Monday, January 11, 2010


















andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem

o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua... gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel

enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar

o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar

Al Berto, in 'Salsugem'


Al Berto - Poeta e editor português, de nome completo Alberto Raposo Pidwell Tavares, nasceu a 11 de Janeiro de 1948, em Coimbra, e faleceu a 13 de Junho de 1997, em Lisboa.

16 comments:

líria porto said...

nossa, que bonito - e morreu pramaturamente...
besos

Primeira Pessoa said...

Pesquise no "Guga"...rs
Al Berto veio nesse pacotões de presentes inesquecíveis. É como uma caixa de bombons... Fica mais gostoso quando compartilhado entre amigos.
Pegue o seu, Líria!

Beijão do

Roberto.

líria porto said...

voo lá agorinha...
besos

líria porto said...

no brasil tem o al chaer - acho que mora em brasília ou goiânia - da melhor qualidade!
besos

Primeira Pessoa said...

voa, e quando fizer um "devorteio", me diz se gostou.
beijào,
R.

Primeira Pessoa said...

e no cinema tem Al Pacino, que adoro...rs
se é Al, não tem mal.

beijão,
R.

Iara na Janela said...

Não conhecia o Al Berto... gostei... como gostei desse Roberto e essa Febre que é só sua, mas que senti daqui, recuperando com minhas lembranças ruminantes o caldo quente de dentro do útero, restituindo o cordão e a inocência perdida.

Sua visita na minha Janela me sonhou.

Voltarei por aqui.

Xeros.

PX (pós-xeros) - seu perfil é igualmente inquietante: "sou raso em tudo que faço, profundo em tudo que sinto".

Primeira Pessoa said...

Iara,
vindo de alguém que escreve tão bonito quanto você, fico até meio abobado (rs).
pois é... depois de muito tempo no vinagre (o jornalismo transforma a sensibilidade de quem escreve em picles insalubres) estou redescobrindo a poesia e espero, de alma, que isto reverbere nas miudezas que alinhavo, como se uma flor no cabelo de quem lê, se transformasse.
no meio de um dos dias mais cacetes de toda a minha vida, os posts de hoje aqui neste blog tem sido a tábua da minha salvação.

obrigado por ter vindo.
depois quero ver a sua escrita em prosa. eu, que já me ajoelhei diante dos seus versos.

abração do
roberto.

Gisele Freire said...

Roberto

Que belo texto, gostei muito!
Obrigada pela partilha :)

abraço

Gi

Primeira Pessoa said...

sim, gisele, o que é belo é pra ser compartilhado.
fico feliz que tenha gostado.
grande abraço do
roberto.

LauraAlberto said...

É bom voltar a este blog, ora somos presenteados com crónicas/textos/poesias suas, ora com alguns escritores/poetas que gosto sempre de (re)ler.
Deixo ficar uma sugestão: Rómulo de Carvalho.
Deixo ficar uma citação de Agostinho da Silva, em reposta a esta amizade Portugal-Brasil que se está a criar entre os frequentadores deste espetacular blog.

"Escrevendo ou lendo nos unimos para além do tempo e do espaço, e os limitados braços se pões a abraçar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a nós."

Continue Roberto.
Abraço com amizade.

Primeira Pessoa said...

Laura,
pesquisarei Romulo de Carvalho. Não conheço a obra dele. Caramba, só fui descobrir Eugénio de Andrade há dois anos... santa ignorância, a minha! E tenho certeza de que Rómulo será mais uma agradável surpresa.
Fico feliz que esteja voltando ao blog. Resolvi misturar poesia com prosa (que é o que escrevo), numa tentativa de que eu também seja impulsionado a escrever poesia. Ainda não deu certo.
Tenho penado...rs

Deixo-te um abraço amigo, fabricado em Minas Gerais, nas montanhas brasileiras. Sim, sou uma espécie de trasmontano lá da outra banda do Atlântico.
Que seu dia seja especial. Em azul.
Como eu desejo que seja o meu própio.

Roberto.

LauraAlberto said...

Roberto, às tantas talvez esteja a dar certo e você ainda não o percebeu.
Despistadamente escrevi o nome do professor e não do poeta, António Gedeão é o poeta, do qual lhe deixo um poema:

"Vidro Côncavo

Tenho sofirda poesia
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Sabor a sal.
Maresia.
Vidro côncavo a boiar.

Dói esta corda vibrante.
A corda que o barco prende
à fria argola do cais.
Se vem onda que a levante
vem logo outra que a distente.
Não tem descanso jamais."

Por terras de Portugal chove, mas de certeza que verei o tal ceu azul.

Primeira Pessoa said...

então, vou atrás do gedeão, Laura.
e belo é o mimo que você me manda aqui.
aqui em new jersey anda muito frio (muito frio!) e projeta-se neve para mais tarde. não consigo me acostumar.
mas no meio de toda essa coisa plúmbea, juro pra você, meu céu azulou, ainda que por alguns instantes.
e ainda não eram sete da manhã.
ao que poderia dizer: milagre da nossa incrível capacidade de sonhar.
que este inverno termine rapidinho.
e que os dias de chumbo fiquem pra trás.
só sei ser feliz nos dias azuis.
mas, acho que, no fundo, todo mundo é assim.
abração do
roberto.

Magnolia said...

outro dos "meus poetas"...
"ando por ai...
escondendo do mundo a tristeza que me devora o corpo."

Al Berto
Beijo Roberto

Primeira Pessoa said...

que bonito, o que me mandou, magnólia.
al berto deixou muita coisa linda.
daí eu questionar, se ele partiu cedo demais, como disse líria porto.

aquele que termina sua obra, tem todo o direito de subir para junto dos anjos.
al berto cumpriu - e bem !- a sua missão.

beijão,
roberto.