Tuesday, January 12, 2010

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As Muitas Vidas de Guttemberg Guarabyra

O Guarabyra telefonou de São Paulo contando a novidade: estava começando a fazer um trabalho de regressão com um proeminente psicanalista brasileiro.
- Regressão, Guarabyra?
- É isto mesmo, meu camarada. Regressão!
- Sou contra a regressão. Sou progressista - dissimulei -, tentando fugir de um eminente “papo cabeça” que se anunciava.
Mas meu amigo estava entusiasmado demais para passar para o próximo tópico.
Queria, porque queria, descobrir quem fôra em vidas passadas, em que cenários teria respirado, e que parceiros tiveram a felicidade (e as dores de cabeça) de antecederem ao cidadão carioca que atende pela perigosa alcunha de Sá.
Guarabyra iria para sua segunda sessão naquela tarde, e me falou de sua conversa com o psicanalista, um freudiano ortodoxo, com consultório no elegante bairro do Morumbi.
Na primeira sessão aprendera que Freud afirmara que, os conflitos emocionais têm sempre origem na infância, e através de suas técnicas psicanalíticas, costumava fazer com que seus clientes lembrassem conflitos da tenra idade, o que já era uma prática de regressão de memória, mas com outro nome.
Contou-me ainda que um outro psicanalista, W. Reich, pregara que os conflitos emocionais instalam-se no corpo físico criando couraças energéticas, e que as nossas células possuem um código de memória desses conflitos. Baseado nessa teoria, propunha uma terapia corporal com o intuito de retornar o corpo ao seu estado original de saúde (voltando o corpo no tempo).
Era muita informação para um único telefonema.
Dois dias depois liguei para Guarabyra, que dizia-se meio barro, meio tijolo com relação à experiência:
- Ainda não regredi nada. Mas é apenas minha terceira sessão.
- E como funciona? -, quis saber.
- É assim: chego lá, deito-me, o analista coloca uma musiquinha New Age e ficamos batendo papo. Um longo papo.
E mais não disse.
Após esse telefonema, não ouvi mais dele, e só me restou ficar imaginando as descobertas que ele deveria estar fazendo durante essa total ausência de notícias. De tão intrigado, cheguei a sonhar com Guarabyra. Sonhos loucos.
Logo na primeira noite, ele tinha sido um arauto do rei Salomão.
Telefonei pra São Paulo no dia seguinte para lhe contar, mas ele estava realizando alguns shows pelo nordeste brasileiro. E aquilo não me saía da cabeça, precisava lhe relatar com urgência.
Nos dias que se seguiram, minha viagem foi tomando outros rumos. Antes de dormir, abria uma garrafa de vinho, colocava uma “musiquinha New Age”, e sonhava, meio dormindo, meio acordado, com meu amigo em situações e tempos diferentes. Até que adormecia, verdadeiramente, e a ‘visão’ se consumava num outro tempo.
Divertia-me loucamente ao caricaturá-lo em alguma dessas situações:
- Imagina quando eu lhe contar que nos idos de 1500, ele era grumete afetadíssimo na Esquadra de Pedro Álvares Cabral ...
Na noite seguinte ele já era uma requisitada prostituta dando duro no cais do porto de San Francisco, lá pelo século dezesseis. Ou um menestrel, cantando na porta de um castelo, que tinha como rei um sujeito chamado João.
E Guarabyra foi índio.
Índio australiano, como o vi. Um aborígene, correndo atrás de cangurus e tirando o couro de gigantescos crocodilos na Oceania.
Vi Guarabyra no Velho Oeste, como lugar tenente de Billy The Kid.
E na caatinga, menino ainda, amigo de infância de Virgulino Ferreira, que viria a ser conhecido depois de adulto como Lampião.
Guarabyra foi, também, confederado e escravo negro, trocado por dois cavalos e uma caixa de bourbon numa feira livre, em Boston.
Numa outra visão, ele reapareceu em Paris, tomando porres homéricos na companhia de Baudelaire e Rimbaud. Já era um poeta.
Ainda na França, em épocas diferentes, foi cortesã, alfaiate e fracassado fabricante de vinho na região de Bordeaux. Nessa última atividade, faliu ao beber, sozinho, uma de suas melhores safras.
Quanto mais eu viajava nas mil e umas existências de Gutemberg Guarabyra, menos eu tinha notícias dele.
Estava louco para lhe informar de minha “invasão de privacidade”.
Mas, num dia ele estava enfurnado no estúdio preparando o novo disco, no outro estava perdido no ‘pó da estrada’, levando seu canto pelo interior do Brasil.
Até que, cerca de 15 dias após a minha derradeira visão guarabiresca (um beduíno que perdeu seu camelo em meio a uma tempestade de areia em pleno Saara), o telefone tocou, e uma voz conhecida me saudou do outro lado:
- Tá me procurando, meu camarada?
- Estou. Não recebeu meus recados?
- Recebi, sim, mas tenho chegado tarde em casa. Você tem o péssimo hábito de dormir antes de meia-noite. Além do mais estive muito ocupado com shows e gravações do novo disco, e as minhas sessões de regressão no Morumbi.
Era a pedra de toque de que eu precisava para lhe contar tudo o que descobrira a seu respeito:
- E como está indo sua regressão? - perguntei.
- Tenho regredido bastante - disse com ares misteriosos, antes de soltar uma deliciosa gargalhada.
- Jura? Até onde “regrediu”?
- Até agora?
- É! Até agora.
- Ah, Roberto... Sei lá... Mais ou menos uns três, quatro mil reais...


