Sunday, February 28, 2010

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O Verdadeiro Peso da Terra

E se tudo o que disseram tiver sido mentira? E se não houver, finalmente, vida após a morte? Já imaginaram?
De um instante para o outro a chama da vida se extingue e, como uma vela apagada, deixaremos de iluminar a escuridão à nossa volta.
Assim, de repente, não mais que de repente e, como que reagindo ao movimento do dedo no interruptor, ou no botão onde Deus escreveu, em inglês, a palavra Off, chegamos ao fim.
Cessa o movimento do corpo, a memória se apaga e a estrada da vida chega ao seu final.
Acabou. The End. Fim.
Não há mais acerto de contas, nem purgatório, nem dono do inferno ou senhor do céu.
Não haverá São Pedro, nem Satanás para dar as boas-vindas à porta da próxima parada.
Nem céu, nem inferno, apenas o buraco negro do nada e a matéria se desintegrando, gradualmente, pasto de vermes.
Este é o ponto final. Todo mundo desce aqui.
A partir daqui, só o silêncio, a escuridão, a inércia, nada mais.
Já imaginaram?
Eu, que imaginei e fiz as contas, considero-me no lucro. Se não houver nada além, já terá valido a pena.
E valeu, porque andei de pés descalços sobre a grama orvalhada, mergulhei no doce das águas de um rio e no sal das ondas do mar. Vi o sol nascer e se pôr, conheci o amor, gerei crianças perfeitas, lindas.
Fui abraçado por mornas manhãs, fiz serenatas em noites de lua cheia, recebi o afago do vento e tomei banhos de chuva.
Li livros bons e ruins, conheci pessoas interessantes, gritei “gol”.
Chorei de alegria e de dor. Gargalhei, sorri.
Bebi a poesia de Neruda, Drummond e Lorca. Sonhei mudar o mundo e acordei, pacificado e nu, diante de um imenso deserto.
Não conheci a fome ou equivalente flagelo. Sempre existiu um cobertor para me proteger do frio e um teto como abrigo às tempestades. Decifrei, menino ainda, o significado da palavra lar.
Fiz amigos, muitos. E inimigos que não enchem uma mão.
Comi pão com mortadela de padaria, colhi fruta madura no pé, senti o perfume de um jasmineiro em noite de estrelas.
Nunca roubei, matei ou envergonhei quem me trouxe ao mundo. Fui abençoado por ter vindo de quem vim.
Ao longo dos anos tentei vencer a inveja e a mesquinhez. Não sei se consegui.
Mas meus pecados podem ser considerados menores, e os medos nunca me assustaram além da conta.
Saí de minha aldeia, corri trecho, visitei mundos que imaginava longínquos demais, paisagens tiradas de páginas impossíveis. Fui e voltei.
Aprendi a me arrepender dos erros e a pedir perdão, uma das tarefas mais difíceis para o ser humano.
Obra em andamento, eu sei que ainda tenho muito a melhorar. Mas não perdi a esperança.
Se tudo o que disseram durante toda a vida tiver sido mentira, não terei mais perguntas a fazer. Nem queixumes.
E me darei por satisfeito se tiver conseguido melhorar o produto final, quando tiver chegado àquela hora de ir desta para lugar nenhum.
Reduzido a simples matéria, sei que a terra me será leve, muito leve.

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Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neal
Poeta português, descendente de irlandeses e nascido em Lisboa (1924).
Morreu em 1986 e é considerado um dos maiores poetas surrealistas portugueses.
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Naquele Segundo, Em Algum Lugar

Escutei no radio que o próximo ano vai ter um segundo a menos. O que não é grave.
Sou da opinião de que chegar um segundo atrasado a qualquer lugar ou ocasião não é o fim do mundo. Afinal, é "apenas" um segundo.
Mas os cientistas se juntaram e, na passagem do ano, lá foram acertar o relógio oficial do planeta. Dizem que é porque a Terra foi se atrasando bocadinho atrás de bocadinho no seu giro diário, até completar um segundo no último dia de dezembro. No final, foi preciso o homem dar um jeitinho.
Não é a primeira vez que isto acontece, o que para mim é igualmente irrelevante.
No outro dia vi o personagem de um filme alemão definhando, sofrendo horrores numa cena em que contemplava o suicídio, refletindo o óbvio, de que a vida inteira de uma pessoa corresponde a um mero segundo na história da humanidade.
Mais do que isto seria presunção, disse eu – estranho maluco - ao homem que penava dentro do aparelho de televisão.
Mas ele não me escutou.
Até aquele momento eu não havia pensado no assunto com semelhante enfoque. Afinal, cada existência é do tamanho que é, como sempre vi.
Sessenta segundos se juntam para compor um minuto e sessenta iguais redundam em uma hora. Vinte e quatro destas compõem um dia. Sete destes e teremos uma semana.
Quatro semanas perfazem um mês. E doze meses, juntos, somam um ano.
Cem destes últimos fazem um século.
Simples!
E assim caminha a humanidade, dia após dia. Ano após ano. E não se fala mais nisto.
Mas, ontem, tarde da noite, ao levantar-me da cama para buscar um copo d’água, passando pela janela ao fim do corredor, olhei pela vidraça a noite limpa e testemunhei uma estrela mudando de lugar.
Linda, a cena!
Fazia um tempão que não via uma daquelas.
E aquilo me deu uma pontinha de alegria, afinal, o exercício do viver ainda nos oferece pequenos e grandes milagres de grande beleza. Só é preciso que estejamos atentos. Um segundo é precioso demais.
Coisas grandiosas acontecem em um segundo, pensei com meus botões. E coisas banais, também, não sejamos tão poeticamente ingênuos.
E foi assim que eu fiquei ali, debruçado sobre o parapeito da janela, meio insone, meio acordado, meio dormindo, meio despertado, namorando aquela estrela e pondo-me a imaginar que, naquele exato segundo em que ela se deslocara, em algum lugar do mundo uma nova vida nascia.
E que, naquele mesmo segundo, no hemisfério oposto, uma pessoa respirava pela última vez.
Naquele exato momento, em algum lugar do mundo alguém comia um pedaço de pão. Alguém sentia fome. Um outro não tinha o que comer.
Naquele exato segundo, em algum quadrante de algum lugar, alguém fazia sexo. Alguém penava com a solidão. Alguém se frustrava. Alguém dizia não.
Alguém pensava em alguém, que talvez pensasse noutro alguém.
Alguém sentia frio. Alguém se banhava no mar. Alguém viajava num táxi.
No instante em que aquela estrela fugidia de uma noite de dezembro mudava de lugar, uma mulher era humilhada e uma outra se libertava de sua maldição.
Naquele exato segundo uma criança era negligenciada.
Num outro lugar, uma outra brincava de videogame.
E uma terceira não tinha com o que brincar.
Em algum lugar da Terra alguém usava o banheiro. Alguém tinha náusea. Alguém bebia café.
Alguém se drogava com barbitúricos. Alguém rezava. Alguém pintava os lábios de batom.
Em alguma paisagem do mundo uma pessoa sentia a chuva molhar seus cabelos sem imaginar que, longe dali, uma outra tostava por prazer a sua pele ao sol.
Naquele exato segundo, em algum lugar, alguém buscava a cura para uma doença, enquanto uma outra pessoa tentava criar um vírus capaz de destruir milhões.
Em algum lugar alguém vendia armas.
Alguém vendia drogas.
Alguém vendia a salvação.
Naquele momento, em algum lugar do mundo, um escritor escrevia uma crônica sem grandes atrativos ou maiores novidades.
E alguém lia.
Naquele segundo.
Em algum lugar do mundo.
Via-se da janela uma estrela mudando de lugar.

