Saturday, February 20, 2010

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O Poeta

Trabalha agora na importação
e exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias.
Podia ser um trabalhador
por conta própria,
um desses que preenche
cadernos de folha azul com
números
de deve e haver. De facto, o que
deve são palavras; e o que tem
é esse vazio de frases que lhe
acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai
do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol
e exportar as nuvens.
Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas,
de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um
escultor do movimento. Fere,
com a pedra do instante, o que
passa a caminho
da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu;
e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia
interrupção da morte.

Nuno Júdice

*

A Música que toca sem parar é Cristiana, extraída do disco Carmo, de Egberto Gismonti, e tem no vocal a cantora Cristiana Legrand.

12 comments:

Ju Santos - Fotógrafa said...

Eu passei para agradecer a visita, e no que entro leio o seu perfil, onde fala que gostas de pão com linguiça .... eu sorri sozinha, pois sou gaúcha, moro no Rio de Janeiro e hj fiz um pão com linguiça e o estava saboreando enqt lia seu blog.. Prazer em conhecê-lo! Adorooooooooooo poesias!

Maria Sarmento said...

O que o poeta "perde" no azul, para acabar na "mercantil" tarefa de su deve e haver de vida. Quando o poeta sonha esse bater de asas, é que lhe dói a vida e lhe bate a realidade no peito. Grata por me deixar entrar e ler, como quem viaja no texto. Ou voa...
Abraço.

Layne said...

Muito interessante seu blog!!! Sou nova por aqui e o encontrei por acaso, mas qdo aqui cheguei não pude deixar passar. Gostei mto de tudo o que li. Tb gosto de escrever e tb sou de Minas e sei o quanto o mineiro é bom nas letras! Vc é escritor, eu esboço de escritora e poetisa (rs) mas amo as letras, poesias, artes, enfim o belo que constrói... Gostei mto de estar neste recanto!Abraços!

Lara Amaral said...

Estou em Orlando com o meu namorado e a família dele. Quem nos guiou até à casa que alugamos foi o Pedro Corrêa. Como ele disse ter vindo trabalhar aqui nos EUA como jornalista, falei no seu nome e ele disse que te conhece. Mundo pequeno ou vc é muito famoso, hehe...

Saudades de vir aqui. Depois visitarei seu blog com calma para ler-te mais, Roberto.

Beijão!

Primeira Pessoa said...

pois é, juliana...
melhor que um pão com linguiça, só dois pães com linguiça (rs)...
é sério...
confesso gostar de outras tipo "rapa de arroz" (aquele queimadinho do fundo da panela) e de pastel de feira.
e de "mate couro", que é uma espécie de guaraná vendido (acho!) apenas em minas gerais.
bem vinda ao blog!

Primeira Pessoa said...

maria,
faça-se em casa. fico feliz que tenha gostado de aqui ter estado.
seja-se.

em azul.
abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

layne,
esse trem de alinhavar palavras, tecer verbos é bem próprio dos mineiros (e não só!), né?

bem vinda ao blog.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

ah, Lara, mundo pequeno.
tenha certeza disto.

eu ainda não tive pachorra pra ver o mickey. na minha cabeça, orlando deve ser um grande parque temático e seus habitantes, todos, sem excessão, personagens de walt disney, né?
na verdade, tenho uma certa má-vontade com a flórida. miami me dá coceira e fica aquela impressão de picaretagem explícita.
costumo dizer que até as palmeiras de miami são cafajestes.

má-vontade, admito.
um dia eu me curo.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Roberto, mais um ótimo poeta portuga que você me apresenta. Belo poema "ilustrado" por Gismonti e Cristiana Legrand. Forte abraço.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
mal consigo esperar a chegada de um pacotaço de livros que encomendei esta semana.
quase tudo de mia couto, entre estes, uma parceria com o fotógrafo mineiro sebastião salgado. palavra-imagem no seu melhor.
to como criança esperando pelo dia de natal.

depois eu te conto.

abração do seu amigo
roberto.

Jorge Pimenta said...

Olá, Roberto!
Agradeço-te a simpatia das palavras no meu blogue. Já me tinha cruzado contigo num ou noutro blogue que sigo, mas confesso que ainda não tinha tido o ensejo de te visitar. Pois, em boa hora o faço; há leveza e magia (não, não as vejo como antípodas, mas antes complementos) neste teu espaço. E que melhor oportunidade que me cruzar, desde logo, com um texto desse génio das Letras que dá pelo nome de Nuno Júdice. Voltarei, com certeza.
Um abraço!

Primeira Pessoa said...

jorge,
tudo tem o seu momento, quero crer. que o nosso seja agora.
tenho grande admiração pelo seu país e sua gente. essa experiência na blogosfera está ajudando a estreitar estes laços de forma ainda mais concreta.
seja bem vindo.
também te visitarei muito, tenha certeza disto.
abração do
roberto.