Wednesday, January 20, 2010


















A verdadeira cidade eterna

Ultimamente tenho tentado me reaproximar de Governador Valadares.
Sempre amei Valadares, cidade em que passei 17 felizes anos de minha vida.
Há muito tempo não apareço por lá.
Meu medo é o de que aquele lugar que cresci amando, já não exista mais.
Algo como um amor da adolescência que você reencontra, muitos anos depois, casada, maltratada, mãe de filhos, esperando a condução num ponto de ônibus.
Ainda não aconteceu comigo.
A Valadares da minha saudade tinha coqueiros beira-rio, ingazeiras, mangueiras onde se colhia frutas de ouro, suculentas e doces.
Em São Raimundo - o bairro que me viu crescer -, as ruas tinham nome de pedras.
Os poetas Abel Costa e Bispo Filho moravam na Esmeralda.
O meu pouso era na Topázio e os amigos de futebol, Marquinhos, Ney e Wellington Mingau viviam na Turmalina.
Joguei bola na Granada, quase namorei uma moça na Ametista, corri da polícia na Safira.
Nada grave, apenas um bando de meninos pulando a cerca de uma chácara alheia para colher carambolas, jambos, jenipapos e pitangas.
Na minha Valadares tinha campinhos de terra batida e os varzeanos Ibituruna, Democrata, Pastoril, Copevale, Covepe, Santa Helena, Everest e o inesquecível Vermelho 27.
O rio, que ainda hoje atende pelo mesmo nome, Rio Doce, tinha margens verdes, prainhas, remansos, corredeiras, e peixes de ouro e prata.
Tinha piau, tucunaré, timburé, corvina, lambari, bagre e tantos outros tipos de peixe, que eu precisaria de uma crônica inteira para tarrafeá-los.
Na cidade que resiste em minha emoção como oitava maravilha do mundo, tinha uma pracinha e uma fonte de onde jorrava uma cascata luminosa que mudava de cor.
Tinha banquinhos de cimento onde casais namoravam sem medo de assalto; tinha ainda um pipoqueiro e meninos sem camisa carregando caixas de isopor entoando o bordão: Aê o picolé! Aê a laranja!
Tinha castanheiras frondosas espalhadas às margens das estradas, ypês amarelos e roxos aos pé da serra e flamboyants que sangravam no verão.
Na Valadares - que não morrerá jamais - existia uma santa que nos abençoava do alto do pico do Ibituruna, braços sempre estendidos, sorriso enigmático anunciando chuvas.
Minha cidade eterna tinha personagens igualmente eternos, como o ceguinho Olé.
Reza a lenda que Olé teria ganho na loteria mais de uma vez, mas que continuava a esmolar pelas ruas por puro prazer.
É a mesma cidade de Adriano Dias da Silva, o Casca Grossa, lenda do radio, uma espécie de celebridade local e que acabaria se elegendo vereador.
Cidade de Beto Tranca-rua, repórter esportivo que também acabaria enveredando pela política, mesmo caminho escolhido por Júlio Tebas Avelar, homem que inventou o colunismo social nos jornais da cidade e que hoje colhe bonanças.
Naquele lugar que não morre nunca, jovens de ambos os sexos se amontoavam nas proximidades do cine Pio XII para tomar sorvete, comer cachorro quente e flertar nas noites calorentas de sábado.
Naquela cidade em que cresci, os vizinhos eram vizinhos de verdade, uma espécie de extensão da família.
Muito mais do que receitas de bolo e fofocas do cotidiano, trocavam gentilezas que iam de um pouco de pó-de-café a uma caneca de açúcar, quando a lata da casa de alguém ficava vazia.
Viravam compadres, apadrinhavam filhos uns dos outros, casavam os filhos de uns com os dos outros, consolavam-se nas tristezas, ficavam felizes nas alegrias.
Láquele lugar encantado tinha leilão de gado e barraquinhas no parque de exposições, festa junina com bandeirolas coloridas, quentão, canjica, batata doce e fogueira no pátio da igreja.
Minha cidade eterna tinha quadrilha, dias de chuva e sol, sol e chuva, e casamento de viúva.
Também tinha quermesse e novena, um padre que nos ‘passava o sabão’ e um serviço de alto-falantes que despejava Roberto Carlos, Wanderléa e Wanderlei Cardoso sobre nós.
Tinha passarinhos nos quintais: tizís, rolinhas, canários do reino, curiós, andorinhas e cuitelinhos, que muitos chamavam de beija-flor.
E tinha muito mais.
Na Governador Valadares do meu coração tinha cantos encantadores em todos os cantos, e tantas outras maravilhas, que acabou fazendo de mim esse homem estranho, que passa o resto de sua vida correndo atrás do menino e do rapaz feliz que foi.
Esse homem que passa seus dias como um cão andando em círculos, tentando morder o próprio rabo.