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Saturday, February 27, 2010

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Incenso fosse música


Isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além.

(Paulo Leminski)

















O Cheiro de Deus

Feche os olhos, respire fundo, projete na parede imaginária que se ergue diante de você, não uma imagem, mas um aroma.
Resgate de sua memória a lembrança de uma coisa boa. Transcenda ao olfato e projete um cheiro de manga. De cajá-manga. E de pitanga.
Projete um cheiro de mar. Um cheiro de serra.
Cheiro de jaca madura. De Pequi.
Cheiro da pipoca estourando na panela mágica do carrinho do pipoqueiro na pracinha do seu bairro.
Cheiro do querosene queimando na trempe, que aquece a panela do carrinho do pipoqueiro da pracinha do seu bairro.
Cheiro de posto de gasolina.
Cheiro de oficina mecânica.
De lança-perfume.
Do perfume de alfazema.
E do bálsamo bengué.
Evoque o cheiro do álcool no algodão, antes da vacina ou da injeção.
Cheiro de um hospital brasileiro.
Cheiro de um jasmineiro.
Cheiro de cravos amarelos no caixão, adornando e perfumando os que partem.
Cheiro de fazenda, de estrume de boi e de chiqueiro de porcos.
Cheiro de churrasco no quintal do vizinho, num domingo, por volta das 11:30 da manhã.
Esse é o cheiro da inveja, meus amigos, uma inveja quase saudável.
Cheiro de tangerina, de bergamota ou mexerica, que é exatamente a mesma coisa, em diferentes regiões do Brasil.
Cheiro de chuva na estrada de terra levantando o poeirão.
Cheiro de feira.
Cheiro de pastel fritando em feira.
Cheiro de peixe. Peixe vivo. Peixe-frito.
De feijão saindo da panela-de-pressão.
Cheiro de hortelã. Cheiro de uva malbec.
Cheiro de talco pompom, com protex, que “protege o bebê”.
Cheiro de vela queimando na igreja. Cheiro de sacristia. E de confessionário.
Cheiro, mau-cheiro, de desodorante “vencido” em ônibus lotado em horário de ponto.
Cheiro de plantação de eucalipto.
Cheiro de pinheiral.
Cheiro de coentro.
De fumo de rolo.
E de manjericão.
Cheiro do guarda roupa rescendendo a traça, que é o cheiro do tempo transpirando.
Cheiro de naftalina. De creolina.
De pomada minâncora.
E de óleo de fígado de bacalhau.
Cheiro de biblioteca. De livro novo.
De lona de freio de caminhão, segurando o tranco a cem por hora numa descida de morro na Br-116. Ou na Fernão Dias.
Cheiro de banheiro de estádio de futebol, que é o cheiro de gol.
Cheiro de loção de barbearia. E de ponto final de ônibus.
Cheiro de rodoviária, que é o cheiro do adeus.
E o cheiro de Deus. Que é o cheiro de tudo isto, se manifestando num milagre que chamamos saudade.

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Friday, February 26, 2010

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Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria.
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros.
Olha
como só tu sabes olhar
a rua
os costumes…

Mário Cesariny


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A Música Que Toca Sem Parar:
na voz de Geraldinho Azevedo, Hoje e Amanhã
Palavras de Fausto Nilo, melodia de Geraldinho

Thursday, February 25, 2010

Entrei Numa Fria

Amigos,
entrei numa fria. Explico: começou a nevar antes das 6 da manhã e, desde então, não pára de cair. Cai laboriosa e silenciosamente... É incansável...
Eu tinha uma viagem de trabalho marcado para esta tarde (iria a Nova York e a Danbury, Connecticut, no início da noite) mas já liguei, desmarcando.
Não saí de casa. Nem sairei. Dirigir com as estradas nestas condições, só pra salvar uma vida.


Portanto, o escritório não me verá nesta quinta-feira de fevereiro e, pra não perder totalmente o meu dia, tentarei rabiscar qualquer coisa sobre o tema que, só é bonito naquela fotografia do cartão postal.
Na boa?
A neve me desestimula até no papel.

Assim que ficar pronta, a cronica, postarei por aqui.

Wednesday, February 24, 2010

A Música Que Toca Sem Parar

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Junho

(Geraldo Valença e Alceu Valença)

Eu sei que é junho, o doido e gris seteiro
Com seu capuz escuro e bolorento
As setas que passaram com o vento
Zunindo pela noite, no terreiro
Eu sei que é junho!