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25 comments:

líria porto said...

ah, esse polvo! risos

uma coisa eu sei, ele não foi cortesã! primeiro tem que ser homem muiiiiiiiiitas vezes - só com muita evolução vira mulher... kakkakkaaaaaaaaaaa

(se bem que ele já foi escritora suicida, mas isso nessa vida...)

besos

líria porto said...

ah - quem é a cotovia que hoje canta no teu blog? liiindo!

o al pacino é meu predileto! vou vasculhar minhas vidas passadas, já devo ter tido um caso com alguém que ele foi...

besos

Primeira Pessoa said...

líria,
o guarabyra é uma figura. adoro a pessoa e a companhia dele. ja viajei no onubus de sá e guarabyra até itabira, terra de drummond. eu tava na esbórnia fazia dois dias (sem tomar banho... imagina...rs) e ele me "catou"em bh. tive que usar roupas dele. foi um show inesquecível. ah, sim, cortesã ele nunca foi.
mas é um príncipe.
isso ele é.
beijão do
roberto.

Primeira Pessoa said...

líria,
a cotovia da canção é nicinha (que ninguém sabe e ninguém viu), em dueto com caetano veloso, num daqueles bons discos dele da década de 70.
bonito, né?
beijão,
R.

Iara na Janela said...

Menino, mas que viagem tu fez hein? Me senti dentro do Fantástico Mundo de Guarabyra (ou seria do Roberto?). Daria um ótimo conto a la Gabriel, o Garcia.

Quanto a regressões, mui mui perigosas... sei lá o que podemos descobrir né não?! O máximo a que cheguei foi um relaxamento hipnótico, coloquei todos os homens da minha vida dentro de um regrigerador, acredita?!

Vou continuar na tua trilha...com muito prazer.

Beijos...

anjobaldio said...

Caro Roberto, tudo bem?
Infelizmente não pude ir na abertura da exposição (tô em Cruz das Almas na Bahia), mas ela ficará ainda uns tempos em cartaz. Você poderá verificar no site.
Grande abraço.

Primeira Pessoa said...

Iara,
tenho até medo de descobrir quem eu fui. Falo embasado no pânico que tenho de descobrir quem eu sou, essa eterna peleja.
Como dizemos em Minas, "um trem medõin".
Sua "viagem" me fez lembrar de uma maluquice coletiva que escrevemos, Guarabyra, Ademir Fernandes (saudoso editor da Agência Estado) e eu, sobre uma namorada de Guarabira, que foi fatiada e colocada em latas de conserva e vendida para o grupo de suupermercados Paes mendonça. Nossa peleja era encontrar as latinhas "premiadas" e reconstituir a amada dele.
Não, não estávamos sob o efeito de nenhum cogumelo alucinógeno. Mas nos divertimos pra caraleo.
E lá se vão uns dez anos.

Abração do
Roberto.

Primeira Pessoa said...

Nelson,
da próxima vez me avise com antecipação. Sou editor de um jornal aqui na Costa Leste e teria o maior prazer de publicar algo a respeito.
Grandabraço do

Roberto.

LauraAlberto said...

Qual regressão, qual quê!
Viva a imaginação, e as crónicas inteligentes com as quais nos presenteia.
Um grande sorriso!

Primeira Pessoa said...

que bom que você gostou.
se você for pensar direitinho, qualquer coisa é motivo pra uma crônica.
no brasil existiu um senhor chamado Rubem Braga, que transformava a queda de uma folha de árvore, num desfile de carnaval.
se puder, Laura, leia esse senhor.
ele fez-se (e tornou-se famoso e respeitado) escrevendo esse gênero literário que os puristas chamam de "menor": a crônica.
você vai adorar rubem braga.

obrigado pelo carinho, pelas palavras cheias de afeto.

R.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Roberto, texto mais maior de grande. Você não nega a procedência mineira. Vivas a Guarabyra também. Há braços.

nina rizzi said...

suas crônicas são agudas, meu caro, agudas de boas, tanto quanto uma boa música :)

e cmo tu é prolífico, hein, mal tou conseguindo acompanhar a tempos... rsrs..

beijo.

Primeira Pessoa said...

Paulo,
você escreveu Há Braços...
e me senti abraçado.
Ternamente.
Retribuo, amigo...
o abraço é a forma de afeto mais verdadeira. Mais que o sexo (rs).
É troca de calor, de energia...
meus melhores ha-braços estão guardados. rs
e-ternamente.

