Monday, February 15, 2010

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Limando o Lima

Fosse aqui nos Estados Unidos, alguém com o sobrenome Lima iria procurar quem inventou a expressão “Mandar o Lima” e processá-lo.
O bordão é sinônimo de descaso e é usado toda vez que alguém não quer ir a algum compromisso, e resolve mandar o Lima em seu lugar.
Dizem que Tim Maia mandou o Lima a muitos de seus shows, e que teria sido ele o cunhador do mote.
Estivesse vivo e morando nos Estados Unidos, algum distante parente meu arranjaria um jeito de processá-lo, demandando milhões. Aqui se processa por tudo. Teve uma dona que ganhou uma grana porque uma lanchonete McDonalds serviu-lhe um café quente. Já no carro, o copo de café caiu-lhe sobre o colo, queimando parte das coxas.
Isto talvez explique o cafezinho morno que andam servindo por aí.
Nos anos noventa, “Bráulios” do Oiapoque ao Chuí bem que poderiam ter se manifestado em tribunal. Foram injustamente estigmatizados.
Fosse o Brasil os Estados Unidos, o processo teria sido movido contra o ministério da Saúde, que na campanha de prevenção contra a aids, sugeriu que se plastificasse, encapuzasse, encamisasse os suscetíveis a doenças sexualmente transmissíveis, Bráulios de todo o país.
Os imprudentes burocratas da Saúde teriam facilitado as coisas sem traumatizar ou ofender ninguém, tivessem escolhido um nome que não quisesse dizer outra coisa, que não o próprio dito-cujo. Qualquer slogan simpático resolveria:
“Não corra riscos desnecessários! Na hora da transa, plastifique o seu Bilau”.
Não conheço ninguém com esse nome. Bilau da Silva; Bilau Osório; Bilau de Andrade.
Essa de mandar o Lima é uma bossa relativamente nova. Mas existem registrados alguns casos bem antigos.
Dizem que o Lima fez muitos dos exames anti-dopings de Diego Maradona, quando este jogava no Napoli. Aliás, era o Limone quem fazia o xixi no lugar do baixinho.
Aldir Blanc narra em seu livro Rua dos Artistas & Arredores, uma preciosidade, que conto aqui com algumas “adaptações”.
Um rapaz do bairro havia combinado de fazer uma serenata junto à janela de uma moça. Seria uma serenata em que pediria a mão da beldade em casamento, e para a qual já estavam confirmados alguns dos melhores músicos da região.
Os preparativos corriam dentro dos conformes e houve até quem consultasse a folhinha Mariana para ver se seria noite de lua cheia. Afinal, serenata e lua cheia ficam perfeitas juntas.
A uma semana da grande serenata, no entanto, o candidato a noivo classificou-se para as semifinais de um campeonato de sinuca no bairro vizinho. A partir daquele momento criou-se um impasse. E ele teria que tomar uma decisão importante.
Uma decisão que denotasse responsabilidade e bom senso.
Foi assim que ele acabou em terceiro lugar no campeonato, sem fazer feio na serenata.
Um amigo dele – provavelmente de sobrenome Lima – fez um emocionado discurso, declamando versos românticos e pedindo a mão da noiva em nome do ausente, informando que este tivera um “compromisso inadiável”.
Foi muito aplaudido e o pai da moça não só permitiu o namoro, como ainda abriu uma garrafa de uísque, que guardara durante muitos anos para uma ocasião especial.
Se aconteceu, verdadeiramente, eu não sei, mas o certo é que todos estamos sujeitos a levar um bolo. E muitos destes bolos são involuntários. Aconteceu, muito recentemente, comigo.
Kiko Sales descobriu que seria aniversário de César Augusto, amigo querido de ambos. Precisávamos homenageá-lo.
Combinamos com outros amigos comuns de sairmos juntos, e celebrarmos a data magna do jornalista. Só que César e a esposa Luciana estavam de viagem marcada para as Bahamas naquele dia, e não poderia participar. Na ausência deles, remarcamos para a volta.
Quando ligamos novamente para avisar da nova farra, ficamos sabendo que na data escolhida, eles estariam a trabalho em Boston.
Não desanimamos.
Saímos, jantamos, festejamos e ligamos para ele na hora do parabéns, com todos soltando a voz em desafinado uníssono. Até os garçons ajudaram a engrossar o coro ligeiramente alcoolizado.
No dia seguinte, logo pela manhã, encontro no celular uma mensagem do aniversariante:
- Foi minha melhor festa de aniversário de que não participei. Muito obrigado!
Espirituoso, César Augusto não perdeu a piada e nem os amigos. E ainda ganhou, de presente, esta crônica aqui.

