alguém se frustrava. Alguém dizia não.
Alguém pensava em alguém, que talvez pensasse noutro alguém.
Alguém sentia frio. Alguém se banhava no mar. Alguém viajava num táxi.
No instante em que aquela estrela fugidia de uma noite de dezembro mudava de lugar, uma mulher era humilhada e uma outra se libertava de sua maldição.
Naquele exato segundo uma criança era negligenciada.
Num outro lugar, uma outra brincava de videogame.
E uma terceira não tinha com o que brincar.
Em algum lugar da Terra alguém usava o banheiro. Alguém tinha náusea. Alguém bebia café.
Alguém se drogava com barbitúricos. Alguém rezava. Alguém pintava os lábios de batom.
Em alguma paisagem do mundo uma pessoa sentia a chuva molhar seus cabelos sem imaginar que, longe dali, uma outra tostava por prazer a sua pele ao sol.
Naquele exato segundo, em algum lugar, alguém buscava a cura para uma doença, enquanto uma outra pessoa tentava criar um vírus capaz de destruir milhões.
Em algum lugar alguém vendia armas.
Alguém vendia drogas.
Alguém vendia a salvação.
Naquele momento, em algum lugar do mundo, um escritor escrevia uma crônica sem grandes atrativos ou maiores novidades.
E alguém lia.
Naquele segundo.
Em algum lugar do mundo.
Via-se da janela uma estrela mudando de lugar.

*

8 comments:

Assis Freitas said...

E você diz que não faz poesia, tá de brincadeira. Isso é um poemão, poemaço, iluminação. Abraço.

Primeira Pessoa said...

é, assis... você, generoso, amigo dos amigos (rs)...
mas, sim, gostei do afago...

úm domingo sem faustão pra todos nós.

r.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Mestre Roberto, esse belo poema resume a aventura humana neste planetinha mediocrático. Segundos, minutos e horas são invenções do homem para se escravizar. Ótimo domingo pra vc com muita cultura. Faustão? Ave Sangria.

Primeira Pessoa said...

Paulo Poeta,
adoro o Ave Sangria. cê me deu uma ótima idéia: vou escutar... AGORA!

abração do R.

Jorge Pimenta said...

e tudo... num segundo...

Poemaço!!!

Abraço!

Primeira Pessoa said...

obrigado, jorge.
fico muito feliz que tenha gostado da crônica.

abraço do seu amigo de minas gerais, o
roberto.

LauraAlberto said...

Realmente vou reforçar um dos comentários que li aqui, esta crónica não é só uma crónica É POESIA!!!
Gostei imenso de ler este casamento entre ciência e poesia.

Volto a recomendar António Gedeão.
Beijos, Laura alberto

Primeira Pessoa said...

ando à procura do gedeão, laura.
vindo de você a sugestão, sei que deve ser coisa muito boa.

bom te rever nesse cantinho.

abraços,
roberto.