Roberto.

Primeira Pessoa said...

Uai, Nina...
você é que uma globetrotter da blogosfera, é querida em tantos cantos e se multiplica...
você, que é uma espécie de madre tereza de maranguape (rs)... algo assim... e sai distribuindo gentilezas e afeto à mancheia...

putz... tanta gente que gosta de você.

ah, e essas cronicas são velhas.
nova é a nossa amizade.
e é tão boa, que já nasceu velha.

notou isso?

beijão do

roberto.

Lara Amaral said...

hehehe... Então sua viagem ao passado foi bem mais interessante que a dele =).

Muito bom!

Beijo.

Primeira Pessoa said...

e não gastei um centavo, Larinha...
acho que ele não me perdoou até hoje por essa crônica... rs

beijào pra voce.

Roberto.

Lou Vilela said...

Acho que vou seguir a receita. Espero me divertir tanto quanto lendo a tua crônica, minino danado de bom!

Abraços

Primeira Pessoa said...

Fica mais barato fazendo em casa, Lou.
abre uma garrafinha de vinho, põe um cd da Ennya pra tocar... jogue o esqueleto no sofá...
E deixe a imaginação de te levar...
Mas compre um bilhete de ida e volta... Vai que cê gosta e resolve ficar Cleópatra...rs
Precisamos de você, por aqui.
abração do

Roberto.

Mai said...

Eu já regredi - menos grana e menos nobre. Mas um amigo regredir a vivência do outro, só aqui em teu blog.
Dois dedos de prosa e bem agradável - desceu feito uma boa cachaça que nem arde.

abraços,
bom te encontrar por este mundo nético...

Primeira Pessoa said...

Mai,
sou cachaceiro assumido. Pinguço é um outro papo...rs
Aprendi a gostar de cachaça, que sempre foi muito discriminada... acho que por causa dos pinguços.
Pois bem, a boa cachaça não arde. O sabor da cana tá lá. E a madeira em que foi empipada (existirá essa palavra?), também.
Bem vinda ao blog.

Se pelo menos tivéssemos dois dedim de cana pra brindar...

Fica o abraço do
Roberto.

gentil carioca said...

Há muito não ouvia notícias de Guarabyra!!!
Bom saber que ele está bem, cantando e viajando (em vários sentidos) por aí.
Adoraria fazer uma regressão e voltar no tempo em que o Rio ainda era super maravilhoso. Se outra vida tive, com certeza estava ali, à beira da Lagoa, ao lado do mar...

Primeira Pessoa said...

sonia,
acabei dormindo na resposta ao seu post.
tenho escutado pouco do guarabyra. no outro dia ele me mandou um mp3 do novo disco do trio, gravado um pouco antes do falecimento do zé rodrix. e a música tem o rio como tema. fala de copacabana, etc e tal...
to morrendo de vontade de retomar minha amizade com ele.
tomara que role em 2010.
amo esse cara.

beijão do roberto.

Fernando Campanella said...

Muito bom o texto, Roberto, que irreverência mais suave e gostosa, rs.... mas se os caras da New Age te pegam vão te esfolar vivo... Olha, já tive certas buscas e experiências com regressão, já estive em terapia Reichiana, Junguiana, Freudiana, já fiz biodança, ja fui em Espiritismo, já ouvi New Age, já estive 'en passant' em comunidadas alternativas, já fiz de tudo, rs.... de tudo isso peguei a lucidez de continuar a ser o que sou, mas com certa evolução, mas acredito que essa evolução foi dada mais pelos trancos da vida mesmo, rs...
Hoje, me dou o direito de ser neurótico às vezes, de ser consciente quando necessário, de ser sensível, de ser chato, o direito de ser eu. Mas, de tudo isso , ficou a paixão por natureza, por boa poesia, por arte, etc... E veio também uma grande paixão por fotografia. Acredito que integrei bem, sei lá.... Desculpa o papo cabeça, rs.... Forte abraço, meu amigo.

Primeira Pessoa said...

Fernando,
papo cabeça é bom demais.
quando a companhia é agradável, tudo dá encaixe.
sou espiritualizado, mas~me sinto tremendamente incomodado dentro de igrejas. não me pergunte o porque.
acho que a igreja ideal é o sapado de um homem.
Deus caminha dentro dos meus sapatos, isso lhe soa arrogante?

abração,
Roberto.

Fernando Campanella said...

Não soa arrogante , não, Roberto, há pessoas que precisam deste ritual, outros de rituais mais íntimos, mais próprios. Não sou católico e não sinto falta de sê-lo. Mas adoro a arte , a arquitetura das igrejas, principalmente antigas, do Brasil, os símbolos e motivos são muito bonitos, adoro vitrais de igreja, por exemplo. Na arte da religião católica eu consigo enxergar certa espiritualidade que me encanta. Mas prefiro fotografar paisagens, rs, a ir a uma missa. A natureza para mim é uma fonte incrível de inspiração. Grande abraço, meu amigo, obrigado pela visita no blog.