Eu sei que é junho, esse relógio lento
Esse punhal de lesma, esse ponteiro,
Esse morcego em volta do candeeiro
E o chumbo de um velho pensamento

Eu sei que é junho, o barro dessas horas
O berro desses céus, ai, de anti-auroras
E essas cisternas, sombra, cinza, sul

E esses aquários fundos, cristalinos
Onde vão se afogar mudos meninos
Entre peixinhos de geléia azul
Eu sei que é junho!
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video

O Primeiro Dia
(Sérgio Godinho)


A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Tuesday, February 23, 2010

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Da Criatividade Brasileira


César Cortez me entregou uma lista de conterrâneos nossos, pessoas que não ele não conhece pessoalmente, mas garante estarem registrados em cartórios de todo o Brasil.
No cabeçalho da página, um texto explicando que o ‘objetivo da lista não é de ridicularizar ninguém, mas sim de trazer uma pequena amostra da criatividade do povo brasileiro. Os nomes foram coletados a partir de listas públicas, como uma relação de segurados com nomes estranhos divulgada pelo extinto INPS na década de 80, e pesquisas em cartórios realizadas por autores de livros especializados’.
O trabalho de pesquisa me chegou às mãos assim mesmo, do jeito que reproduzo aqui. E alguns dos nomes dessa lista, surrupiei para dividir com vocês:
Abrilina Décima Nona Caçapavana Piratininga de Almeida
Adegesto Pataca
Aeronauta Barata
Agrícola Beterraba Areia Leão
Alma de Vera
Amado Amoroso
Amável Pinto
Antonio Manso Pacífico de Oliveira Sossegado
Antonio Treze de Junho de Mil Novecentos e Dezessete
Asteróide Silvério
Ava Gina (em homenagem a Ava Gardner e Gina Lolobrigida)
Colapso Cardíaco da Silva
Comigo é Nove na Garrucha Trouxada
Confessoura Dornelles
Crisoprasso Compasso
Deus É Infinitamente Misericordioso
Disney Chaplin Milhomem de Souza
Éter Sulfúrico Amazonino Rios
Flávio Cavalcante Rei da Televisão
Gerunda Gerundina Pif Paf
Graciosa Rodela D’alho
Janeiro Fevereiro de Março Abril
João Bispo de Roma
Joaquim Pinto Molhadinho
Lança Perfume Rodometálico de Andrade
Liberdade Igualdade Fraternidade Nova York Rocha
Magnésia Bisurada do Patrocínio
Natal Carnaval
Necrotério Pereira da Silva
Orquerio Cassapietra
Otávio Bundasseca
Pacífico Armando Guerra
Placenta Maricórnia da Letra Pi
Primavera Verão Outono Inverno
Produto do Amor Conjugal de Marichá e Maribel
Um Dois três de Oliveira Quatro
E o mais esdrúxulo de todos, Tospericagerja da Silva, uma homenagem à seleção do tri: Tostão, Pelé, Rivelino, Carlos Alberto, Gerson e Jairzinho....
A relação de prenomes é divertidíssima. Digna de tese, o que deve rolar por aí.
Nesta tese deve ter, certamente, Audifax, Chikakó, Deverilírio, Fordência, Gravitolina, Matozóide, Obedemigo, Ocriócrides, Omenzinha, Presolpina, Rocambole, Sudene, LetsGo e alguns casos, já devidamente explicados.
E combinações exóticas, que acabam resultando em Janycleiton Betelmonson, Kêmula Katrine, Reimar Rainier e tantos outros.
Tem o caso de Oliúde, que foi jogador de futebol profissional e atuou no Vasco e na Portuguesa com o apelido de Capitão. E tem também Usnavy, que é uma homenagem à US Navy, a gloriosa marinha americana.
Poucos dos prenomes, no entanto, devem ter constrangido tanto o seu dono como Bucetildes dos Santos, uma senhora super-tímida de Goiás, que se apresentava a todos como “Dona Tilde”.
E com razão.
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O sonho

Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.

Clarice Lispector

Monday, February 22, 2010

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Um Encontro Marcante

A poesia foi minha primeira forma de expressão escrita.
Eu era adolescente em Governador Valadares e começava a me encantar com a palavra, interessando-me inicialmente pelas letras de canção impressas nos encartes dos discos.
Eu ficava horas a fio esmiuçando as letras de Chico Buarque, Capinam, Caetano Veloso, Fausto Nilo, Abel Silva e Belchior, meus favoritos naquele momento muito fértil da MPB.
Lia, releia e me comovia. Mas não me arriscava a rabiscar nada.
Até que houve um dia que tudo mudou.
Eu tinha 18 anos de idade e servia o exército em Juiz de Fora.
Era setembro e meu pai havia se deslocado àquela cidade para me ver desfilando com o verde-oliva do 10º Batalhão de Infantaria.
Ele, que era militar e queria que eu seguisse seus passos estava muito feliz.
Eu, nem tanto. Mas gostava de vê-lo naquele estado de encantamento.
Desfilei – marchei! - como milhares de outros rapazes e, por volta do meio dia, já estava no hotel onde meu pai se hospedara. E imaginava que ele fosse me levar para almoçar em um bom restaurante, louco que estava para fugir dos bandeijões nada apetitosos servidos na caserna. Mas ele tinha outros planos.
Fui informado que almoçaríamos num presídio, o que não me animou nem um pouquinho.
Explico: meu pai queria visitar um amigo que se encontrava encarcerado no presídio de Santa Teresinha.
Um amigo dos tempos em que ele ingressara na polícia militar de e que cumpria pena por ter se transformado num dos mais temidos pistoleiros de aluguel de todo o interior mineiro.
Chegando lá, fomos recebidos com alegria. Eu já o conhecia. Meu pai foi uma das poucas pessoas que não lhe viraram as costas, quando foi descoberta a sua atividade paralela.
Tratava-se de um homem miúdo, tinha os cabelos longos e um pronunciado cavanhaque. Seu olhar era penetrante e firme.
Estava bastante diferente de quando o havia visto pela última vez, uns cinco anos antes.
No derradeiro encontro ele havia me presenteado com um livro retratando a participação brasileira na batalha de Monte Castelo, na Segunda Guerra Mundial. E, a primeira coisa que ele me perguntou, logo na chegada, foi sobre o livro.
Confirmei que havia lido o livro e ele testou se eu falava a verdade.
Felizmente, eu havia lido realmente o livro e, durante uns bons quinze minutos, ficamos falando sobre a obra.
O dia transcorreu com a estranheza esperada por quem passava seu primeiro dia dentro de um presídio, ainda que como visitante.
Almoçamos arroz, feijão, carne de panela, salada de tomate e bebemos suco de laranja. A sobremesa foi uma gelatina vermelha, muito rala, que imaginei ser de framboesa. A comida era muito parecida com a que me serviam no quartel.
Na hora da despedida, o amigo de meu pai me perguntou, do nada, se eu gostava de poesia. E eu disse que sim. Ele perguntou quem era meu autor favorito e eu respondi: Chico Buarque.
Aí ele me disse que também gostava de Chico Buarque, mas argumentou que eu precisava me interessar por autores outros que não os da palavra cantada. E indagou sobre Augusto dos Anjos.
Eu não sabia quem era Augusto dos Anjos.
E ele deu uma catédra sobre o poeta simbolista, nascido na Paraíba e falecido em Leopoldina, MG, e que havia publicado apenas um livro, grandioso o suficiente ao ponto de colocá-lo entre os maiores nomes da poesia brasileira em todos os tempos.
Ao final da grandiosa pequena aula, recitou Versos Íntimos, obra-prima de Augusto dos Anjos.
E recitou com fúria tamanha, que quando terminou de dizer o último verso, eu estava completamente arrepiado, encolhido em um canto da cela, comovido até o último fio de cabelo e à beira das lágrimas.