22 comments:

líria porto said...

diferente de ti, eu tinha uma rua - a casa era na paissandu, 44 - período mais alegre de que me lembro... depois mudamos, fomos para a praça getúlio vargas, a fonte luminosa de frente à janela do nosso quarto... isso em araguari - perto do berlândia e do beraba... (rivalidade acirrada a das três cidades com bbb)

influências
líria porto

dos sete aos dezessete anos
idade das dez razões
vivia perdida entre a sólida casa
da rua paissandu
e o quintal sem vergonha
que descia o quarteirão
em direção à boemia

doutor adhemar dona nenên e filhos
do lado do sol

maria-beira-mar borboletas e mariposas
na banda da lua

*

vivi assim, entre a nobreza e o bordel...
besos

Paulo Jorge Dumaresq said...

Bela crônica, Roberto. Cada um de nós tem a Valadares única e insubstituível na memória. Um grande texto. Parabéns e continue produzindo para o bem da nossa cultura. Abs.

nina rizzi said...

gostei muito também... reminiscênias... eu moro em fortaleza/ce, mas sou paulista de campinas, cidade que não me trás nenhuma cidade... mas às vezes sinto falta de um outro friozinho, aí vou pra serra de guaramiranga...

ah, amanhã eu trago o livro com os poemas de portinari e te transcrevo, tá ;) ahn, ele também é de meus preferidos.

beijo.

Assis Freitas said...

O retorno ao seios de uma cidade, pode ser Valadares, ou a musa/mulher Duília de Aníbal Machado.

p.S. O 1001 poemas completa hoje a 100 postagem. Vim agradecer pela presença das palavras e a companhia na travessia. Abraço.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

De aqui de Valadares, 2010 infinito:
Posso lhe dizer, pro mundo ouvir, Roberto, só carrega essa saudade no peito quem fez bem feito o dever (e devir) de casa, que é seu caso.
Desta cidade você jamais será o filho pródigo, mas o prodigioso filho que saiu para construir uma história rica e limpa, de que nos orgulhamos todos os valadarenses.
Um dia você brincou que parte da minha infância daria crônica, pois lhe afirmo: sua trajetória dá filme, de roteiro felliniano, e se me permite, eis o título:

"De São Raimundo Para o Mundo"

(Você é um daqueles casos raros que não negam o interior do seu interior, e isso é Vander Lee, e é o maior capital que se pode guardar) e eu vou ficando por aqui, amigo...

Por que o Rio Doce também corre em sua direção,
Ramúcio.

Primeira Pessoa said...

líria,
so descobri o que era bordel quando já não me interessava mais por essas coisas...rs
meu pai era polícia, eu morria de medo de dar de cara com ele, policiando...

são raimundo era (e ainda deve ser) um bairro extremamente pobre da periferia de valadares.
mas eu gostava demais daquele lugar.

e tenho medo de voltar lá e constara que não era nada daquilo.
ou, que não é nada disto.

beijão do
roberto.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
você é da capital?
se for do interior, sei que sabe exatamente do que to falando...

bom te ter por aqui.
abraçào do
roberto.

Primeira Pessoa said...

assis,
vou te mandar pelo email o endereço para onde quero que mande o ulisses.
recebeu por aí as cantigas?

abs,
roberto.

Primeira Pessoa said...

ramúcio,
mande por aqui mesmo seu telefone de contato. vou com o seu lima aí, muito em breve.
e aí quero retribuir cada palavra carinhosa sua, com o melhor abraço que eu tiver.
abraçào do roberto.

Primeira Pessoa said...

nina,
um de meus melhores amigos e padrinho de bebel, minha filha do meio, é campineiro.
fábio portugal é torcedor da ponte preta e uma das figuras mais extranhamente doces que conheci na vida.

e temos um pacto de compadres: em minas ele é cruzeiro... em campinas, sou macaca desde criancinha.
semana passada ele me deu um presente engraçado: dois frascos de pimenta que ele mesmo preparou, após un curso de 40 minutos no mercado de campinas, onde esteve a passeio.

amo-o, de paixão.
e paixão é o nome do meio dele (rs).

beijão pra ti,
roberto.

ps: o manassés de souza, grande amigo, grande músico, mora em maranguape e tem um estúdio ali, naquilo que ele chama de serra.
com odo respeito?
esse frio aí eu faço, apesar das vaias, só de cueca.

Iara na Janela said...

menino, senti o cheiro e tantos detalhes, delícias imagéticas que pululam dentro de cada interiorano sensível às belezas do interior... com exceção das frutas, a mim quase desconhecidas, tudo aqui me lembrou não só Currais Novos, mas outras cidadezinhas (menores mesmo que a minha) em que morei...
vc fala dos flamboyantes sangrando, me lembrei das castanholas sangrando pelas ruas daqui e de um conto que eu fiz sobre um cara diferente de tudo de seu lugar que resolveu escrever seu nome num muro, com borra de castanhola... foi apedrejado por sua tentativa de ser...
por que será que, sejam pequenas ou grandes as cidades que nos são eternas, estamos sempre buscando um pouco de nossa eternidade?
retórica, pra que te quero?!
lindo demais seu texto... no meu sertão chove muito agora, faz frio, mas nem me sinto fora daqui... essa coisa da eternidade é forte mesmo...

um xero bem grande!!!!!!!

