Monday, February 22, 2010

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Um Encontro Marcante

A poesia foi minha primeira forma de expressão escrita.
Eu era adolescente em Governador Valadares e começava a me encantar com a palavra, interessando-me inicialmente pelas letras de canção impressas nos encartes dos discos.
Eu ficava horas a fio esmiuçando as letras de Chico Buarque, Capinam, Caetano Veloso, Fausto Nilo, Abel Silva e Belchior, meus favoritos naquele momento muito fértil da MPB.
Lia, releia e me comovia. Mas não me arriscava a rabiscar nada.
Até que houve um dia que tudo mudou.
Eu tinha 18 anos de idade e servia o exército em Juiz de Fora.
Era setembro e meu pai havia se deslocado àquela cidade para me ver desfilando com o verde-oliva do 10º Batalhão de Infantaria.
Ele, que era militar e queria que eu seguisse seus passos estava muito feliz.
Eu, nem tanto. Mas gostava de vê-lo naquele estado de encantamento.
Desfilei – marchei! - como milhares de outros rapazes e, por volta do meio dia, já estava no hotel onde meu pai se hospedara. E imaginava que ele fosse me levar para almoçar em um bom restaurante, louco que estava para fugir dos bandeijões nada apetitosos servidos na caserna. Mas ele tinha outros planos.
Fui informado que almoçaríamos num presídio, o que não me animou nem um pouquinho.
Explico: meu pai queria visitar um amigo que se encontrava encarcerado no presídio de Santa Teresinha.
Um amigo dos tempos em que ele ingressara na polícia militar de e que cumpria pena por ter se transformado num dos mais temidos pistoleiros de aluguel de todo o interior mineiro.
Chegando lá, fomos recebidos com alegria. Eu já o conhecia. Meu pai foi uma das poucas pessoas que não lhe viraram as costas, quando foi descoberta a sua atividade paralela.
Tratava-se de um homem miúdo, tinha os cabelos longos e um pronunciado cavanhaque. Seu olhar era penetrante e firme.
Estava bastante diferente de quando o havia visto pela última vez, uns cinco anos antes.
No derradeiro encontro ele havia me presenteado com um livro retratando a participação brasileira na batalha de Monte Castelo, na Segunda Guerra Mundial. E, a primeira coisa que ele me perguntou, logo na chegada, foi sobre o livro.
Confirmei que havia lido o livro e ele testou se eu falava a verdade.
Felizmente, eu havia lido realmente o livro e, durante uns bons quinze minutos, ficamos falando sobre a obra.
O dia transcorreu com a estranheza esperada por quem passava seu primeiro dia dentro de um presídio, ainda que como visitante.
Almoçamos arroz, feijão, carne de panela, salada de tomate e bebemos suco de laranja. A sobremesa foi uma gelatina vermelha, muito rala, que imaginei ser de framboesa. A comida era muito parecida com a que me serviam no quartel.
Na hora da despedida, o amigo de meu pai me perguntou, do nada, se eu gostava de poesia. E eu disse que sim. Ele perguntou quem era meu autor favorito e eu respondi: Chico Buarque.
Aí ele me disse que também gostava de Chico Buarque, mas argumentou que eu precisava me interessar por autores outros que não os da palavra cantada. E indagou sobre Augusto dos Anjos.
Eu não sabia quem era Augusto dos Anjos.
E ele deu uma catédra sobre o poeta simbolista, nascido na Paraíba e falecido em Leopoldina, MG, e que havia publicado apenas um livro, grandioso o suficiente ao ponto de colocá-lo entre os maiores nomes da poesia brasileira em todos os tempos.
Ao final da grandiosa pequena aula, recitou Versos Íntimos, obra-prima de Augusto dos Anjos.
E recitou com fúria tamanha, que quando terminou de dizer o último verso, eu estava completamente arrepiado, encolhido em um canto da cela, comovido até o último fio de cabelo e à beira das lágrimas.

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”

Saí daquele lugar como se tivesse sido atropelado por um trem.
Chegando ao quartel, passei a noite em claro, escrevendo poemas, cometendo versos cada um pior que o outro. Mas parira ali, alavancado por aquele insólito encontro, minhas primeiras palavras.
Havia me tornado poeta e minha vida havia sido transformada para todo o sempre.

14 comments:

LauraAlberto said...

Caro Roberto, com uma visita ao seu blog ganho sempre um pouco de esperança, obrigada!