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”

Saí daquele lugar como se tivesse sido atropelado por um trem.
Chegando ao quartel, passei a noite em claro, escrevendo poemas, cometendo versos cada um pior que o outro. Mas parira ali, alavancado por aquele insólito encontro, minhas primeiras palavras.
Havia me tornado poeta e minha vida havia sido transformada para todo o sempre.

Sunday, February 21, 2010

A Música Que Toca Sem Parar

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Infância
(Carlos Drummond de Andrade... por ele mesmo)


Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Saturday, February 20, 2010

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O Poeta

Trabalha agora na importação
e exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias.
Podia ser um trabalhador
por conta própria,
um desses que preenche
cadernos de folha azul com
números
de deve e haver. De facto, o que
deve são palavras; e o que tem
é esse vazio de frases que lhe
acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai
do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol
e exportar as nuvens.
Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas,
de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um
escultor do movimento. Fere,
com a pedra do instante, o que
passa a caminho
da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu;
e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia
interrupção da morte.

Nuno Júdice

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A Música que toca sem parar é Cristiana, extraída do disco Carmo, de Egberto Gismonti, e tem no vocal a cantora Cristiana Legrand.

Friday, February 19, 2010

















Um amigo muito antigo

Meu bom amigo Jorge Costa é o que eu poderia chamar de sujeito antigo. E vivemos nos pegando por isto.
Nostálgico, como só ele, vive dizendo que os craques do passado são melhores que os do presente.
Que as mulheres dos filmes de antanho são mais "vistosas" - palavra dele - que as estrelas de hoje. E por aí afora...
Jorge Costa tem a idéia fixa de que o ontem é melhor que o hoje.
Acompanhando o seu raciocínio nostalgista, o nosso hoje será sempre melhor que o amanhã. Com o que discordo. Acho pessimista.
Mas o Jorge estufa o peito e faz questão de manter um pé fincado no ontem, o que, convenhamos, tem lá o seu charme.
Para vocês terem uma idéia, a bebida preferida de Jorge Costa é o velho Campari, mas ele gosta ainda de Cuba Libre e uma bebida esdrúxula que ele chama de "Traçado", que é, na verdade, um cachacinha com um dedinho de Vermout Cinzano.
Ao vê-lo pedindo um Traçado no balcão do Ipanema, em Framingham, murmurei para o bartender:
- Jorge Costa é muito antigo.
Ele escutou - tem ouvido de tuberculoso - a prosa e emendou:
- Antigo, não! Entrado na vida!
Não que ele seja contemporâneo de Sobral Pinto, Kafunga, Ulysses Guimarães ou Barbosa Lima Sobrinho. Jorge é um pouco mais recente.
Ele é do tempo dos grupos de Jovens, e não existe nada mais antigo do que um membro de um Grupo de Jovens.
Outra agravante: ele foi presidente de um deles, em sua Conselheiro Pena natal.
Ele é do tempo das palavras cafona e bocomoco.
Em seu vocabulário podem ser encontradas outras raridades como mocorongo e mucureba.
Na concepção de Jorge, as mulheres fofoqueiras são adeptas dos mexericos da Candinha.
Os maridos submissos são "camisolões" e homens de pouco pulso são chamados de "calças frouxas".
As gatinhas de hoje, são os brotos do imaginário masculino de sua geração.
Ele é do tempo dos cigarros Imperador, Beverly e Mistura Fina.
Os carros que Jorge sempre sonhou possuir foram o famoso "dorjão" -uma banheira da dodge, que bebia demais e ocupava dois espaços no estacionamento -, um opulento Galaxy ou um prosaico Gordini, felizmente extintos.
Nos bons tempos, Jorge gostava de usar camisas "Volta ao Mundo", calças de brim e tergal. Nos dias de hoje, acha que Giorgio Armani e Oscar de La Renta são jogadores da segunda divisão italiana.
Quando chovia, era adepto de uma galocha.
Esportivamente tinha um par de Kichute, outro de Conga e um terceiro de Bamba Maioral, dos quais ainda hoje se gaba.
Em ocasiões sociais, não dispensava o seu sapato vulcabrás de cor marrom, feito de borracha e conhecido por provocar bromodrose exagerada, aquilo que comumente chamamos de "chulé". Só quem teve um sapato destes sabe do que estou falando.
Os símbolos sexuais de Jorge até hoje são Marta Rocha, Sophia Loren, Claudia Cardinali e Brigitte Bardot.
Segundo amigos próximos, ele carrega no bolso traseiro de sua calça um espelho oval, que tem no verso uma foto de Emilinha Borba vestindo um maiô.
No outro bolso traz um pente da marca Flamengo e, antes de sair de casa, dá um toque no cabelo de corte "Príncipe Danilo" aplicando uma generosa quantidade de brilhantina Trim.
Jorge é tão antigo quanto a pomada Minâncora, o Biotônico Fontoura ou a logomarca da Maisena, e isto tem rendido acirradas discussões.
Concordo com ele que a poluição industrial tirou o glamour de muita coisa, roubando de nós a beleza azul do céu, por exemplo.
Concordo, também, que o Rio Doce - que ainda hoje corre em nossos corações - já não é tão piscoso como dantes e que as noites presentes já não são tão estreladas quanto às de antanho.
Mas, daí até concordar com ele que Dario Peito de Aço foi um artilheiro melhor e mais perigoso que Ronaldo Fenômeno nos tempos de Barcelona, ah, isto não.


Foto de Sophia Loren, em todo o seu explendor

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Thursday, February 18, 2010

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1.
Não há mais nenhum nome. Depois de ti
destinaram-me apenas corpos que não amei,
rostos onde não quis pousar os olhos por temor
de os fixar, mãos que eram sempre as sombras
das tuas mãos sob os lençóis. Nunca sequer as vi,

nem toquei esses dedos que, no escuro, celebravam
na minha a tua carne — se outro motivo os trazia,
por mais vago, também não quis ouvi-lo, nunca
o soube. Depois de ti, depois dos outros homens,
é ainda o teu nome que digo, e nenhum outro.