Lara Amaral said...

...esse homem que tem o dom de nos fazer conhecer lugares através de suas palavras.

=)

Beijo procê.

Primeira Pessoa said...

Iara,
acho que o interior é igual pra todo mundo. Falo com muitas pessoas sobre isto e cada um tem a sua figueira, sua castanheira, seu banquinho de praça...
e isso é muito legal, pois ja dizia aquela música do Milton (Notícias do Brasil... aquelazinha em em que ele dá a dizer que o Brasil não é só litoral.
E eu não falo isto com mágoa ou inveja provinciana, que fique claro. Isso não é birra de montanhês... não é... sou cheio de imperfeições, mas não possuo um único osso invejoso mem meu corpo. isso eu garanto.
ó, o brasil é belo de cabo a rabo.
e igualmente especial (na alegria e na tristeza).
abordando a "eternidade", acredito piamente que a eternidade é a infância.
o menino e a menina que habitaram nossas vidas, não morrem jamais.
já notou?

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

Larinha,
fico feliz que existam pessoas prestando atenção, escutando o que tenho a dizer.
isso dá um significado à minha existência e à minha peleja de "juntador de palavras".

abraço enorme pra voce.
roberto.

nina rizzi said...

roberto,

fui ao "ceará instrumental" semana passada, cujo músico homenageado foi manassés, que aliás fez um belíssimo concerto.

podemos fazer um pacto também, que eu sou maca ferrenha, quando morava lá não saia do estádio.. rs.. e ai, fico com cruxzeiro sim :)

eu adoro pimenta, mesmo maltratando a vesícula :p

com todo respeito? rsrs.. friozionho né de maranguape não... e friozinho, é friozinho bão, magina se vou querer neve, arre. rsrs

beijo (sim, mais tarde o portinari que esqueci em casa.. rs)

LauraAlberto said...

Roberto:
da forma como a descreve, a terra qu eo viu nascer é linda.
Quanto a andar aos circulos sem bem o que isso é.
O partir, chegar, voltar ao inicio sem sair do lugar.
Abraço

Primeira Pessoa said...

nina,
amo o mana. uma amizade bissexta muito legal. cada reencontro é garantia de farra e prosa da boa.
estive em fortal há uns 2 anos (acho) e ele apareceu no hotel. fomos pra casa dele em maranguape e passamos o dia em indulgências e pequenas contravenções (rs)
quase estourei o fígado.
e, sim, ele toca muitíssimo.
sou fã desse cabloclo maranguape.

beijão do
Roberto.

Primeira Pessoa said...

laura,
acho que a beleza está nos olhos de quem compra.
e tenho essa tendência de ahcar tudo mais bonito, do que feio...rs
acho até que se eu tivesse nascido no haiti, pós-terremoto, acharia, ainda assim, um motivo, uma beleza, para cantar meu lugar.

fico muito feliz que tenha gostado da crônica.
abraçào do
roberto.

Fernando Campanella said...

Eta nostalgia gostosa, rs... Incrível , moro no mesmo lugar há muito tempo e é minha cidade de infãncia, de nascimento. Morei em outros lugares como dois anos em Belo Horizonte, Poços de Caldas, Cambuí, Itajubá, mas nasci aqui, e aqui tenho vivido até agora a maior parte de minha vida. Mas como tudo mudou, como Minas mudou. Acho que na realidade nós que escrevemos sonhos queremos a Ítaca do Kavafis, a Pasárgada do Bandeira, etc.... é o reino mítico que queremos, Roberto, nossa viagem que empreendemos é para dentro. Grande abraço, amigão, obrigado pelo carinho. Ah, gostaria de te pedir um favor: eu gostaria muito de colocar música em meu blog, mas não sei como fazê-lo, poderia me explicar 'tintim por tintim', sem usar o 'tecnologês', rs...
Enorme abraço, ótimo final de semana. Inté mais....

Primeira Pessoa said...

fernando,
vou ser esse eterno vira-lata, tentando morder o próprio rabo.
sou uma espécie de gigolô da saudade...rs
olha, eu não sei fazer. um amigo colocou pra mim o gadget da radiola. vou pedir pra ele fazer um textículo bem explicadinho pra você. é
qualquer coisa que cê coloca - um código - lá no negocim de HTML do seu blog...
me aguarde, assim que ele fizer o textículo, eu te mando por email.
aprendi colocar a música lá no breguete. ah, isso eu aprendi...rs

abração do seu amigo
roberto.

Fernando Campanella said...

Obrigado, Roberto, vou aguardar, um abraço, ah gostei da crônica sobre o boteco, orgulho cem por cento nacional, rs.....

Primeira Pessoa said...

fernando,
que a vida nos reserve um momento boteco, para esmiuçarmos sobre tudo e nada.
vou pedir ao meu amigo que faça o mapa da rádio pra voce...
abração do roberto.