Saturday, February 27, 2010


















O Cheiro de Deus

Feche os olhos, respire fundo, projete na parede imaginária que se ergue diante de você, não uma imagem, mas um aroma.
Resgate de sua memória a lembrança de uma coisa boa. Transcenda ao olfato e projete um cheiro de manga. De cajá-manga. E de pitanga.
Projete um cheiro de mar. Um cheiro de serra.
Cheiro de jaca madura. De Pequi.
Cheiro da pipoca estourando na panela mágica do carrinho do pipoqueiro na pracinha do seu bairro.
Cheiro do querosene queimando na trempe, que aquece a panela do carrinho do pipoqueiro da pracinha do seu bairro.
Cheiro de posto de gasolina.
Cheiro de oficina mecânica.
De lança-perfume.
Do perfume de alfazema.
E do bálsamo bengué.
Evoque o cheiro do álcool no algodão, antes da vacina ou da injeção.
Cheiro de um hospital brasileiro.
Cheiro de um jasmineiro.
Cheiro de cravos amarelos no caixão, adornando e perfumando os que partem.
Cheiro de fazenda, de estrume de boi e de chiqueiro de porcos.
Cheiro de churrasco no quintal do vizinho, num domingo, por volta das 11:30 da manhã.
Esse é o cheiro da inveja, meus amigos, uma inveja quase saudável.
Cheiro de tangerina, de bergamota ou mexerica, que é exatamente a mesma coisa, em diferentes regiões do Brasil.
Cheiro de chuva na estrada de terra levantando o poeirão.
Cheiro de feira.
Cheiro de pastel fritando em feira.
Cheiro de peixe. Peixe vivo. Peixe-frito.
De feijão saindo da panela-de-pressão.
Cheiro de hortelã. Cheiro de uva malbec.
Cheiro de talco pompom, com protex, que “protege o bebê”.
Cheiro de vela queimando na igreja. Cheiro de sacristia. E de confessionário.
Cheiro, mau-cheiro, de desodorante “vencido” em ônibus lotado em horário de ponto.
Cheiro de plantação de eucalipto.
Cheiro de pinheiral.
Cheiro de coentro.
De fumo de rolo.
E de manjericão.
Cheiro do guarda roupa rescendendo a traça, que é o cheiro do tempo transpirando.
Cheiro de naftalina. De creolina.
De pomada minâncora.
E de óleo de fígado de bacalhau.
Cheiro de biblioteca. De livro novo.
De lona de freio de caminhão, segurando o tranco a cem por hora numa descida de morro na Br-116. Ou na Fernão Dias.
Cheiro de banheiro de estádio de futebol, que é o cheiro de gol.
Cheiro de loção de barbearia. E de ponto final de ônibus.
Cheiro de rodoviária, que é o cheiro do adeus.
E o cheiro de Deus. Que é o cheiro de tudo isto, se manifestando num milagre que chamamos saudade.

*

24 comments:

nina rizzi said...

"a saudade é prima afastada do amor", adoro madredeus.

cê leu o cheiro de deus de seu xará? líria que me deu.

o que não é perfumaria? e a perfumaria é é algo bom? sabe, tenho um olfato privilegiadíssimo, aí, raro gostar de perfume.. rsrsrs... mas ADORO o das ervas, como o manjericão que diz aí, coentro não gosto muito...

beijo.

Primeira Pessoa said...

sim, nina,
li O Cheiro de Deus.
tive o privilégio de ser amigo de roberto drummond (ele dedicou a mim seu romance Hilda Furacão) e ele foi uma espécie de mentor pra mim. compartilhamos muitas histórias e acompanhei bem de pertinho a agonia dele pra parir O Cheiro de Deus...
a líria gosta muito deste livro, diz que é o Cem Anos de Solidão brasileiro.
a propósito de sua mamadí, estivemos juntos em bh numa noitada especialíssima, há cerca de um mês.
até pinga a líria bebericou (e com muita elegância!).

quanto ao coentro, gosto no peixe. cultivo ervas numa hortinha que tenho em minha casa, gosto de perfumar as coisas que cozinho. manjericão e estragão são as minhas favoritas.

abs,
roberto.

Beatriz said...

nossa, que lindo texto. os cheiros são realmente botões de acender lembranças.

Lara Amaral said...

Que lindo, moço!

Mesmo com esse seu cheiro ranzinza de quem não gosta do Mickey, vc me emocionou com este texto.

Lembrei-me também do aipim, da mandioca, da macaxeira... têm o mesmo cheiro, rs =).

Beijos, bom fim de semana!

Primeira Pessoa said...

Lara,
minhas filhas foram ver o mickey e eu pedi, encarecidamente, que me incluíssem fora dessa. Já tinha pagado esse mico (esse mickey) na eurodisney e me prometido que não pagaria outra vez. parque temático pra mim está totalmente fora de cogitação.

só mesmo voce pra ficar um mês na disney...rs
que seu retorno a terras brasileiras seja tranquilo.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

beatriz,
existem certos cheiros que nem precisamos senti-los. basta fechar os olhos que eles chegam, de mansinho, rescendendo nossa memória.
existe um cheiro que não consigo curtir: o de pequi (abundante no cerrado). já sentiu?


ah, e que bom que gostou do textinho.

abração do
roberto.

Jorge Pimenta said...