2.
De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para parar-me, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.


Poema de Maria do Rosário Pedreira

A Música que Toca sem parar é "Cálice", parceria de Chico buarque e Milton nascimento, na voz de ambos.

Ilustração de Nicoletta Ceccoli

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Na Bagagem do Ex-presidente


Vejo na televisão a imagem de George W. Bush adentrando o helicóptero que o levará ao seu rancho, no Texas, onde ele inicia uma nova fase em sua vida.
Minutos antes, esse que agora é um ex-presidente, entregou ao seu sucessor Barack Obama um país mergulhado em duas guerras, trincado pela crise econômica e com a auto-estima em frangalhos, como se dissesse: Toma! É seu. Agora, se vira nos quatro!
O que levou George Bush, no helicóptero que o transportou ao Texas?
Terá levado sabonetes e toalhas dos banheiros da Casa Branca?
Terá levado uma almofada da sala oval, ou o seu travesseiro favorito?
Terá levado sementes das flores do jardim da residência oficial da presidência, para transplantá-las em seu quintal texano?
Terá levado talheres de prata?
Terá levado charutos, cinzeiros ou um chapéu de cowboy?
Presentes de dignatários de outros países terão cabido em suas malas, ou seguiram por terra, num caminhão da U-haul?
Será que Bush levou consigo um abridor de envelopes de prata, com a insígnia da presidência?
Terá levado algum livro da biblioteca? Algum souvenir?
Terá levado sua coleção de música country? Seus ternos bem cortados e suas gravatas vermelhas?
O que terá seguido por terra, em sua bagagem?
Será que ele conseguir fazer com que coubesse a ganância dos banqueiros e especuladores de Wall Street?
Terá levado um volume somente com a truculência de seus falcões?
Terá levado cópias dos discursos ufanistas de seu vice, Dick Chenney, ou o penteado austero de Donald Rumsfeld?
Terá levado um pouco do charme discreto de Condoleezza Rice, ou uma fotografia em preto e branco de Thomas Jefferson, retirada de alguma parede?
Terá levado um litro de sangue de um infante morto no Iraque?
Ou, a infinita dor de uma viúva de um marine tombado no Afeganistão?
Será que Bush alocou em sua mala a angústia de um desempregado de Detroit?
A frustração de um doente incapacitado de ter acesso ao seguro-saúde?
Terá levado a fragilidade de um aposentado?
Ou, a sensação de abandono de algum ex-proprietário de imóvel, que acabou de declarar falência e entregou ao banco a casa que não conseguiu quitar?
Será que ele levou consigo o que restava da alegria desbotada dos velhos da América, antes dessa sua administração?
Ou o desapontamento de um jovem, descrente com os rumos que tomou a nação e sem saber se poderá freqüentar, algum dia, a cadeira de uma universidade?
Terá levado o sorriso inocente de alguma criança?
Será que levou entre as suas coisas a incerteza de um imigrante indocumentado, ou a dor desses que deixam suor e juventude adubando esse solo, e que são humilhados cotidianamente como se fossem os culpados por todas as mazelas por que passa o país?
Será que levou consigo a tampa do poço? Sim, esse poço infinito, do qual nos últimos anos do seu governo não conseguimos ver o fundo... Será?...
O helicóptero levanta vôo e, lá de cima, George W. Bush deve estar vendo, certamente, a multidão que marcha enfrentando o frio cortante de Washington DC, com a alegria dos que vão a um desfile de carnaval em pleno verão.
Não sei se a massa que se arrasta freneticamente na frente do capitólio e dos principais monumentos da capital do poder sente ressentimento. Sente frio, é natural, mas um desejo maior os conduz em direção ao futuro.
Consigo imaginar que estejam sentindo o que eu sinto, nesse instante.
Isto, que vai além de um arrepio constante da cabeça aos pés, um frenesi que causa uma enorme vontade de cantar e abraçar todos os que cruzarem o meu caminho.
Bush levou muito da tranqüilidade do povo americano em sua bagagem, é verdade. E sei que levou muito mais.
Mas ele esqueceu-se de levar a nossa esperança, nossa vontade de virar o jogo e a fé em melhores dias.
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* Crônica escrita no dia em que George W. Bush embarcou num helicóptero nos jardins da Casa Branca e voou em direção ao (esperamos!) esquecimento.

