Tuesday, January 5, 2010















A Música que Toca Sem Parar

Cena Um
Entro no vôo Tam, que me levará a São Paulo. Dentro do meu coração toca um samba.
Antevejo o encontro com amigos queridos, uma festa em azul e uma carreata apoteótica pelas ruas de meu destino final.
Desembarco em São Paulo e reembarco quase que imediatamente para Belo Horizonte, onde Pedro Santana me espera.
Vamos até sua casa, tomo um banho para tirar a poeira de Nova York e retorno ao aeroporto para receber o cantor Renato Braz, que vem de São Paulo para se juntar a nós, nesta festa que se anuncia inesquecível.
Na volta a Confins já não tenho a companhia de Pedro, mas de seu pai Euler.
Estamos animados.
O burburinho indica que algo de grandioso está para acontecer. É sempre assim nos momentos que antecedem a grandes acontecimentos em BH.
Fica aquela atmosfera diferente.
Aquele cheiro de inusitado no ar.
Renato atravessa o saguão do aeroporto e recebo um abraço afetuoso, falamos bobagens, cantarolamos uma melodia que entoamos todas as vezes nos reencontramos, uma canção de amigos.
Testemunhamos uma manhã bonita na capital de Minas Gerais.
O céu está azul, poucas nuvens.
Flerto com os buritis na paisagem à beira da Linha verde, e meu pensamento viaja pra longe, como se buscasse uma brisa de mar.
Dentro de meu coração toca um samba.

Cena Dois
Telefonamos para Celso Adolfo ainda no carro. Ele se junta a nós no mercado central. Esgueiramo-nos entre frutas, carnes dependuradas em ganchos de alumínio, peças de artesanato e vozerio das pessoas, até que arranjamos uma mesa de fundo no Casa Cheia. Conheço bem esse lugar.
Cerveja, cachaça, canjiquinha com costelinha defumada, jiló com picadinho de pernil na chapa, indulgências que saciam muito mais que a fome. Não se é mineiro impunemente.
Cafezinhos, cigarro de palha, água mineral, um passeio para comprar queijo e pinga da boa pra levar na bagagem, euforia...
Passo no apartamento de Juan Pablo Sorín para apanhar meu bilhete para o paraíso. Pego no colo sua filhinha Elizabetta, apanho uma tangerina na fruteira, bebo água e espero um café de máquina.
Dentro do meu coração toca um samba.

Cena Três
Chegamos ao Mineirão: 61 mil pessoas superlotam o Gigante da Pampulha.
Fogos, fumaça azul, cantos de guerra. Fumo um parliament atrás do outro.
O Cruzeiro entra em campo.
Logo no primeiro minuto, o gladiador Kléber é atingido com violência na lateral do gramado. O juiz nem marca falta. Tenho um pressentimento ruim.
O jogo se arrasta nervoso e sem brilho. Minha agonia se alastra dos pés até o último fio de cabelo. Começo a ter pesadelos de olhos abertos.
Diante de mim passam cenas do maracanaço de 1950 e do desastre de Sarriá, em 82, na Espanha.
O Estudiantes catimba o jogo. O árbitro tem uma atuação pífia.
Verón come a bola no meio de campo e dá uma cátedra para quem quiser ver; Ramires some da partida, parece já ter partido para Lisboa; Kléber fica isolado e a bola não chega; Gerson Magrão é uma caricatura de lateral esquerdo.
“Coloca o Sorín, Adilson!”
Grito. Esbravejo! Mas ele parece não me ouvir.
Sofro!
No entanto, por um breve instante, chego a pensar que Deus é brasileiro.
Henrique acerta um petardo de fora da área.
Explode uma fumaça azul nas arquibancadas.
Parece que a festa acontecerá, finalmente.
Inicia-se uma espécie de dominó humano.
Torcedores caem uns sobres outros, abraçando-se, como se fossem irmãos.
Desabo sobre Renato Braz, que tenta me amparar e também cai.
Mas é gol!
Gooooooooooooooooooooool, caramba!
Gooooooooooooooooooooooooool!

Sai do meu peito um grito entalado, que me liberta de meus pecados, arrancando da sola dos pés toda e qualquer frustração cotidiana e me cobre de glórias.
Mas é alegria passageira, como um amor de verão.
O Estudiantes empata logo a seguir e vira o jogo num espaço de minutos.
Silêncio nas arquibancadas.
Procuro escutar a alegre batucada que me acompanhou desde o momento que saí do aeroporto JFK, mas nada escuto, além de uma voz a sussurrar ao meu ouvido que Diós nasció en Buenos Aires.
O samba parou de tocar, é fato.
Mas argentinos Dançam no tapete verde do Mineirão.
O que dançam eles?