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12 comments:

líria porto said...

então, baby, enfiaste o pé na neve!
besos calorosos!

Primeira Pessoa said...

Lírica,
cheguei e ja to na peleja.
a vida profissional, um caos.
mas a alma, levinha... o céu de minas ainda azula as retinas...

sim, enfiei mais que o pé na neve (e na jaca), logo de cara. bem mais que o pé, foi até quase os joelhos. e, o pior: ainda tenho mais seis semanas de suplicio.
mas vai passar...rs
neve so fica linda no cartão postal.
e seu silencio é o silencio da morte. nada acontece quando neva. nada, absolutamente, nada!
silêncio frio, trucidante... de morte mesmo.

beijão do
R.

Marisete Zanon said...

Pôxa...quando estive em Nova Iorque não nevou...buááááá...
esmaques pra ti!

Primeira Pessoa said...

Está nevando nesse momento, marisete... é um porre...rs

se voce vier entre dezembro e março, certamente terá do que se queixar...

abração do
roberto.

Assis Freitas said...

Sebastião era o cara. Tô lendo o Vale tudo, escrito pelo chato do Nelson Motta. O início está sendo suportável. Cara, coisa gelada prá mim é sorvete com doce de leite. Neve, cadê o Neves? Abraço.

Júlio Castellain said...

...
Olá Roberto,
Gostei da crônica.
Agradeço também sua visita.
Abraços.
...

Primeira Pessoa said...

assis,
cê não tá perdendo nada por não ver (o preço é o sentir) a neve. bicho, é o ó... to de saco cheio. e só cheguei ontem.

e, sim, li o livro. achei que foi mal explorado. o personagem - e o tema - é maior, bem maior.
nelsinho, esperto como ele só (espertinho? espertalhão?), deixou a desejar e não tirou o tanto de leite que tinha pra tirar.
azar o nosso, quero crer.
pensei que fosse me divertir muito mais com a leitura.
nessa linha aí, gostei do Chega de Saudade, do Ruy castro (que não conheço, mas dizem ser um "conteiner" de chato). outro livro legal é Os Sonhos Não Envelhecem, de Márcio Borges, contando a história e muitas estórias do Clube da Esquina.
Abração do
R.

Primeira Pessoa said...

Ah, Julio, agora quero carteirinha do teu blog...

Vai me ver sempre por lá.
Abs,
R.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Primor de crônica, Roberto. Um dia farei isso com um aniversariante amigo meu. Abração.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
você vai lhe dar o bolo ou "o bolo".
uma cronica ou um poema vão cair bem.
e sai baratinho, tipo 0-800.
abração do
roberto.

Fernando Campanella said...

Estava me lembrando aqui de outros nomes que viraram expressão, como 'Abreu' 'Zé' (Zé Ninguém' é terrível, mereceria processo por parte de todos os Josés do Brasil), etc. Mas quem ganharia um dinheirão mesmo seriam todas as louras do país, tachadas de burras pelo preconceito nacional.
Tuas crônicas são inteligentes, prendem a atenção, bem escritas....mas estou comentando o trabalho de um grande profissional, rs.... Grande abraço, meu amigo.

Primeira Pessoa said...

Zé Ninguém... putz, acho que esse (e as louras) tem tudo pra frequentar perenemente o divã do analista, por pura culpa da insensibilidade de alguém muito "criativo".
a propósito, eu falava sobre algo similar com meu pai, esta semana, e abordei a tremenda responsabilidade dos pais na hora de escolher o nome do filho.
no brasil, as esquisitices campeiam. procê ter uma idéia, lá em casa somos, todos, carlos, gauches na vida.
abração do
roberto.