Monday, February 15, 2010

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Limando o Lima

Fosse aqui nos Estados Unidos, alguém com o sobrenome Lima iria procurar quem inventou a expressão “Mandar o Lima” e processá-lo.
O bordão é sinônimo de descaso e é usado toda vez que alguém não quer ir a algum compromisso, e resolve mandar o Lima em seu lugar.
Dizem que Tim Maia mandou o Lima a muitos de seus shows, e que teria sido ele o cunhador do mote.
Estivesse vivo e morando nos Estados Unidos, algum distante parente meu arranjaria um jeito de processá-lo, demandando milhões. Aqui se processa por tudo. Teve uma dona que ganhou uma grana porque uma lanchonete McDonalds serviu-lhe um café quente. Já no carro, o copo de café caiu-lhe sobre o colo, queimando parte das coxas.
Isto talvez explique o cafezinho morno que andam servindo por aí.
Nos anos noventa, “Bráulios” do Oiapoque ao Chuí bem que poderiam ter se manifestado em tribunal. Foram injustamente estigmatizados.
Fosse o Brasil os Estados Unidos, o processo teria sido movido contra o ministério da Saúde, que na campanha de prevenção contra a aids, sugeriu que se plastificasse, encapuzasse, encamisasse os suscetíveis a doenças sexualmente transmissíveis, Bráulios de todo o país.
Os imprudentes burocratas da Saúde teriam facilitado as coisas sem traumatizar ou ofender ninguém, tivessem escolhido um nome que não quisesse dizer outra coisa, que não o próprio dito-cujo. Qualquer slogan simpático resolveria:
“Não corra riscos desnecessários! Na hora da transa, plastifique o seu Bilau”.
Não conheço ninguém com esse nome. Bilau da Silva; Bilau Osório; Bilau de Andrade.
Essa de mandar o Lima é uma bossa relativamente nova. Mas existem registrados alguns casos bem antigos.
Dizem que o Lima fez muitos dos exames anti-dopings de Diego Maradona, quando este jogava no Napoli. Aliás, era o Limone quem fazia o xixi no lugar do baixinho.
Aldir Blanc narra em seu livro Rua dos Artistas & Arredores, uma preciosidade, que conto aqui com algumas “adaptações”.
Um rapaz do bairro havia combinado de fazer uma serenata junto à janela de uma moça. Seria uma serenata em que pediria a mão da beldade em casamento, e para a qual já estavam confirmados alguns dos melhores músicos da região.
Os preparativos corriam dentro dos conformes e houve até quem consultasse a folhinha Mariana para ver se seria noite de lua cheia. Afinal, serenata e lua cheia ficam perfeitas juntas.
A uma semana da grande serenata, no entanto, o candidato a noivo classificou-se para as semifinais de um campeonato de sinuca no bairro vizinho. A partir daquele momento criou-se um impasse. E ele teria que tomar uma decisão importante.
Uma decisão que denotasse responsabilidade e bom senso.
Foi assim que ele acabou em terceiro lugar no campeonato, sem fazer feio na serenata.
Um amigo dele – provavelmente de sobrenome Lima – fez um emocionado discurso, declamando versos românticos e pedindo a mão da noiva em nome do ausente, informando que este tivera um “compromisso inadiável”.
Foi muito aplaudido e o pai da moça não só permitiu o namoro, como ainda abriu uma garrafa de uísque, que guardara durante muitos anos para uma ocasião especial.
Se aconteceu, verdadeiramente, eu não sei, mas o certo é que todos estamos sujeitos a levar um bolo. E muitos destes bolos são involuntários. Aconteceu, muito recentemente, comigo.
Kiko Sales descobriu que seria aniversário de César Augusto, amigo querido de ambos. Precisávamos homenageá-lo.
Combinamos com outros amigos comuns de sairmos juntos, e celebrarmos a data magna do jornalista. Só que César e a esposa Luciana estavam de viagem marcada para as Bahamas naquele dia, e não poderia participar. Na ausência deles, remarcamos para a volta.
Quando ligamos novamente para avisar da nova farra, ficamos sabendo que na data escolhida, eles estariam a trabalho em Boston.
Não desanimamos.
Saímos, jantamos, festejamos e ligamos para ele na hora do parabéns, com todos soltando a voz em desafinado uníssono. Até os garçons ajudaram a engrossar o coro ligeiramente alcoolizado.
No dia seguinte, logo pela manhã, encontro no celular uma mensagem do aniversariante:
- Foi minha melhor festa de aniversário de que não participei. Muito obrigado!
Espirituoso, César Augusto não perdeu a piada e nem os amigos. E ainda ganhou, de presente, esta crônica aqui.

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Thursday, February 11, 2010













o poema


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a explêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio
- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
e a miséria dos minutos,
e a força sustida das coisas,
e a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo, o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

-E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder
O Poema (excerto)

Tuesday, February 9, 2010

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Vamos fazer limpeza, mas geral
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada, essas
coisas que não usamos já e essas
que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.
Vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.
Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado.


Amalia Bautista

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Amalia Bautista nasceu em Madrid em 1962. Jornalista de formação, trabalha como redatora no gabinete de Imprensa do Conselho Superior de Invetigações Científicas.

Saturday, February 6, 2010

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Essas Mães Interioranas


Eu quis escrever um poema homenageando minha mãe. E não só a minha. A intenção era homenagear todas as mães. Mas o poema acabou não saindo, como não tem saído nenhum outro verso da fábrica inativa, que tem sido esse baleado coração.
Dona Marocas, dona Ercília, dona Dozinha, dona Filhinha, dona Lola, dona Esmeralda, dona Niquinha e dona Rute, a minha, eram, todas, maravilhosas. Lembro-me claramente daquelas senhoras em meus primeiros anos em São Raimundo.
Dona Cilinha cantava no coral da igreja.
Dona Marocas - mãe das moças mais bonitas - era sábia, dava conselhos, e não carregava tristeza no olhar.
Dona Ercília ajudava os pobres.
Dona Dozinha estava sempre de mau humor. Seu marido virou garimpeiro e foi viver no Pará.
Dona Lola freqüentava uma igreja crente.
Dona Niquinha cuidava do jardim.
Dona Vilma plantava hortaliças.
Dona Esmeralda chorava às escondidas.
Dona Filhinha mentia para si própria.
Dona Socorro fazia biscoitos.
Dona Ireni aprendeu a cortar cabelo.
Dona Isaura estudava à noite. De dia vendia laranjas no ponto final do ônibus.
Dona Maria era a melhor amiga de dona Conceição. Que era esposa de Expedito, que era maquinista de trem.
Dona Laura, de tão elegante, parecia mulher da capital. Quando andava pelas ruas deixava um cheiro de alfazema no ar. Estava sempre assim, refrescada, pronta para o calor do inferno nas tardes de Governador Valadares.
Dona Ana era calada.
Dona Nilza calava-se.
Dona Angélica alfabetizava meninos.
Dona Joana criava cabritos. Seu único filho morreu atropelado por um caminhão Scania Vabis.
Dona Rita organizava a novena.
Dona Juraci cresceu senhora de terras, teve gado, era filha de doutor. Envelheceu pobre e feliz, concubinada com um vaqueiro, ex-empregado de seu pai.
Dona Jandira teve filho prefeito, outro vagabundo e um outro meio artista.
Dona Lourdes era viúva. Não teve a mesma sorte de dona Adelaide, que se casou pela segunda vez.
Dona Cássia foi abandonada pelo esposo. Ela, que na juventude quis ser cantora e atriz, teve um filho que fugiu de casa e uma filha meretriz. Mudou-se para São Paulo e dela ninguém nunca mais ouviu.
Dona Selma lavava roupas para fora. Assim como dona Auxiliadora e dona Idalina.
Dona Norma conversava com o vento, aprisionava passarinhos e fazia tricô na varanda da casa até escurecer.
Dona Teresa dançava catira.
Dona Ivonete sabia bordar. Suas filhas eram costureiras. Seu marido, alfaiate.
Dona Rute lidava com um garoto meio louco, que queria sobreviver das palavras que bebia do Rio.
Maravilhosas, aquelas mulheres.
Lindas, marcantes, cada uma do seu jeito. Como esquecê-las?
Com o avançar da idade elas acabaram virando outra coisa.
Se na infância são nossas heroínas, com o passar dos anos viraram santas. E, como tal, merecem que todo filho lhe construa um altar enfeitado com as flores do amor eterno e recheado de oferendas da mais profunda gratidão.
Santificadas, sejam, essas nossas mães.
Santifiquemos.
Santificai!