Beijinhos e uma semana cheia de persistência.
Laura

Paulo Jorge Dumaresq said...

Amigo Roberto, ao ler sua crônica lembrei que minha mãe me embalava numa rede recitando "Versos íntimos" e "Budismo moderno" do mestre Augusto dos Anjos. Isso faz tempo. Sua crônica boa pra dedéu. Continue mandando ver. Forte abraço.

Primeira Pessoa said...

a desesperança é um trem medonho...
anime-se, sempre.

persistir, sempre.
persistência e teimosia são duas coisas completamente diferente.

perseveremos.

abraço amigo do
roberto.

Primeira Pessoa said...

rapaz, sua mãe não era fácil (rs).
augusto dos anjos é uma espécie de zé ramalhos sem violão... cavernosíssimo!

e é tão bom te receber por aqui.
abração do
R.

líria porto said...

gosto imensamente desta tua crônica

lá no araguari das minhas infâncias havia um vizinho que tinha livros - e antologias dos poetas portugueses (guerra junqueiro, bocage, camões...) - eu fugia de casa para ler!

muita vez me perguntam porque escrevo na segunda pessoa, esta não é uma tradição mineira - penso que é por ter tido este primeiro contato com a poesia d'além mar...

besos

Primeira Pessoa said...

lírica,
eu ja tava pensando em pedir pra algum dos diabinhos do dona clara ir atrás d'ocê.
sei lá, uma serenata na sua janela... um daqueles carros com auto-falante (dos de antanho), recitando um poema... algo assim...
é que eu tava sentindo sua falta...

ce nunca foi à casa de guimarães rosa, em cordisburgo?
fica a pouco mais de uma hora de bh. e tem umas crianças que contam a vida dele de um jeito bunitim demais. e eu peço pra contarem de novo, todas as vezes. e me emociono e me enterneço, sempre. sou um bobão, né?

pois bem: foram essas crianças de cordisburgo que me contaram que guimarães fugia e se escondia debaixo do balcão da "venda" do pai dele, so pra escutar as estórias dos tropeiros.

sim, eu sei: qualquer coincidência é mera semelhança.

beijo meu.

R.

líria porto said...

fui lá no putas resolutas postar uma bobagem e vi que agora segues o blog - um conselho, amigo, aquilo lá num é lugar pra moço de família!!

kakakkakkkaaaaaaaaaaa

besos

líria porto said...

ah, vou dar um jeito de ir a cordisburgo!!! depois te conto.

aposto que vou chorar...

besos

putas resolutas said...

apois - meu pai tinha venda, minha mãe o ajudava - enfiava os caixotes com as crianças pequenas debaixo do balcão - deve de ser daí que fiquei encantada, a gostar tanto de causos...

besos

Primeira Pessoa said...

lírica,
vá mesmo. depois vou descobrir o endereço de onde ficava o bar do lulu, casa de GR aí em BH... ce passa em frente, nem que seja só pra sentir um arzinho roseano, que ainda deve soprar por lá.

e quem disse que eu sou moço de família? rs
a proposito, falei disso com meu pai no outro dia. nunca fui a puteiro naquele final de adolescencia, inicio de juventude, porque tinha medo de encontrar meu pai por lá... ele, pelo menos tinha a desculpa de que era polícia e tava por lá, "a trabalho"...

beijão,
R.

Assis Freitas said...

Esse matador aí é dos bons, parece um cabra roseano. Gosto pra morte e por Chico e Augusto dos Anjos. Uma história dessa é prá escrever um romance. Abraço.

Primeira Pessoa said...

assis,
esse lance me deixou "boladão"... um assassino que gostava de literatura... de música...
sempre defendi a tese de que, à excessão de hitler (que amava wagner), não conheci um amante de literatura ou música que fosse um cabra do mal.

enganei-me.
eu, que um dia achei zé dirceu um cara porreta.
eu, um er-rei dos enganos (e desenganos).

Fernando Campanella said...

Muito bom o relato de tua iniciação poética, Roberto. A poesia nos chega por inusitados caminhos, da dureza de um aço, da leveza de um passarinho....sempre poesia, o eterno ritmo do verbo em nós. Um abraço.

Primeira Pessoa said...

pois é, fernando... a minha chegou num misto de ecantamento e medo...
e nunca mais saiu da minha pele.

tatuou-se em mim.

abraço,
r.