Thursday, February 11, 2010













o poema


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a explêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio
- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
e a miséria dos minutos,
e a força sustida das coisas,
e a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo, o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

-E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder
O Poema (excerto)

10 comments:

Lídia Borges said...

A construção do poema dita de forma única, esta de Herberto Helder...

L.B.

Magnolia said...

Outro grande poeta...
Beijo Roberto

Paulo Jorge Dumaresq said...

Roberto, esse Herberto Helder é poeta portuga dos bons.
Belo, belo, "O Poema" postado no Primeira Pessoa.
"E o poema cresce tomando tudo em seu regaço. E já nenhum poder destrói o poema."
Comovente.
Ótimo saber que você está de volta.
Forte abraço.

Assis Freitas said...

Rapaz que galera da pesada, essa reunião em BH deve ter sido o bicho. Coisa boa como esse poema do Herberto. Abraço.

Primeira Pessoa said...

lidia,
postarei mais HH aqui nesse espaço. me aguarde... to nas garimpagens!
abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

magnolia,
ta vendo como to aprendendo?
mais e melhores...
poesia, sempre.
abração do
R.

Primeira Pessoa said...

Paulo Poeta,
to de volta, sim. E é bom demais encontrá-lo aqui, na minha volta.
abraço do seu amigo
roberto.

Primeira Pessoa said...

assis,
e a líria recitou bonitinho demais. fiquei feliz demais por tê-la lá, conosco. meus amigos são desbocados, bocas-sujas...
mas ela parecia peixe n´água... nem chegou a corar...
demos boas risadas... comemos boa comidinha... paulinho levou uma gameleira (pinga lá de pedra azul) e o pau comeu.

foi uma noite daquelas de emoldurar e pregar na parede.

na próxima quero-te cá, entre seus iguais.
cê topa?

beijão do

roberto.

Wilson Torres Nanini said...

Helberto Helder em sua forma plema. Por aqui há os máximos sopros das mais variadas poéticas que nos permeiam, nos circundam e nos atravessam com seus odores de rio ao relento e rumores que passam a ser uma alma (ou uma lama) ao lado de nossa alma (ou brejo). Abraços!

Primeira Pessoa said...

Nanini,
bom demais te reencontrar por aqui.
Eu também voltei.
Abração do

Roberto.