Friday, February 5, 2010

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Versos Íntimos


(Augusto dos Anjos)


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


* A postagem deste poema é uma homenagem, à minha maneira, a Romério Rômulo, a quem vi atravessando a praça na manhã-tarde da última segunda-feira.
Ali, em Ouro Preto, o poeta subvertia a ordem das coisas.
Sim, foi assim mesmo: sua cabeleira esvoaçava o vento.
e não o contrário.
beijão, poeta!

Thursday, February 4, 2010

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Minas Gerais, Um Lugar Especial

Não trabalho para a secretaria de turismo de Minas Gerais. Mas quero te convidar a vir comigo a Minas. Convoco os gaúchos a fazerem o mesmo que estou fazendo, exaltando os pampas e suas belezas.
Os paranaenses, cantando a Ópera de Arame, a Serra da Graciosa e o antológico barreado de Morretes.
Os cearenses, descrevendo suas praias, o calor do seu sol.
Os amazonenses, tecendo loas às belezas naturais da maior floresta do mundo. E por aí afora.
Todo brasileiro, caso seja da sua vontade e, cada um à sua maneira, poderia ser um guia turístico informal. E o Lula bem que poderia mandar um dinheirinho para ajudar na saliva.
Tenho orgulho do lugar de onde vim, de sua gente hospitaleira, suas montanhas que quase tocam o céu, suas ruas estreitas, as igrejas banhadas a ouro, a culinária robusta, e toda a história que Minas carrega em sua bandeira: Libertas Quae Sera Tamem.
Quero te convidar, caro leitor, a um passeio por Ouro Preto, Tiradentes, Mariana e Diamantina, para um banho de barroco.
Quero que tenha a estranha sensação de caminhar sobre as tabuas onde repousa o corpo de Aleijadinho. E te mostrar o que ele fez em vida, seus anjos, seus santos, seus girassóis. Vamos a Congonhas do Campo apreciar a beleza de seus profetas, sua obra-prima. E vamos além.
Quero que vá comigo ao Mineirão assistir Atlético x Cruzeiro, um dos clássicos mais importantes do futebol brasileiro. No intervalo do jogo, comeremos juntos um prato de feijão tropeiro: arroz, feijão tropeiro, alguns torresminhos, couve cortada bem fininha e um essencial ovo frito, esparramado por cima. E por apenas 5 reais.
Poderemos ir ao Vale do Jequitinhonha comprar umas peças de artesanato, lindíssimas, feitas por gente do povo, gente simples e talentosa, que transforma o barro que vem do chão em sustento.
Podemos conhecer o circuito das águas, ao sul do estado. Dizem que as águas de Caxambu, São Lourenço e Araxá operam milagres. Que elas lavem nossas mágoas e tristezas, então. E nos dêem uma alegria novinha em folha, além da sensação de frescor.
Se for da sua vontade, meu caro visitante, poderei te mostrar os cenários onde bambas de nossa literatura moldaram suas obras. Vamos a Itabira, trafegar pelas ruas de Drummond. Pode ser que encontremos aquela pedra do meio do caminho, do poema "José".
Sei de um atalho até Cordisburgo, onde Guimarães Rosa viveu e pariu seu Grandes Sertões, Veredas. Te levo à casa de Guimarães. Mostro-te a cama onde ele dormiu. A mesa onde ele se sentava para tomar café.
Não muito longe dali está a gruta do Maquiné, um lugar místico, especial. Dependendo da sua disposição, dá até para ir a pé.
Posso te levar para "savassear", termo usado por Roberto Drummond, para descrever as caminhadas que fazia todos os dias pelas ruas do bairro mais charmoso da capital do estado. Te mostrarei a estátua que ergueram em homenagem à ele. E nos sentaremos na livraria da Travessa para um cafezinho com pão de queijo, sentindo aquele cheiro inconfundível de papel e tinta, que exala dos livros ao nosso redor.
Irei te levar ao Mercado Central para tomarmos uma cerveja em pé, com o umbigo colado ao balcão. Comeremos fígado acebolado e jiló. Uma iguaria.
Te oferecerei abacaxi no palito. Mostrarei os saborosos e emblemáticos queijos mineiros, nossas compotas, as montras de carne de sol, o artesanato, e as frutas, que abundam na região.
Se ainda não saboreou uma pitanga, um jambo, uma jabuticaba, uma carambola, uma mangaba ou um cajá, essa será sua chance.
Você que anda precisando de sustância, refém das dietas e da ditadura da balança, relaxe: frango com “Ora-pro-nobis”, ao molho pardo e com quiabo e angu; leitãozinho à pururuca, tropeiro e tanta, mas tanta coisa gostosa, que você voltará para casa com um pequeno sentimento de culpa.
Te levarei pra uma via-sacra pelos bares de BH.
Comeremos uma traíra sem espinhas no Careca. Uma maçã de peito na Mercearia do Lili e um rabo apertado no Zezé. Tudo acompanhado por uma pinguinha de alambique, da boa.
Te levarei à praça do Papa para ver a cidade à noite. Com um pouco de sorte, pode ser que algum violeiro esteja fazendo uma serenata por lá. No outro dia sonhei que Celso Adolfo cantarolava a canção Nós Dois, compenetrado, derramando sua voz afinada e grave sobre os telhados de BH. Só ele e seu violão.
Minas tem montanhas, cachoeiras, tem rios formosos. Podemos fazer um passeio de vapor pelo São Francisco. Você vai gostar.
Para fechar o passeio, se não consegui te impressionar até aqui, passaremos pela casa de meus pais. Minha mãe faz um franguinho caipira que não é deste planeta. E meu pai tem sempre um causo pra contar.
Lá tem cuitelinhos que bebem água doce na janela da cozinha, tem sanhaços amigos bicando bananeiras no quintal, árvores frutíferas e um céu absurdamente azul. E uma varanda, com um sofá velho (daqueles que abraçam a gente) de onde dá pra ver, de dia, todo o esplendor das montanhas mineiras e, à noite, a lona do céu salpicada de estrelas.
Você, caro leitor, precisa conhecer Minas Gerais.