Que bela galeria sinestésica...
Sabes que, no que a mim diz respeito, e numa hipotética escala hierárquica, o olfacto é, talvez, o sentido mais desvalorizado? Incrível, não?... E, todavia, como o mundo cabe nos aromas, olores, perfumes... como, de resto, bem o documentas neste belíssimo texto.

Um abraço português!

Primeira Pessoa said...

jorge,
estive em portugal uma única vez e um dos cheiros que guardei pra sempre, foi o das sardinhas assando na brasa, numa vila de pescadores próximas a óbidos.

o sentido que mais exercito é a audição. escuto música o dia inteirinho.

abraço brasileiro, das terras altas de minas gerais do

roberto.

Lara Amaral said...

10 dias, meu caro, não exagere, hehe! Mas não nego a saudade da minha terrinha, hehe...

Iara na Janela said...

daqui senti o cheiro de deus, de roberto, de lavanda e sonhos bons. suas memórias olfativas nos transportam pra longe longe.

um beijo e tanta saudade. de te cheirar lendo. tempos de crises virtuais, esses :)

Primeira Pessoa said...

só dez dias? rs
na flórida eu só vou a trabalho... e olha que minha filha mais velha vive no estado...

vou perguntar se ela já viu o mickey.
isabella e clarice, as pequenas adoram pagar esse mickey.

eu?
tô foríssima...

abs,
R.

Primeira Pessoa said...

Iara, deixa a crise pre lá...
nós, seus leitores, sentimos sua falta...
eu me afastei por uns tempos, mas tava de férias...

hoje, o blog é uma de minhas "cachaças".
curto demais os amigos que encontro aqui.
e você é um (a) deles (as).

sou seu fã. e você sabe disto.

abração do

roberto.

Assis Freitas said...

Cara tem um cheiro que até hoje eu não esqueço - e sinto - é o de Emulsão Scott - óleo de fígado de bacalhau - quando pequenos nós, eu e meu irmão mais velho, éramos forçados a beber esse troço. Cara a gente engasgava com o cheiro, tínhamos que tapar as ventas para o suplício diminuir. A sua cronica tem cheiro de magia. Abraço.

Primeira Pessoa said...

assis,
digamos que minha crônica tem cheiro dos anos que passaram...rs
emulsão scott...?
até meu estômago deu uma embrulhada...
ainda me lembro do rótulo... e da cor (em tom castanho) daquele suplício em colher...

horrível...

abraços do
r.

Francisco de Sousa Vieira Filho said...

Gostei mais do Leminsky... forte abraço, Roberto...

Paulo Jorge Dumaresq said...

Aromas, aromas, aromas. Como é bom sentir cheiros disso e daquilo. Eleva o espírito. Ainda acrescento o aroma do que Bob Marley está fumando na foto. Sem igual. Ótimos dias, caro Roberto, com cheiros mil.

Primeira Pessoa said...

leminski é fera, francisco.
que bom que o poema dele te agradou.
sou fã de leminski.
e também de você.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
bom entendedor...rs
meia palavra jamais será palavra inteira...

preciso falar alguma coisa?
viva bob marley!
viva "nóis"! rs

abs fraternos do

roberto.

Jorge Pimenta said...

Ah, Óbidos, terra de castelos, amores impossíveis e mar... oxalá tenhas gostado...
Um abraço!

Primeira Pessoa said...

jorge,
óbidos é um dos lugares mais lindos que meus olhos já viram.
no mesmo dia, estiquei até bombarral (onde tinha um chafariz vertendo vinho) e assisti a um inesquecível show dos Trovante.
e ainda era noite de luz cheia.

abração do
roberto.

Mai said...

Coisa mais linda!
O 'cheiro de adeus' - mimetiza-se, mas tem um fixador eterno com cheiro de poros e pele e basta sentir - tudo volta num instante.
Belíssimo!

Gil. said...

Roberto,

que bom saber que Deus está em tudo e em todos, ao mesmo tempo. Este texto me remete a tantas lembranças... e hj, especialmente, acordei assim, lembrando de tantas coisas, que sou capaz de montar um "mosaico de saudades".
E Deus é tão legal (quem o conhece sabe o qt Ele é legal) que ele se encontra presente até msm no cheiro de pequi, que eu amo tanto! Obrigada por escrever um texto como esse. Me fez mt bem!

Forte abraço e até +!

Gilmara :)

Primeira Pessoa said...

Gil,
tem dia que fico mais "questionativo", mais "contemplativo" e fico filosofando que Deus foi a maior invenção do homem... (até hoje aquele papo do bebê que nasceu de uma virgem não consegui compreender direito)...
e aí vem as teorias da evolução e de sei lá o que... essas cousas... e baixa uma confusão dos "infernos"...

mas toda vez tô ferrado, passando por algum aperto, lá vou eu, o temente dos tementes, pedir aquela forcinha, aquele empurrãozinho pra "virar na chave"... eu, que trago no pescoço um escapulário de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis.

eu talvez seja uma causa impossível.

ainda bem que Deus é compreensivo e benevolente, né? Deus perdoa.

abração do
R.

Daiane Andrade said...

Olá Roberto! Fiquei muito feliz por tudo que li por aqui...
Sou leitora de Roberto Drummond desde a adolescência e ele é responsável pela magia ue vejo em coisas simples. Estou desenvolvendo pesquisa de mestrado sobre a obra "O cheiro de Deus" e fiquei encantada com seu poema.

Abraços com ventos mineiros de Montes claros...