Tuesday, January 26, 2010

A Música Que Toca Sem Parar

.

















A música que toca sem parar vem de Ferreira Gullar (a voz emoldurada pelas cordas de Nonato Luís), recitando um poema importante de sua obra.


PRIMEIROS ANOS

Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas .
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.

(Buenos Aires, 1975)

22 comments:

líria porto said...

ma-ra-vi-lho-so!!

o ferreira gullar me faz respirar mais depressa... olha isso:

"E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul"


(o nonato luís salta dois versos, mesmo assim é linda a declamação!)

besos

Primeira Pessoa said...

Líria,
esse disco foi gravado no finalzinho da ditadura.
e as palavras "merda" e "colhões" foram vetadas pela censura.
então gravaram omitindo os dois versos.
foi isto.

beijão do
R.

líria porto said...

foi o que supus... eita tempo brabo! as antas dos censores não conseguiam conter o pensamento libertário - meu amigo zé, o zé maria rabêlo, foi exilado no chile, depois allende caiu e eles foram para paris.
besos

Iara na Janela said...

Que coisa mais linda...
Baratas, formigas, galinhas, somos todos muito muito pequenos! E há tantos sapatos querendo nos esmagar que custa acreditar, às vezes, na humanidade.
Mas a poesia de Gullar nos salva disso. Poder denunciar os horrores do século XX sem renunciar ao seu lirismo incontestável reitera Drummond: "uma flor nasceu na rua! [...] É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".

Beijos.

Fernando Campanella said...

Muito lindo poema , mesmo, versos realistas ainda embrulhado de fina poesia. Curto muito o Ferreira, até escrevi uma crônica sobre ele lá no blog , mais ou menos em abril de 2009. Beleza a declamação. Grande abraço.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Bravo, Roberto. Não é por acaso que Gullar é o nosso maior poeta vivo. De repente um salto da infância para o obscurantismo. Belo, belo. Forte abraço.

Linda Simões said...

...Longe do mar
Longe do amor...


...


Bom vir aqui.



Beijo

Assis Freitas said...

Bonita a declamação do Ribamar do Piauí, os versos ainda estão vivos, mesmo hoje em plena era capital. abraço.

líria porto said...

fui ao mercado central - lembrei-me de ti!
besos

ALUISIO CAVALCANTE JR said...

Caro amigo.

Aqui em Fortaleza costumamos quando possível reunir amigos para ouvir Nonato Luís.
Juntar o seu talento ao poema do eterno Ferreira Goulart é um presente e um alimento para o espiríto.

Fica com os sonhos sempre.

Beatriz said...

a poesia de Ferreira Gullar é realmente arrebatadora.

Iara na Janela said...

ei rapaz!
cadê vc?!
vc faz muita falta...
espero que esteja bem...
tô bem acostumada com as suas postagens diárias e seu carinho de sempre!
beijão!

leonel said...

Que excelente lembrança de Gullar! Sem qualquer tipo de trocadilho ou coisa parecida, Gullar nos faz devorar os versos que dele saltam, e, a nos fomentar cada vez mais de sua escrita. Algo realmente espetacular.

Um abraço! Bom estar por aqui.

nina rizzi said...

querido, tem um poema te esperando lá no ellenismos.

um beijo ferreirento.

Iara na Janela said...

ah menino...
tô preocupada com vc, por onde anda?
não nos assusta, que nós te gostamos.
tá tudo bem?

beijos e carinhos.

Primeira Pessoa said...

Lirica,
simbora comer um tropeirão no mercado?
meu irmão tá por aqui... isso, aqui mesmo, aqui... bh!... podemos ir sapecar um peéfão com todas as indulgências cabíveis...
o que diz?
ó, cheguei na semana passada, mas passei uns dias tomando um banho - leia-se overdose - de barroco (quanto to começando a despirocar faço sempre esse ritual e me faz bem demais)...

devo ter viajado uns 400 quilometros, sem destino, minas adentro (por dentro de mim)...

sei que voltei melhor.
sei que voltei.

beijão do
roberto.

Primeira Pessoa said...

Iara,
esse poema foi gravado num disco lindo, o Projeto Soro, que tinha também outras coisas muitos legais.
e sempre me identifiquei muito com esse poema de Ferreira Gullar. s-e-m-p-r-e!
reeencontrei-o a tempo de compartilhar com vocês.
beijão do
roberto.

ps: afastei-me da net um bocadinho pra poder visitar o lugar que me viu nascer.
e ta me fazendo um bem enorme.
portanto, não se preocupem: eu falho e tardo.

Primeira Pessoa said...

assis,
vou te passar por email meu contato aqui no brasil.
me manda o ulisses?

beijao do
roberto.

ps: esse ribamar é fodástico.

Primeira Pessoa said...

aluisio,
vocês são abençoados por terem violonistas da lavra de nonato, cirin e manassés.
imagino que essas reuniões devem ser encantamento puro...
o manassés é um amigo querido... trata-se de uma dessas amizades bissextas que fazem a vida valer a pena.
quero estar em fortal, em breve, pra revê-lo e, quem sabe, tomar uma cerveja em sua companhia e compartilharmos um solo do vento terral... e, quem sabe, um balte inteiro de canções...

abraço você.

R.

Primeira Pessoa said...

beatriz,
concordo plenamente com você, e com a escolha da palavra que usou:
arrebatamento!
é isso, o que é, a poesia de Gullar.

abração do
roberto.

líria porto said...

hombre de díos - hoje foi um dia tão doido, só agora entrei na net - e essa novidade - estás no pedaço!!!

miliga pra combinarmos!!
besos

Daniel Hiver said...

Ferreira Gullar em alto estilo. Direto. Sem meias palavras. Ferreira presente num belo blog repleto de preciosidades.
Parabéns pelo blog.
abraços