Epílogo
Num bar da Avenida do Contorno, comemos e bebemos em silêncio.
Belo Horizonte está deserta. São quase 3 da manhã.
Os derradeiros boêmios chegam para a saideira .
Minha cabeça está vazia e consigo sentir uma cratera erodindo em meu peito.
Fecho os olhos, busco uma música, qualquer música, para me alentar.
E eu a escuto.
Dentro de mim toca um tango!

12 comments:

Assis Freitas said...

A música não pode parar de tocar mesmo com essas companhias: Renato Braz e Celso Adolfo. E uma bela cronica como esta precisa de boa música. Abraço.

Primeira Pessoa said...

Assis,
você conhece o trabalho dessas figuras da crônica?
Rapaz, no país do Bonde do Tigrão e Preta Gil, pouca gente sabe quem é Celso Adolfo e Renato Braz. Fico contente de saber que não estou sozinho no mundo.
A maior parte dos meus amigos são músicos. Há mais de 20 anos no jornalismo e mesmo estando à frente de uma associação da classe, assumo, não encontrei muitos "iguais". Minha alma é de músico.
Nasci com coração de oboé.
Todos os dias, na hora da Ave Maria, fico triste.
Abraço imenso, com música e poesia.
Roberto.

Magnolia said...

Só conheço mesmo Renato Braz e gosto....e gosto da delicia que são estas tuas crónicas...
Beijo

Primeira Pessoa said...

Renato adora Portugal, Magnólia. Já foi algumas vezes ao país.
Você tem bom gosto literário e musical. Parabéns!
Grande abraço do
Roberto.

Dois Rios said...

Pois é, caro amigo, um dia me descobri sem motivos pulsantes para continuar tocando o blog e então resolvi cruzar os remos. Um pouco mais adiante o Rio foi escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016 e a euforia da notícia levou-me a abrir uma exceção que perdura até hoje.

Desde já agradeço o seu gentil comentário que, por sinal, motivou a minha vinda até aqui e deixou-me diante de uma crônica, suave, gostosa de ler e o melhor, em SOL MAIOR.

Não curto o Bonde do Tigrão e muito menos a Sra. Preta Gil, mas também não conheço os músicos citados no seu post. Qual o caminho para conhece-los? Gostaria muito.

Um grande abraço,
Inês

Primeira Pessoa said...

Inês,
mando pra você uns mp3.
Deixe um email de contato. Tenho certeza de que você irá apreciar.
Mantenha os remos na água, muito além da olimpíada, os leitores do seu blog irão apreciar muitíssimo.
Eu, entre eles.
Grande abraço,
Roberto.

líria porto said...

e eu não estava lá no casa cheia... sniff...

sabe duma coisa que amoadoro no mercado central? fígado acebolado com jiló!!!

besos

Fénix said...

http://www.youtube.com/watch?v=VUEJtlMYtAU

Dançamos então?

Primeira Pessoa said...

Líria,
de menino eu não gostava de jiló e nem de fígado. Dizem que o paladar apura com o tempo. Hoje adoro jiló com'"figo" acebolado, feito naquela chapa que não é lavada apropriadamente desde os tempos de Kafunga. Bão até pra comer de pé, copo de cerveja na mão... Levando encoxada da multidão que passa.
Aquelas galerias são um caos.
É por isso que prefiro uma mesa mesa no Casa - Sempre! - Cheia.
abração do
R.

Primeira Pessoa said...

Fenix,
é lindo o tango que você mandou. Mas só tem um probleminha básico:
eu não sei dançar.
Nasci com dois pés esquerdos (não é lenda... pode perguntar pra quem me conhece direito).
mas agradeço o belo presente.
Abraços do
Roberto.

Anonymous said...

Oi Roberto,

Obrigada pela visita e comentário. Estou de férias, passei numa lan house rapidinho e vi seu comentário em meu blog. Qdo voltar à ativa conheço melhor seu blog, gostei das informações em seu perfil, creio que vou gostar da leitura de seus textos também.

Abraços de troco.

ragimoana.blogspot.com

Primeira Pessoa said...

Obrigado!
e volte mesmo. Ficarei feliz de te ver por aqui.
Grande abraço do
Roberto.