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Wednesday, February 3, 2010

A Volta do Que Não Foi

Ou, foi?
Acho que fui. Vim.
Viajei. Continuo viajando. Férias que eu tanto esperava (e esperei). Finalmente chegou.
E cheguei.
Fugi do frio e da neve (e das obrigações profissionais) para esse encontro comigo mesmo.
No final de semana, tomei um demorado banho de barroco, o que me remoçou, recarregou, me refez...
Eu estava numa precisança imensa destes dias só pra mim.
Tão logo eu volte a ter acesso à internet, postarei, responderei, contarei o que vi e o que senti.
O que vejo. E o que almejo.

Fico feliz demais quando chego a este lugar especial.
Blue Boy.

Beijão procês.
Saudades do

Roberto.

Tuesday, February 2, 2010

A Música Que Toca Sem Parar

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Vida Sertaneja
(Patativa do Assaré)

Sou matuto sertanejo,
Daquele matuto pobre
Que não tem gado nem queijo
Nem oro, prata, nem cobre
Sou sertanejo rocêro,
Eu trabalho o dia intero,
Que seja inverno ou verão
Minhas mão é calejada,
Minha péia é bronzeada
Da quintura do sertão

Por força da natureza,
Sou poeta nordestino,
Porém só canto a pobreza
Do meu mundo pequenino
Eu não sei cantá as gulora,
Também não canto as vitora
Dos herói com seus brazão,
Nem o má com suas água...
Só sei cantá minhas mágua
E as mágua de meus irmão

Canto a vida desta gente
Que trabaia inté morrê
Sirrindo, alegre e contente,
Sem dá fé do padece,
Desta gente sem leitura,
Que, mesmo na desventura,
Se sente alegre e feliz,
Sem nada sabê na terra,
Sem sabê se existe guerra
De país contra país

Cabôco que não cúbica
Riqueza nem posição
E nem aceita a maliça
Morá no seu coração
Cabôco que, nesta vida,
Além da sua comida,
O que mais estima e qué,
É a paz, a honra e o brio,
O carinho de seus fio,
E a bondade da muié

E assim, na sua paleja,
Com a famia que tem,
Não inveja nem deseja
O gozo de ninguém
Mas, por infelicidade
Contra seu gosto e vontade,
Munta vez, o pobre vê
A muié morrê de parto,
Gemendo dentro de um quarto,
Sem ninguém lhe socorrê

Morre aquela criatura,
Depois, a pobre coitada,
No rumo da sepultura,
Vai numa rede imbruida
Um adjunto de gente
Uns atrás, ôtros na frente
Num apressado rojão,
Quando um sorta, o ôtro pega:
É assim que se carrega
Morto pobre, no sertão
Fica, o viúvo, coitado!
De arma triste e dilurida,
Para sempre separado
Do mió de sua vida,
Mas, porém, não percebeu
Que a sua muié morreu,
Só por fartá um dotô
E, como nada conhece,
Diz, rezando a sua prece:
Foi Deus que ditirminou!

Pensando assim desta forma,
Resignado, padece;
Paciente, se conforma
Com as coisa que acontece
Coitado! Ignora tudo,
Pois ele não tem estudo,
Também não tem assistença
E por nada conhecê
Em tudo o camponês vê
O dedo da providença


A música que toca sem parar vem na voz de um poeta popular cearense.
Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré (Assaré, Ceará, 5 de março de 1909 — 8 de julho de 2002), foi um poeta popular, compositor, cantor e improvisador brasileiro.
Na simplicidade, reside a sua genialidade.
Sou fã.
Ao fundo, o violão de Cirino.

















Isabella Sonhava

Será que ela tinha uma boneca Hello Kitty?
Assistiria Bob Esponja na televisão?
Gostaria de A Bela e a Fera e da Pequena Sereia?
Qual seria a sua favorita fábula infantil?
Será que seu cabelo ficava bonito amarrado por laço de fita?
Usava trancinhas? Tererês?
Será que ela gostava de sorvete de morango?
Será que comia brócolis?
Do que gostava de brincar?
Amarelinha, videogame, bonecas de pano – às quais tratava como pequenas filhas e lhes dava amor e cuidados -, ou esconde-esconde?
Pedra, papel e tesoura?
O que gostava de cantar Isabella?
Ciranda-Cirandinha? Twinkle twinkle little star?
Nos seus sonhos, feitos de inocência e nuvens, será que ela conversava com animais de estimação?
Falaria com anjos?
Teria amiguinhos imaginários, daqueles que só as crianças vêem e que os adultos dizem ser o anjo da guarda?
Nos seus pesadelos, feitos de monstros de outras dimensões e bruxas malvadas, quem era o herói que a salvava?
O Pai? O amiguinho imaginário? Ou despencaria de um precipício até beijar o chão?
Será que Isabella acordava chorando no meio da noite?
Será que sorria?
Quando nasceu o seu primeiro dentinho?
Quando caiu o primeiro?
Gostaria de cães e gatos? Teria um? Gostaria de ter um?
Amaria passear pelo zoológico?
Gostaria de livros, de desenhar? Gostaria de flores?
Qual a flor favorita de Isabella Nardoni?
Cravo, lírio ou jasmim?
O que desenhava Isabella Nardoni?
Os irmãos? Bichinhos? Criaturas como as dos cartoons?
Qual era a sua cor predileta?
Azul? Rosa? Cobalto? Carvão?
Qual o tamanho de seus sapatos? Já teria pintado suas unhas?
Será que algum dia mergulhou no oceano? Teria gostado do carinho das águas deslizando pelo corpo?
Gostaria de mar e brisa, de vento e verão?
Seria fogo ou água, essa menina tão linda?
Qual seria o seu signo no horóscopo chinês?
O que lhe reservaria o futuro?
Na adolescência iria ter acne no rosto? Sardas quando exposta ao sol?
O que estaria escondido nas cartas da cartomante, ou nas linhas desenhadas na palminha de sua mão?
Quando se apaixonaria pela primeira vez? Estaria, em seu futuro, reservado um grande amor?
Que profissão teria a adulta Isabella Nardoni?
Médica-veterinária? Trabalharia num banco? Venderia passagens aéreas para ilhas paradisíacas e pacotes para a Disney? Seria dona de casa?
Se casaria? Teria filhos?
Ninguém sabe. Ninguém saberá.
Isabella Nardoni voou.
Foi atirada do 6º andar do edifício em que vivia com o pai, a madrasta e dois irmãos.
Saiu pela janela e voou. Virou anjo.
Como aqueles com os quais conversava nas noites em que sonhava.
Sim, Isabella sonhava.

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